Vem crescendo a esperança da virada, do triunfo da nossa face humana, de valores legados pelos que nos precederam (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Não chegamos a esse ponto por nada, num piscar de olhos. Chegamos a esse momento dramático por uma sucessão de erros, de desperdícios, de acobertamentos, pelo excesso de irresponsabilidade, de jocosidade abusiva, de escassez de seriedade, pela soberba dos abastados, pela cegueira de todos - elite, classe média, classes menos favorecidas, povão, enfim, todos nós!

Vimos e não entendemos? Sentimos e não nos movimentamos em outra direção? Calamos quando era necessário dizer, desde o inicio, basta?! Fingimo-nos de alegres quando, na verdade, estávamos afundados em real melancolia? Sabichões espertos e boas praças transigimos com o intransigível? Superficiais, alegrinhos, alienamo-nos durante anos? Não entendemos bem onde a bateria histérica das panelas nos levaria? Toleramos como brincadeira de mau gosto, ou falta de modos, as impronunciáveis ofensas à então presidente da República, mulheres à frente do xingatório inesquecível?  Engolimos a seco o deputado raivoso vociferando frente às câmeras que não estruparia sua colega porque ela não merecia?! Não banimos este mesmo representante quando ousou ir à tribuna defender a memória do ultrajante Ustra, o sádico perverso que levava crianças de 5 anos para verem os pais nus, vomitados, ensanguentados, deformados depois de longas sessões de tortura, no pau de arara e fora dele?!   

Tortura não se equipara à nada, é crime de lesa-humanidade!

Um congressista que tece loas ao monstro Ustra, é um psicopata e assim deveria ser tratado e considerado. Vejamos o filho que se traja com camisa cuja estampa traz o retrato do  monstro torturador, para ele(s), um herói. Com gente assim não se brinca, não se negocia, não se compõe, não alcaçamos a dimensão do que estava se formando diante de nossos olhos?!

Inolvidável a cena do voto macabro do capitão no impeachment, reverberada em rede nacional e agravada pelo vil comportamento de inúmeros colegas parlamentares, às gargalhadas, ilustrando a putrefação moral do ambiente político do país.

Antipetismo, só, não creio. Há muito, mas muito mais por debaixo do manto que encobre o possível infeliz resultado que se desenha. No entanto, o jogo só acaba quando termina.

Vem crescendo a esperança da virada, do triunfo da nossa face humana, de valores legados pelos que nos precederam, por nossa arte, por nossa cultura, por tudo aquilo que nos diferencia da desumanidade, da bestialidade, da covardia, da ferocidade, da miséria humana no seu sentido mais amplo.

Hora crucial da história, hora de combater o medo daquele que tem e traz consigo a era do medo. Hora de honrar a nós mesmos, a dádiva da vida, a nossa responsabilidade com o hoje e com o futuro, com a germinação de uma sociedade identitária, de uma civilização com base na inteligência, sensibilidade, humanidade, solidariedade, generosidade, respeito e afeto.

Chegamos até esse momento decisivo, chegou a hora de darmos um basta, de dizermos ele não, de escolhermos outra direção.

Que as forças do bem se propaguem e nos iluminem, pois o que está em jogo é a existência de um projeto humanista de nação.(Dom total)

*Jornalista e produtora cultural.

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