Viver...

 

            As pesquisas do IBGE fazem com que eu veja pessoalmente o que nós mostramos para o Brasil em números. A cada pesquisa, algo novo me chama a atenção. Nas últimas semanas, realizando pesquisas domiciliares, visitei casas que me fizeram pensar. Uma em especial, visita esta que relato a vocês, tentando dividir um pouco do momento que vivi.

            Estive em uma casa na qual um vivem três pessoas: marido, mulher e um sobrinho, este com uma deficiência mental, sendo dependente dos tios para quase tudo. Ocorre que a esposa, há alguns anos, caiu trabalhando na estrebaria e machucou sua coluna, sendo que nunca mais pode realizar qualquer esforço físico. Agora, há alguns meses, o marido teve um AVC, escapando da morte por detalhes, ms também ficando impossibilitado de trabalhar.

            Relataram-me que há poucos meses venderam todas as suas vacas, das quais tiravam leite para vender, arrendaram suas terras e agora não conseguem fazer mais nada em sua propriedade. Enquanto a senhora me contava tudo isto chorando, o marido dela segurava suas lágrimas ao ouvir. Impossível não se comover. Contaram-me praticamente toda sua história de vida, de como conseguiram tudo trabalhando. Que no início, quando chegaram ao local, não havia nem água, nem luz e que agora tiveram que, da noite para o dia, “entregar” tudo para os outros. Jamais eu havia ouvido alguém falar sobre seu trabalho demonstrando tanto orgulho e satisfação pelo que fazia. A senhora lamentou até pela sua plantação de moranguinhos, que possuía em frente à casa e que agora virou um gramado.

            Ao final, o senhor chamou a minha atenção e disse: “ Olha rapaz! Enquanto temos saúde, temos tudo. Podemos conseguir tudo o que queremos. Não temos do que reclamar. Mas depois que perdemos isto, não temos mais o que fazer!”. Eu sei que palavras como estas não são novidade para ninguém, mas a sinceridade com que aquele senhor me falou isto, diante da situação que aquela família está vivendo, fez eu entender muito bem o que isto significa. Melhor do que eu, com certeza, apenas eles entendiam. Foi o conselho mais sincero, da pessoa mais humilde, vindo de uma dor não só física, mas mental e espiritual, que eu já ouvi.

            Meu trabalho, em uma visita destas, é apenas coletar os dados. Claro que ouvir também, mas opinar sobre algo, não cabe a mim. Porém, foi impossível não envolver-me com a conversa e deixar meu questionário de lado por alguns minutos. Eles nunca haviam me visto na vida e em cinco minutos de conversa eu ouvi um desabafo, seguido de um olhar que pedia alguma palavra de ânimo. Falar em um momento destes é complicado. Falei, entre outras coisas,  que precisavam adaptar-se, que depois de tantos anos de trabalho, quem sabe chegou a hora de descansar um pouco.

            Ao mesmo tempo que falei isto, me veio à mente que eles tiveram que ficar doentes para poder descansar. Mas que tipo de descanso será este, sem poder ter o sentimento de dever cumprido. Ao menos é isto que eu percebi que eles sentem, que mesmo já com uma idade avançada, pararam no meio do caminho. Isto é justo?

            Após uma conversa destas, a injustiça é apenas uma das questões que vêm à mente. Valorizar cada minuto da vida, valorizar cada conquista, cada amigo, cada momento, cada sentimento. É muito fácil motivar-se a apenas construir e esquecer de aproveitar nossa construção. Quem sabe se construirmos mais devagar não cansaremos tanto, não deixaremos o tempo passar sem notar e assim poderemos ter o sentimento de dever cumprido a cada dia que passa, sem medo de parecer que paramos no meio do caminho caso algo diferente aconteça.

            Esta família me fez pensar em tudo isto. Falar algo assim para eles? Seria torturar. Lamentar o que passou não adianta, mas quem sabe olhar pra trás e ver de uma forma diferente vai mostrar a eles que não pararam no meio do caminho. Quem sabe apenas vão construir outras coisas, viver outros momentos e quem sabe até enxergar melhor o que viveram e o que estão vivendo. Eu tenho mais quatro visitas àquela casa e quero poder conversar mais com eles. Acho que tenho muito a aprender lá. E quem sabe, por que não, também tenho a colaborar?!

            Uma boa semana, repleta de saúde,  a todos!!!

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