"Não é bom que todos nossos desejos sejam completamente realizados. Ao adoecer, reconhecemos o valor da saúde; passando pelo mau reconhecemos o bom; sentindo fome, valorizamos a comida" (Provérbio grego)  

 

O Natal em si, me traz uma sensação um tanto angustiante. Uma nostalgia da época em que a família inteira se reunia em torno da mesa para um almoço temperado com sorrisos. (Pexels)

Por Nany Mata

Não sei se com você também é assim, mas em mim, todo fim de ano bate um desejo de ser otimista. Por mais que meus sentimentos mais racionais me digam "é bobagem, não há mudança de ano, é só mais um dia" ou "natal é um aniversário e, como todos os outros, não passa de uma celebração simbólica", vem uma energia inexplicável nesta época do ano. 

O Natal em si, me traz uma sensação um tanto angustiante. Uma nostalgia da época em que a família inteira se reunia em torno da mesa para um almoço temperado com sorrisos. Saudade da infância, de não entender os problemas matrimoniais, financeiros e todas as tensões normais em qualquer família. A lembrança de que natal era um momento de comer bem e ganhar presentes. 

Isso tudo pra mim, é claro. Para muitos, natal nunca foi tempo de fartura, porque esse tempo nunca existiu. Antes mesmo de essa imagem se quebrar para mim, por começar a entender que aquela festa em família poderia ser, na verdade, algo muito mais tenso do que eu quando criança pensava, eu descobri isso.

Outras realidades

Primeiro, ainda criança, veio o primeiro choque de realidade. "Vamos arrecadar brinquedos para crianças pobres". Como assim existiam crianças que não têm como ganhar presentes? Era legal responder às cartinhas dos Correio sem nome do papai noel. Mas, poxa, por que é que existem crianças que não têm brinquedos?

Mais tarde, comecei a trabalhar na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Campo Belo, região Sul de Minas, bem às vésperas de um natal. Encontrei ali muitas daquelas crianças, que agora tinham crescido. Assim como elas esperaram, anos atrás, seus filhos agora aguardavam presentes, dependendo da boa vontade dos privilegiados.

Eles, agora, desejavam mais do que tudo o indulto de natal. Tão mal visto pela população em geral, representava a chance de, pelo menos nesta data, passar uns dias em família. Quem não tinha direito a ele, se reunia ali mesmo, naquele pátio em todas as famílias, feliz apesar de tudo, celebravam a data. Talvez esse tenha sido o natal que mais me fez mudar minha forma de receber a chegada dessa data.

Enfim, otimismo

Eles sorriam, otimistas diante de uma data que é celebrada por ser um momento de esperança. Para mim, era só um dia para reunir a família toda e, desde que isso parou de acontecer, o natal perdeu qualquer significado para mim. 

Ver neles o sentimento de esperança, mesmo quando a vida lhes deu uma surra de falta de oportunidades, que culminou na realização de algum crime, me deixou também esperançosa. 

2018 vem sendo um ano difícil. Uma verdadeira guerra estimulada por agressões verbais vindas do presidente eleito. Aumento da violência entre pessoas LGBT ao meu redor. Noites mal dormidas. Desentendimento em família. Uma verdadeira desilusão pela falta de empatia que reina bem aqui ao lado. 

Mas como uma criança que acredita em papai noel, me deixei acreditar que virão bons momentos, apesar do medo. Que neste natal, os desejos dos clichês dos cartões passem a ser verdadeiros. Que se quebrem as dificuldades de 2018 e se renove a esperança. 

Nany Mata
Jornalista, especialista em Comunicação Corporativa e Inbound Marketing. Acredita nos Direitos Humanos, na luta feminista e LGBT. Não se acanha em ser acusada de defensora de bandidos ou utópica. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos.
dom total///
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