Com todo o arcabouço existencial, filosófico e científico que nos ampara contemporaneamente, somos mais responsáveis por nossas atrocidades.

 

Diante do descalabro no qual temos vivido em nosso país, com tantos passos dados para trás, no que se refere a direitos dos cidadãos e cidadãs, bem como a compreensão acerca da realidade e o constante processo de desumanização que nossa sociedade tem assumido, tem sido comum ver e ouvir referências a respeito de estarmos de volta à Idade Média. No país dos memes, algumas referências a essa volta ao medievo são até mesmo engraçadas: já apareceram os fashionistasapontando os looks medievais que vão se tornar tendência por aqui.

São assombrosas as ações dos três poderes da República, no tocante a tantos retrocessos que nos têm sido impostos, bem como a onda reacionária que toma conta da população, mas esses momentos de reacionarismo não significam volta à Idade Média. É muito pior! Primeiro, é preciso um olhar menos preconceituoso para com esse período da História, deixando de considerá-lo como Idade das Trevas. Como em todos os períodos da história da humanidade, o medievo teve suas luzes e sombras. A criação das Universidades, uma arte maravilhosamente rica... essas são algumas das luzes desse tempo.

Sem dúvida, foi um período de muitas sombras. E essas sombras marcam, de forma profunda, a maneira como fizemos com que se desdobrasse nossa história: traços de religiosidade medieval ainda permeiam o imaginário de muita gente, por exemplo. Contudo, é preciso compreender que cada época tem seus próprios dramas e ambiguidades. E, mesmo reconhecendo as sombras desse período da história, criticando-os, é preciso compreendê-los dentro do imaginário no qual essas sombras se fizeram.

Cada época é construída dentro do marco de uma consciência possível. Todos somos filhos de nosso tempo. Há, porém, aqueles que conseguem transpor os limites dessa consciência: são os gênios, que enxergam além. É a partir dessa consciência possível que compreendemos a realidade e nela encontramos sentido. Ao passo que essa consciência vai se alargando, vamos dando passos, evoluindo como humanidade. Assim, mesmo que as sombras de todas as épocas sejam – e devam ser – criticadas, é preciso não pesar a mão no juízo sobre elas, pois a consciência possível de agora não é a mesma daquele tempo.

É justamente por isso que o que estamos vivendo é muito pior do que uma simples volta à Idade Média: nossa consciência possível é muito mais ampliada que a daquela época. O que faz com que esse descaminho que vamos percorrendo nos coloque numa posição muito mais criticável. Se, com todo o arcabouço existencial, filosófico e científico que nos ampara contemporaneamente, somos capazes de cometer tantas crueldades, de tornar indignas muitas vidas, não só humanas, de caminhar a passos largos rumos à destruição do que nos faz humanos, isso diz muito mais de nós, do que das pessoas que estavam completamente imersas na Idade Média.

Nessa grande crise humana pela qual passamos,fSem nos desresponsabilizar pelo caminho que nós próprios temos traçado, precisamos, sim, é aprender com a história. Não repetir as sombras passadas e, tampouco, dar azo às sombras que nos encobrem hodiernamente. É certo que, em meio ao desânimo e ao desalento, diante de tanta ruindade que nos cerca e nos envolve, é difícil perceber as luzes que despontam em nossa história. Mas elas existem. De Jesus, um conselho que nos serve, e muito: é preciso colocar as candeias em lugares altos, para que muito melhor iluminem (cf. Mt 5,15). É possível construir uma história iluminada, só depende de nós!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

 

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