Bolsonaro carregará o peso de reafirmar suas declarações em defesa da tortura, da homofobia, da discriminação de índios e quilombolas e da remuneração de salários menores às mulheres.

 

Não será fácil para Haddad vencer Bolsonaro. Terá que enfatizar a importância da democracia contra o discurso autoritário do capitão. (Ricardo Stuckert/ Marcelo Camargo)

Por Frei Betto

As eleições brasileiras, no domingo, 7 de outubro, revelaram que a política brasileira será cada vez mais conservadora. O próximo presidente do país, a tomar posse a 1 de janeiro de 2019, será definido no segundo turno, a 28 de outubro, na disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

Todo o processo eleitoral foi comandado da cadeia e do hospital. Da cadeia, pelo ex-presidente Lula (PT), detido em Curitiba por uma condenação que carece de provas. E do hospital, pelo capitão Jair Bolsonaro, internado após ser esfaqueado em plena campanha eleitoral.  

Bolsonaro recebeu 46,05%, ou seja, 49,3 milhões de votos, e Fernando Haddad, indicado por Lula, 29,24% (31,3 milhões de votos) de 147,3 milhões de eleitores,. Vale ressaltar que o capitão candidato quase não teve tempo de campanha na TV, não participou de debates com seus concorrentes em setembro nem fez campanha nas ruas. Foi o eleitor do Nordeste que garantiu a presença do PT no segundo turno. As outras quatro regiões do Brasil deram vitória ao PSL.

Bolsonaro também elegeu seus filhos Flávio, senador pelo Rio, e Eduardo, deputado federal por São Paulo. E ainda leva para o Congresso Nacional vários pastores evangélicos, militares e policiais.

O resultado sepulta o PSDB, partido social democrata, que nas últimas seis eleições presidenciais polarizou a disputa com o PT de Lula. Geraldo Alckmin, apoiado por FHC, teve apenas 4,76% dos votos.

O governo Temer foi enfaticamente derrotado nas urnas. Nenhum de seus 11 ministros que disputaram a eleição foi eleito. Ficaram sem mandatos os caciques Romero Jucá, Eunício Oliveira e Edison Lobão, todos ex-ministros de Temer.

A ambientalista Marina Silva, da Rede, que nas duas eleições anteriores mereceu, em cada uma, cerca de 20 milhões de votos, recebeu agora pouco mais de 1 milhão.

A advogada Janaína Paschoal, autora do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, foi a candidata ao parlamento mais votada da história do Brasil. Elegeu-se deputada estadual por São Paulo com 2 milhões de votos.

O Congresso Nacional teve uma renovação surpreendente. Nomes apontados como preferenciais nas pesquisas eleitorais, como os candidatos a senadores Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy, foram derrotados, como também Cristovam Buarque, candidato a senador pelo Distrito Federal. Na Câmara dos Deputados, o PSL, partido de Bolsonaro, terá a segunda bancada de parlamentares (52). A maior será a do PT (56).

No Maranhão, a dinastia Sarney parece definitivamente sepultada. A filha do ex-presidente, Roseana, foi derrotada por Flávio Dino, do PCdoB, reeleito governador. Pela primeira vez, em 60 anos, a família Sarney não terá nenhum representante no Congresso Nacional.

No segundo turno da escolha presidencial, Haddad deverá ter o apoio de Ciro Gomes, do PDT, que recebeu 12,4% dos votos, e dos demais candidatos progressistas.

Na disputa do segundo turno, Bolsonaro carregará o peso de reafirmar suas declarações em defesa da tortura, da homofobia, da discriminação de índios e quilombolas e da remuneração de salários menores às mulheres. E de manter em seu programa de governo estes pontos: alteração da política de direitos humanos, liberação do uso de armas de fogo, “expurgar a ideologia de Paulo Freire” e “tipificar como terrorismo as invasões de propriedades rurais e urbanas” .

Já Haddad será prejudicado pelas denúncias de corrupção contra líderes do PT.

Como se explica a ascensão de Bolsonaro? Embora tenha sido deputado federal por sete vezes consecutivas, ao longo de 28 anos, agora ele se valeu do vácuo político criado pela Lava Jato e conseguiu se apresentar como “o novo” ao adotar um discurso moralista de defesa da família e de combate à violência urbana. Atraiu os eleitores desencantados com a política e, em especial, fortaleceu em todo o país a onda antipetista.

Não será fácil para Haddad vencer Bolsonaro. Terá que enfatizar a importância da democracia contra o discurso autoritário do capitão, já que pesquisa recente aponta que 69% dos brasileiros preferem este regime de governo, e apenas 12% a ditadura. Mas o que se entende por democracia? O direito de o cidadão se armar para enfrentar bandidos segundo a lei de talião?

Bolsonaro, com certeza, reforçará o discurso de Temer de que todos os males do Brasil, como o desemprego de 12 milhões de pessoas e a recessão econômica, são culpa dos 13 anos de governo do PT. E haverá de explorar o fato de os principais líderes do PT serem apontados como corruptos pela Lava Jato.

Já Haddad não poderá manter sua coerência com o discurso do PT no primeiro turno, sob o risco de não conseguir o apoio de amplos setores da população brasileira que não simpatizam com as propostas de Bolsonaro. Em outras palavras, segundo analistas, Haddad terá que fazer um discurso mais próximo à ideologia do PSDB que do PT, prometendo um governo de coalizão de classes, como tentou Dilma em seu segundo mandato.

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Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "A Obra do Artista – uma visão holística do Universo", "Um homem chamado Jesus", "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul", entre outros.
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