Aquela derrota foi decisiva. Pela primeira vez pensei nela e entendi o jogo, sua lógica e o acaso. (Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes*

Em junho de 1982, a Copa era disputada na Espanha. Nas ruas da Serra, entretanto, poucos carros interrompiam a pelada no único quadrante plano da Rua Henrique Passini, onde a turma se reunia para jogar bola. Quase sempre a formação era duas duplas e um único goleiro defendendo tudo o que era arremessado entre o poste e a árvore de tronco fino e precoce, judiada pela insistência daqueles moleques em praticar o esporte bretão.

Durante a competição mundial, cada um incorporou um país, uma camisa, uma seleção. Éramos, numa projetada encenação, os craques maiores do mundo. Zé Luís tinha a honra de defender a Canarinha e tentava mostrar a classe do Zico. Felipe representava a Argentina de Maradona, Tica a Azurra de Paolo Rossi, Gui era o Platini e assim por diante.

Meu péssimo futebol não fazia jus à camisa 11 de Karl-Heinz Rummenigge, o craque da Seleção Alemã. Saia-me um pouco melhor quando cumpria a função de defender o gol, atuando, aos 9 anos de idade e 1,29m de altura, como um suposto Schumacher.

A Seleção Brasileira nos enchia de orgulho e a esperança de levantar a taça era enorme. Nossos craques faziam bonito a cada jogo – “e aquele gol do Éder que contra a União Soviética que o Dasayev nem se mexeu!”, comentávamos com entusiasmo, ou “que golaço do Falcão”, “ a meia bicicleta do Zico”. No dia da derrota para a Itália, nos encontramos cabisbaixos na rua e, sintomaticamente, optamos por brincar de pique-esconde.

Agora me lembro que, dias depois, meu pai me contou uma história. Copa do Brasil de 1950, a final no Maracanã. Estava em casa e ouvia o jogo pelo rádio ao lado do pai, seu Manoel. Tinha 9 anos e torcia as mãozinhas tamanho o nervoso que sentia. O locutor exaltava a superioridade do escrete nacional até que aquela bola infeliz no canto que o coitado do Barbosa não alcançou, mais uma vez, levou sua esperança embora. Ingenuamente, perguntou ao pai: “Não dá para continuar o jogo mais um pouquinho?”. Não deu, perdemos.

Foi quando aprendi a perder e reconheci seu valor. O esporte, nesse caso, é espelho da vida. Não se pode ganhar sempre, mesmo que seu time, sua seleção ou você se esforce e até mereça. A vitória pode proporcionar uma euforia extasiante, catarse e júbilo. Só que no jogo ou na vida, a derrota é lição maior.

Acabrunhados, voltamos à peleja, na mesma Rua Henrique Passini, quase esquina com a Rua Níquel. Volta e meia, a bola caía na casa do professor Moacyr e a pelada tinha que esperar alguém mal-humorado nos devolvê-la.

Aquela derrota foi decisiva. Pela primeira vez pensei nela e entendi o jogo, sua lógica e o acaso. Aqueles 3 a 2 e o carrasco do Paolo Rossi me forçaram amadurecer e entender um monte de coisas. Acho que foi em 1982, aquela derrota, que percebi o que era injustiça e a impossibilidade de mudá-la.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

 

dom total///

 

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