Sim é preciso baixar as armas mas não nos rendermos especialmente diante de adversários tão duros, tão truculentos e belicosos

 

Amor e solidariedade para fazer essa difícil passagem. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Nessa manhã de ressaca  eleitoral quase renuncio ao sagrado direito de me expressar a mim concedido pelos responsáveis desse bom portal , o DOM TOTAL. Fazendo pois uso da confiança em mim depositada há vários anos tentarei humildemente fazer minhas as palavras de quase 90 milhões de brasileiros que não votaram no inominável . Aqui somados brancos, nulos e votantes em Haddad.

Sim é preciso baixar as armas mas não nos rendermos especialmente diante de adversários tão duros, tão truculentos e belicosos. É preciso inclusive, me perdoem a obviedade, torcer para que agora eles não dêem com os burros n'água pois se isso acontecer é toda a caravana que irá para o brejo. Outra obviedade é dizer que isso é a democracia. O direito inclusive de eleger os que atentam contra ela. Mas assim é se nos parece.

O inominável representa o que há de pior. É quase um vilão de filme de ficção científica. Um Darth Vader tosco de sotaque esquisito e retórica de analfabeto funcional que regurgita preconceitos, desconhecimento, maldade e intolerância. Contra ele, desarmados, é preciso toda vigilância porque correm riscos não só índios, gays, quilombolas, ambientalistas. Todos corremos riscos na medida que seu lamentável ideário  é uma junção de Deus, pátria, família e porrada nos adversários.  Nunca fomos tão baixo. Mas, sim, baixemos armas e não guardemos bagagens. Nem temos , muitos de nós, disposição ou grana para começar de novo em outro país. Afinal esse país também é o nosso pois apesar da vitória do inominável somos quase 90 milhões que não acreditamos nele nem em seu projeto de país.

Eu pelo menos quero, como muitos de nós, que nos abracemos e sustentemos nessa nau que agora é comandada por um capitão insano. Amor e solidariedade para fazer essa difícil passagem.  Quase renuncio ao meu direito a palavra nessa manhã de segunda-feira, day after, tal meu desconsolo. Mas perseverei pois escrever é meu alento, meu capricho, meu relaxo. Esse país já passou por momentos terríveis e há de vencer mais esse. Espero que o inominável agora consiga cumprir seu mandato sem tantos estragos e juro que desejo que acerte um pouco para não ficarmos todos nós errando à deriva.  Buscar culpados pela derrota agora seria estéril, inútil já que muitos são os fatores. Olho para o mural que tenho diante de mim enquanto escrevo e vejo os olhares de Picasso, Fellini,Borges, Clarice Lispector, Cortázar , Allen Ginsberg e ,lógico, São Francisco de Assis. Busco alento no olhar deles.  E, lógico, é no santinho que me apego agora para desejar a todos a tal "Oração da Fraternidade" por ele concebida . Para que nos dê graças a essa vida dura que começa hoje. Mas o futuro é logo ali na curva que se torna próxima quando a estrada é a história. História que por desconhecermos nos levou a esse erro brutal. Amemos para sermos amados. E boa jornada a todos nós, sobreviventes. (dom Total)

*Ricardo Soares é escritor, jornalista, diretor de tv e roteirista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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