Exma senadora Ana Amélia,

Como jornalista, escritora e embaixadora da paz por uma organização internacional, acompanhei com imensa tristeza e pesar o discurso de incitação de ódio proferido pela senhora na noite de ontem.

Para minha imensa perplexidade, a senhora parece ter se transformado na grande voz da mais violenta, xenófoba, e perigosa extrema-direita brasileira, tendo incentivado, há algumas semanas a violência contra as pessoas que participavam de uma manifestação no sul do Brasil e foram covardemente agredidas.

Mas o que aconteceu ontem no senado brasileiro é ainda mais desolador. A senhora, talvez por puro despreparo intelectual e não por má- fé, associou profissionais árabes respeitados pelo mundo todo ao terrorismo, a senhora confundiu semanticamente uma organização jornalística internacional como a TV árabe Al Jazeera, uma das mais respeitadas redes do mundo, considerada pela ONU como uma uma das grandes vozes da multipolaridade e da multiculturalidade do mundo e com sucursais em toda a Europa, com o grupo terrorista Al Qaeda.

Sim, senadora, as duas expressões começam com o artigo árabe " al", que corresponde a todos os artigos, a os, as , e também aos artigos no singular em português.
Se a senhora acredita que ter um nome ou uma marca iniciados pelo artigo " al " é um indício de terrorismo, tenho uma péssima notícia para a senhora.

A nossa linda língua portuguesa também está repleta de palavras iniciadas por " al" , pois os árabes deram uma imensa cobtribuição cinetífica, médica e arquitetônica ao mundo. Palavras, ideias, invenções científicas e conceitos matemáticos usados pela senhora todos os dias foram criados pelos árabes e adotados no mundo todo, palavras como algaritmo, alquimia, almoxarifado, álgebra, almirante, alcaide, alface, alfarrábio, alambrado e muitas outras são vocábulos árabes , mas não se preocupe, pois não há indícios de que essas palavras sejam terroristas. Eu poderia citar centenas de vocábulos árabes adotados na língua portuguesa e no mundo todo, mas prefiro que a senhora os estude um pouco pois poderá lhe fazer bem.
Como nós duas somos cristãs( sim, senadora, existem milhões de árabes no mundo que são cristãos, como eu) , talvez a senhora também goste de aprender que a palavra Bíblia, por exemplo, vem do nome da cidade árabe e libanesa de Byblos, cidade onde foram produzidos os papiros dos primeiros textos sagrados.

Enfim, senadora, é triste e estarrecedor que a senhora demonstre um conhecimento tão raso da comunidade árabe no Brasil e que tenha tão pouca empatia pela dor de milhões de refugiados muçulmanos e cristãos, que hoje sofrem não apenas com os conflitos, mas também com o preconceito de pessoas sem capacidade nenhuma de processar informações básicas e refletir sobre o o que de fato está acontecendo no Oriente Médio. Pergunto- me, com imensa tristeza, se a senadora acredita que milhões de pessoas nascidas no mundo árabe ou que a imensa comunidade árabe do Brasil, formada por 8 milhões de pessoas, que sempre viveram em paz e harmonia no Brasil e que amam profundamente esse lindo país, uma comunidade que chegou ainda no início do século XIX , formada por grandes médicos, escritores, jornalistas, cientistas, professores ou empresários como meu pai, um menino sírio que um dia sonhou com uma nova pátria, sonhou em ajudar a construir um novo país e hoje cria empregos e sonhos para mais de 500 brasileiros, sejam todos terroristas.

É muito perigoso que uma senadora de uma nação linda e multicultural como a nossa, que acolheu em seu seio pessoas de todas as religiões , etnias e raças, incite o ódio e a intolerância religiosa no Brasil em um momento de conflitos bélicos promovidos apenas por interesses econômicos e de tanta tristeza para todos os humanos.

 

   Lúcia Helena Issa          LÚCIA HELENA ISSA

Jornalista, escritora e ativista pela paz. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro "Quando amanhece na Sicília"

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