Marcos Rolim

Só quem é capaz de padecer a paixão de viver sob as condições do deserto pode reunir em si mesmo, a coragem que está na base da ação, a coragem de se tornar um ser ativo. 
Hannah Arendt 

Há muitas coisas assustadoras na realidade política brasileira. As bancadas do século XV que dominam o Congresso, o governo Temer, os ladrões de todos os tipos e ideologias que infestam os partidos, o oportunismo cultuado à esquerda e à direita, a covardia, a ausência de espírito público são apenas alguns exemplos dos motivos que temos para espanto. Há, entretanto, um fenômeno para o qual se oferece pouca atenção e que revela um problema que pode estar na base de boa parte das mazelas que se ampliam. Refiro-me ao deserto da política brasileira feita, desde há muito, sem referência a programas.

As plataformas que os partidos apresentam em seus documentos oficiais são, via de regra, discursos invertebrados que evitam posicionamento sobre qualquer tema capaz de agregar dissenso e que reproduzem platitudes do senso comum. Na verdade, são peças de dissimulação, proponentes do engodo, especialidade dos seus artífices.

Os exemplos são inúmeros. Qual, na sua opinião, o partido que denuncia em seu programa a “avalanche neoliberal que pretende destruir o Estado brasileiro em nome do ajuste interno e de um hipotético ingresso na modernidade”? Que afirma, de forma inequívoca, o projeto de “continuar sendo a expressão política da maioria da população brasileira, oprimida e explorada por um regime econômico voltado para a satisfação de uma pequena minoria”?  Que se “identifica, primordialmente, com as lutas e os interesses da grande massa de marginalizados e excluídos”?

Se você marcou PT, saiba que essas frases são do programa nacional do PMDB. O PT sequer disponibiliza em seu site um programa político. Lá estão o manifesto de fundação, os estatutos, a carta de princípios, o código de ética e tudo mais, menos o programa. Aliás, o PT conseguiu a façanha de disputar as últimas eleições presidenciais sem apresentar um programa. Aqui no RS, como se sabe, Sartori fez o mesmo. Pela lógica política brasileira, a estratégia é, sabidamente, funcional. Não afirmar qualquer ideia virou uma vantagem em um modelo onde só as criaturas do deserto sobrevivem.

Quem der uma olhada nos “programas” dos partidos que se reivindicam de esquerda encontrará tediosos discursos cheios de sentenças e sem qualquer proposta concreta. O que eles chamam de “programa” são pontos anunciados de forma genérica e ao abrigo do realismo fantástico de antigas projeções ideológicas. Quanto maior a presença do deserto no discurso político, mais proeminente o oferecimento da proposição ideológica (no sentido de encobrimento da realidade). Não por acaso, os discursos que habitam a esfera política imitam o proselitismo religioso e seus adversários estão, por definição, sempre imersos no “pecado”.

Projetos políticos descarnados de um programa só podem ser sinistros. O que eles viabilizam é um jogo perverso que manipula sonhos e pesadelos. Pelo marketing, os candidatos especulam com as necessidades mais sentidas pelo povo, prometendo o que não podem entregar e mobilizando o medo sempre que necessário. Como os discursos não tem referência a programas e a posturas históricas, os eleitores não aprendem com os fracassos, porque sequer sabem que conjunto de ideias foi, afinal, posto à prova. Uma experiência do tipo, repetida a cada dois anos, é uma espécie de maldição que estrutura a negação da política.

A descrença nos partidos e no Parlamento, a ausência de perspectivas e o enorme vazio que abre espaço para o avanço do fascismo e para as aberrações que temos visto não é o resultado de um “golpe” ou de uma “armação midiática”. O problema antecede em muito esse momento histórico e diz respeito ao deserto político e moral construído escrupulosamente também pelo pragmatismo rasteiro e pelo cinismo de lideranças que colonizaram os partidos de esquerda e que sempre se julgaram capazes de tudo, tipo “líderes infalíveis” do povo. Nesse ponto, particularmente, elas se avaliavam bem. A essa altura do campeonato, afinal, só a velhinha de Taubaté duvida que elas fossem capazes de tudo mesmo.

(*) Doutor e mestre em Sociologia e jornalista. Presidente do Instituto Cidade Segura. Autor, entre outros, de “A Formação de Jovens Violentos: estudo sobre a etiologia da violência extrema” (Appris, 2016).

 

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