Melhor tapar os ouvidos ou então lavar as mãos.

Por Afonso Barroso*

Quando o dinheiro enche os bolsos com facilidade, a vaidade entope a cabeça do indivíduo no mesmo ritmo. É então que ela, a cabeça, se torna uma extensão dos bolsos. Já não mais desempenha suas funções originárias de pensar, de raciocinar. Quer é se enfeitar de penteados esdrúxulos. Quer o corpo que a sustenta tatuado do dorso ao calcanhar. Quer carros de luxo, aviões e mulheres siliconadas.

Isso acontece muito com jogadores de futebol e artistas de ocasião, esses do estilo musical sertanejo universitário, que arrebatam multidões de idiotas enquanto arrebanham fortunas.

Apesar da minha idade um tanto avançada, que poderia enraizar tradições e preconceitos, não tenho nada contra esses moços, ricos moços. Fico só pensando o que leva multidões a idolatrar personagens tão pobres de espírito.

No caso de jogador de futebol, até que entendo. Os que sabem jogar bola proporcionam certo prazer estético quando praticam com arte esse esporte de grama e de massa. O que talvez não se justifique é a babilônia de dinheiro que ganham, mas esta é outra história.

Quanto aos tais sertanejos universitários, sinceramente não entendo. Multidões os idolatram, sabem de cor e cantam ensandecidas canções sem poesia, recheadas de lugares-comuns, de rimas pobres, melodias inexpressivas e versos tolos, às vezes sem sentido ou nexo, não raro com expressões chulas. Não confundir com a música de raiz caipira, a sertaneja não universitária, cantada aos acordes de viola, esta sim, cheia de poesia e criatividade.

Não, não vou, não posso, nem quero pedir a essa turba ignara e imensa de fãs que tente esquecer os safadões e ouvir os que souberam fazer ou ainda fazem música e letras de verdade. Como Caymmi, Chico, Noel, Caetano, Gil, João Bosco, Aldir Blanc, Cartola, Paulo César Pinheiro, Jobim, Paulinho da Viola, Renato Teixeira, Almir Sater, Tião Carreiro e tantos e tantos outros. Seria pedir muito. Letras e melodias desses compositores são inacessíveis à sensibilidade (ou falta dela) da imensa maioria dos jovens de hoje.

Mas a vida é assim. As gerações se sucedem com seus costumes, modos e modas, suas preferências, seus avanços e especialmente seus atrasos. Não há como mudar o curso e os retrocessos da História.

No caso da chamada música sertaneja universitária, tão primária, melhor tapar os ouvidos ou então lavar as mãos.

Ah, sim, lavar as mãos. Taí uma lembrança bíblica que ajuda a compreender o fenômeno da insanidade das massas. Pois não foi o que fez Pilatos, ao se render à turba que pedia a morte de um inocente e a libertação de um facínora?

São assim as multidões. Capazes de adorar quem faz a guerra, como Hitler, e odiar quem prega a paz, como Cristo.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

dom total///

 

0 comentários | Escrever comentário