Diante de uma perda, por maior que ela seja, nunca se deve pensar que a própria vida acabou.

 

Luto, é uma palavra que para muitos soa como desagradável e indesejável, contudo ela representa um processo muito importante em nossas vidas. Essa rejeição tem a ver com a sua estrita ligação com a morte de pessoa querida, mas não é bem assim. O luto é um processo psicofísico e espiritual, pois nos atinge a mente, o corpo e o espírito, ocorrendo depois de qualquer perda que sofremos na vida. Ele não depende de nossa vontade, pois acontece sempre, e espontaneamente, após tais experiências negativas. O que depende da nossa vontade é a forma como lidamos com ele, o que permitimos que ele faça conosco.

Certamente muitos leitores vão reagir a essa afirmação, retrucando que nada se pode fazer com os sentimentos que nos sobrevêm, quando passamos por perdas significativas em nossas vidas. Sem dúvida os sentimentos são praticamente autônomos, surgindo e muitas vezes nos manipulando, ao seu bel prazer. Todavia, se não podemos controlar seu advento, podemos sim, tomar suas rédeas, direcionando melhor as reações que eles nos provocam. Não tenho como impedir a raiva que me envolve quando me fazem algo muito ruim, mas agredir fisicamente a pessoa que me irritou, ou simplesmente ignorá-la, é uma decisão somente minha, e com algum treino posso controlá-la.

No espaço de um artigo, não é possível passar por todos os caminhos que surgem quando perdas nos acontecem. Mas conhecer certas características fundamentais do processo de luto já nos ajudar a reduzir, e muito, os sofrimentos que as perdas nos acarretam. Para conhecer mais sobre esse processo, sugerimos a leitura de um livro que escrevi, e em breve será lançado pela editora Vozes, intitulado: “Luto, como viver para superá-lo”.  Mas, até que ele venha a público, dou algumas informações que acredito importantes.

Aqui falarei sobre as perdas. Talvez, num outro artigo possa falar sobre o processo em si, da elaboração do luto. Porém o conhecimento de alguns aspectos importantes das perdas, certamente ajudará, e muito, a superar o luto que as seguem. É verdade que ninguém gosta de perder, nem bens materiais, nem relacionamentos afetivos, nem cargos, e muito menos pessoas queridas. Mas se nos dermos conta de que vivemos num mundo espaciotemporal, entenderemos que nele nada, absolutamente nada, é “para sempre”. A impermanência de tudo e de todos, é uma realidade indiscutível. Algumas coisas ou pessoas nos parecem “nossas para sempre”, simplesmente porque conseguimos conservá-las por um tempo prolongado. Mas, se olharmos com atenção, refletindo com isenção, descobriremos que essa é a realidade. A começar por mim mesmo. Se hoje sou um adulto, a criança que fui já não existe mais, apenas suas recordações. E mesmo assim, nem todas, pois de muitas coisas já nos esquecemos. Memórias se apagam e se perdem nas brumas do tempo. Até as células que formam nosso corpo de criança, todas elas vão sendo substituídas por novas, fazendo com que nem o nosso próprio corpo, nem partes dele, o tenhamos depois de alguns anos. Sete, segundo alguns pesquisadores. Em outras palavras, a cada sete anos nosso corpo físico morre, e um novo corpo se forma substituindo o anterior. Nada acontecendo de forma abrupta e imediata, mas num processo longo, contínuo e inexorável.

Da mesma forma, nossos bens materiais, nossos cargos e títulos, nossos relacionamentos, nossas ideias, crenças, amores e dores, o tempo leva tudo. Disse o poeta romano Ovídio, em sua obra “Metamorfoses” publicada no ano 8 d.C.: “Tempus edax rerum” – O tempo, (esse) devorador das coisas. O que pensamos que fica “para sempre”, são aquelas coisas que durarão mais do que nós mesmos. O poético “amor eterno” é como disse Vinicius de Moraes: “que seja eterno enquanto dure”. Viúvos que dizem seu amor ter sido para sempre, o fazem porque quem amavam morreu antes dele. Não é cinismo nem pessimismo, é apenas a realidade. Uma realidade que é nossa aliada, que nos ajuda quando a assimilamos -- ainda que dolorosamente como um parto -- a não pensar que nossos sofrimentos, nossa dor pela perda de alguém, irá durar para sempre. Também ela irá acabar, exceto quando trabalhamos muito para preservá-la. Há quem prolongue seu período de luto por bem mais que dois anos, geralmente o tempo de duração de um luto profundo. Exatamente como uma ferida, que nunca cicatriza se seu portador continuamente a reabre, cutucando-a, refazendo-a, impedindo que o processo natural de cicatrização ocorra. Se ela parar de reativá-la, em pouco tempo estará cicatrizada. Poderá restar a marca, mas certamente não haverá a ferida a incomodar e a agravar-se por estar sendo reavivada artificialmente. Sendo bem cuidada, toda ferida sara com um mínimo de cicatriz. Assim, também a saudade de um pessoa querida. Se não a reativarmos continuamente, ela deixará de ser uma lembrança dolorosa para ser, quem sabe, e em muitos casos, uma saudade gostosa.

Portanto, diante de uma perda, por maior que ela seja, nunca se deve pensar que a própria vida acabou. Dê tempo ao tempo, não se apegue aos bens perdidos, nem à pessoa que se foi, ou às lembranças incômodas; tampouco ao péssimo sentimento de culpa, e que se tem de sofrer pelas perdas ocorridas. E viva, pois a vida é um dom maravilhoso que não se deve desperdiçar.

*Médico e Escritor./ dom total///

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