Muita gente foi em cana e talvez por sorte mais uma vez eu escapei de dançar pra valer.

 

Por Ricardo Soares*

Para “salvar” o Brasil , as Forças Armadas submeteram nosso país a um regime de força que durou de 1964 a 1985. Isso todo mundo sabe embora muita gente não tenha visto porque nasceu depois e inadvertidamente peça de novo mais do mesmo que já sabemos. A implacável roda da história que comprime os ignorantes.

Por um mero acaso do destino achei dentro de um velho livro de Faulkner, comprado num sebo, recorte amarelado que dava conta do que ocorreu em São Paulo no dia 15 de junho de 1977, poucos dias após meu aniversário de 18 anos onde meus amigos poetas compareceram com grande estardalhaço pois cada um de nós ,aos poucos, chegava à maioridade apesar de manter enorme ingenuidade. Eu mesmo me achava ingênuo porque quando achava que a maldita ditadura estava começando a apodrecer ela punha de novo as garras de fora.

Assim , no dia 15 de junho os estudantes estavam novamente nas  ruas de São Paulo para o tal “dia nacional de luta”. No Brás, no parque dom Pedro, no largo da Concórdia,  na praça Fernando Costa  e na do Correio, no histórico Largo de São Francisco , na praça da Sé e na João Mendes em todas as ruas do centro velho  da cidade e ali perto da Faculdade de Medicina da Usp , na avenida doutor Arnaldo. Alguns estudantes, encurralados, se abrigaram nas igrejas de São Bento e de Santa Ifigênia. A polícia não se fez de rogada e invadiu as igrejas socando estudantes e padres.

De novo lá estava eu no meio da muvuca mesmo depois de ter aparecido apanhando na capa do “Jornal da Tarde”. Eu precisava ver aquilo de perto, estar com a maioria consternada que queria os milicos e a violência longe de nós. Não era militante de movimento algum, detestava alguns oradores estudantis de esquerda e sua oratória fajuta mas não ia ver a caravana passando com os cães ladrando.

Estava no parque dom Pedro e não vi uma imensa barbaridade acontecer no largo de São Francisco quando dois caminhões tanque subiram no calçadão sob as ordens do belicoso e desequilibrado secretário de segurança – de novo o caricato coronel Erasmo  Dias – e com poderosos canhões d’água atiraram jatos de um tinta vermelha sobre os estudantes ali aglomerados, emporcalharam todo o lendário prédio da Faculdade de Direito, jogaram tinta sobre postes, estátuas, sobre todo mundo  e os pelotões de choque investiram contra a moçada lançando gás lacrimogêneo em todo mundo e esbofeteando , chutando e mandando borrachada a torto e direito. Muita gente foi em cana e talvez por sorte mais uma vez eu escapei de dançar pra valer pois estava lá abaixo da general Carneiro na correria menos  grave do Parque Dom Pedro. Aquela triste jornada  foi rebatizada então pelos estudantes de “dia nacional de luto” ao invés de “dia nacional de luta”. Juristas de nome e peso saíram em defesa dos estudantes e apesar de não parecer era desferido mais um golpe contra aqueles que privaram o Brasil de liberdades democráticas a partir de 1964.

Me lembro que em 15 de junho de 1977 meus olhos ficaram muito vermelhos e não foi só das bombas de gás  que jogaram pelo centro da cidade. Ficaram vermelhos porque escondido atrás de uma marquise ali perto da praça do Patriarca eu chorei a valer. Por mim , pelos meus amigos que brigavam, pelos meus amigos que fugiam da luta , por toda uma geração que tentavam silenciar e que algum tempo depois desfrutaria de um relativo  “libertas quae sera tamen” mas que tardiamente não foi poupada de nova onda fascista que recrudesce quando eu passo dos 50 anos e já não posso tomar vinho barato como antes para entorpecer todas as minhas decepções.

* Ricardo Soares é escritor, roteirista e diretor de tv. Publicou 8 livros e dirigiu 12 documentários.

 

dom total///

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