A maioria de vocês sabe que eu trabalho no IBGE, agência aqui de Três Passos, e que estamos em greve. O movimento começou no início de junho e a partir do dia 18 deste mesmo mês se tornou oficial, tendo um crescimento constante. Os IBGEanos do Rio Grande do Sul foram pioneiros e serviram de base para os outros estados brasileiros. Hoje temos uma greve consolidada. Em nosso estado, são 22 agências do IBGE com paralisação total, 13 agências com paralisação parcial e apenas 2 agências que não aderiram ao movimento. No Brasil, temos 20 estados em greve, sendo 23 núcleos, visto que no Rio de Janeiro há 3 núcleos parados.
O que vem acontecendo é que muitas pessoas me perguntam o porquê de estarmos em greve. Imediatamente, o que me vem à cabeça é: por que esta pessoa não sabe isto? Porém, nem há como culpá-la de não saber. Ou vocês vêem um movimento deste tamanho, somado a todos os movimentos de greve de vários segmentos do funcionalismo, aparecer na mídia todos os dias? O Jornal Nacional falou quantas vezes sobre este assunto neste período todo de movimentação. Sabe o que acontece? Falar de político corrupto lá de Brasília já virou entretenimento para o povo. Portanto, isto, que uma vez precisava inclusive ser filtrado para aparecer, com medo de gerar revolta, hoje virou mais uma novela diária a ser assistida, que serve para desviar a atenção de problemas muito mais importantes, como a vida do povo, da base da sociedade, de, por exemplo, movimentos políticos e sociais como este que é a greve dos servidores públicos no país. Enfim, hoje se fala do já corriqueiro e por que não folclórico corrupto político brasileiro para esconder os problemas sociais que estão todos os dias na escancarados em nossa frente.
Mas vamos então, finalmente, ao “porquê” da greve. Serei simples e direto e vou me deter ao IBGE, já que, como se diz, “estou no bolo”. O último acordo entre governo e servidores do IBGE foi no ano de 2005, com mudança de plano de carreira e reajuste salarial, este pago em três parcelas, nos três anos seguintes. Portanto, já são 7 anos sem qualquer acordo de novo reajuste. Os próximos anos são “destinados” à Copa do Mundo e Olimpíadas. Quando teremos voz? Em 2020?Quanto valerá este salário de hoje daqui a 8 anos? E falei logo sobre o salário para não ser hipócrita de dizer que este não é o principal objetivo do movimento. Porém, também queremos concursos para mais servidores. O IBGE, nos próximos três anos terá mais de 60 % do seu quadro funcional se aposentando. Quem vai trabalhar? Queremos qualidade no trabalho! Queremos manter intacta a história de um órgão que há quase 80 anos vem mostrando a realidade do país com um trabalho de qualidade e comprometimento.

Tendo este quadro montado, vejo que a greve é um processo natural, inclusive previsto pelo governo, ou até usado por ele para justificar um possível aumento salarial para o funcionalismo. Simplesmente tirar o dinheiro que seria do banqueiro para aumentar o salário do servidor público não serve. Uma mobilização dos trabalhadores é o que o governo precisa como “desculpa” para atender seu quadro funcional. Então, todos vão deixando acontecer até que não haja outro jeito e os próprios servidores, até aqueles mais sossegados, inclusive, prestes a se aposentar, ergam-se e vão protestar. O povo não conhece o poder da sua união, mas o sente quando vive ela! Qual o porquê da greve? Será que ela tem exatamente um “porquê”, ou ela é mais um fato natural de vários quês e porquês que vêm acontecendo em nossa sociedade? Para o servidor, a greve é o último recurso utilizado. Para o governo, é apenas mais uma etapa de seu processo todo previsto e planejado. Um abraço do grevista Tocha!

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