A fé falada pela boca não é a mesma sentida no coração e manifesta nas posturas assumidas.

 

A covardia é a mãe da idolatria. (Reprodução/ Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

O ano do laicato na Igreja do Brasil vai se encaminhando em um dos momentos mais dramáticos da história brasileira. Na esteira do ensinamento do magistério, reforçou-se a índole secular do ministério dos leigos e leigas, enquanto se manteve a compreensão de que o crescimento da comunidade de fé é de responsabilidade dos presbíteros. Um estudo sistemático do documento 105, sobre os cristãos leigos e leigas na Igreja e na Sociedade, poderá confirmar a percepção de que a teologia do laicato segue sem muitas novas reflexões. Desse modo, a importante e desafiadora tarefa de comunicar a alegria do evangelho ao mundo continua sendo responsabilidade daqueles que são o maior número dos fiéis no catolicismo. Aos leigos e às leigas importa transformar as realidades do antirreino em Reino de Deus, no qual têm primazia o amor, a paz e a justiça, em vistas da mais vida para todas as pessoas.

Mas acontece que o testemunho de muitos fiéis leigos e leigas traem essas primeiras inspirações teológicas que tornam singular a missão da maior parte dos fiéis. As pautas do antirreino, que se fundamentam na segregação, na tortura, na exclusão, na violência, no ódio, tornaram-se agenda de muitos homens e mulheres da Igreja. De modo que surgiu entre nós um ateísmo prático à moda brasileira. Explico: nossas raízes de fé cristã edificadas sobre o sangue das minorias dessa terra desde a colonização absolvem nossas consciências de uma fé responsável. A consequência é o ateísmo prático, isto é, defendem-se torturadores e suas práticas de tortura, prega-se o ódio aos diferentes, sobretudo aos mais pequeninos da sociedade, enquanto se celebram liturgias de fronte à imagem do homem Jesus torturado e crucificado. A fé falada pela boca não é a mesma sentida no coração e manifesta nas posturas assumidas. Desse modo, podemos nos perguntar: na Igreja brasileira hoje, há mais seguidores e seguidoras de Jesus ou ateus práticos que utilizam a religião para reforçar sua idolatria ao mal?

Mas essa pergunta e outras tantas não devem ser feitas somente com relação aos leigos tendo como pressuposto aquilo que o magistério tem ensinado há tempos. Faz parte do espanto bom número de presbíteros que não têm vergonha de compactuar e incentivar fiéis a se posicionarem favoravelmente ao antirreino. O que é ainda mais grave, pois se utilizam de seus status e poder - ambos contrários ao Evangelho de Jesus - para induzirem as consciências. Obviamente, induzem ao erro e a uma fé que não é verdadeira fé no homem Jesus torturado e crucificado. Também esses presbíteros estão em ateísmo prático. Deveríamos nos perguntar teologicamente se as ações sacramentais que realizam teriam validade. Mas isso é conversa para estudo aprofundado, deixamos somente a provocação. Perguntamo-nos ainda se esses tais não estariam deslocados de seu lugar ministerial, uma vez que o magistério tem insistido que os assuntos temporais devem ser tratados e cuidados somente pelos leigos e leigas. Muitos de nós sabemos como são considerados traidores da Igreja os presbíteros que resolvem se candidatar para cargos políticos, justamente pelo fato de seus bispos entenderem que essa tarefa pertence ao laicato. Toda essa discussão merece uma profunda reflexão, pois, também os leigos e leigas quando vão ao mundo anunciar o evangelho não o fazem a fim de que mais e mais pessoas se tornem seguidores e seguidoras de Jesus e, portanto, interferem diretamente no crescimento ou diminuição da comunidade de fé?

Um laicato e um clero ateu no testemunho é responsabilidade de quem? Não deveriam ser anátemas os traidores da fé em Jesus Cristo? Diante do silêncio da maioria dos bispos do Brasil, nesse momento de pavor no qual o fascismo ganha uma força surpreendente em diferentes tecidos da sociedade brasileira e na própria Igreja, sentimo-nos como que diante de Pilatos que, podendo salvar Jesus do seu terrível destino, lava as mãos que se sujam de sangue inocente por todo o sempre. A covardia é a mãe da idolatria. Por isso, o Evangelho de João ensina que Jesus é o único pastor verdadeiro, precisamente porque não tem medo de dar a própria vida para que os seus tenham vida plena e em abundância. Ademais, a teologia joanina ensina que os falsos pastores o são assim considerados porque fogem quando veem o lobo chegar, deixando às mãos da morte aqueles que deveriam cuidar. Ainda há tempo para sermos uma Igreja profética que não se envergonha daquilo que é loucura e escândalo para o mundo e que se empenha na luta para que nenhuma pessoa depois de Jesus venha ser torturada e crucificada pela maldade que resiste no coração dos homens.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

 

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