Por Jacques Alfonsin

Dois sentimentos opostos costumam disputar a preferência da nossa atenção e vontade no fim de mais um ano e o começo de outro. Ou se lamenta os erros do passado, em atitude passiva e sofrida de resignação, ou se trata de preparar o futuro, não só para corrigi-los mas também para nos prevenirmos contra a sua repetição.

O desafio maior que se enfrenta a cada passagem de ano, então, é o de fazer do fim do anterior, um decidido, renovado e corajoso começo para o posterior. O sentido do natal pode constituir, talvez, a melhor forma de se optar pela segunda dessas hipóteses, de modo livre e responsável. O nascimento da Criança Jesus Cristo marcou o fim de uma era, na história da humanidade, e tem de tudo para motivar o enfrentamento e a vitória sobre o mal e as injustiças que Ela sofreu e paradoxalmente venceu pela sua morte, pois o próprio natal comprova ainda se encontrar bem viva, a cada ano.

Desejar boas festas, portanto, em mensagens endereçadas geralmente apenas às pessoas com quem convivemos, pode soar como dolorosa ironia para aquela grande porção da humanidade que não tem qualquer motivo para festejar, está com fome, doente, sem roupa e abrigo, é rejeitada, desprezada sob crescente exclusão social. O Menino nascido há mais de dois mil anos, nas piores condições de sobrevivência e lugar, se identificou com essa gente desde o seu nascimento, e outra coisa não fez em vida do que, em companhia dela, libertá-la dos males e das injustiças que, ainda hoje, as humilha e mata.

A aparência aterradora das impossibilidades de se encontrar uma ação concreta de mudança dessa realidade, é arma a mais poderosa de toda a cumplicidade com a injustiça que nos cerca e aflige, a mais conveniente desculpa para impedir a nossa atitude contrária a esse mal. A própria lei e as instituições têm-se mostrado insuficientes para extirpa-lo. A sua interpretação e aplicação estão demasiadamente reféns do dinheiro nessa nova era, e esse já demonstrou a sua total incapacidade de substituir o amor modelado a partir do presépio, aquela remota e isolada favela jogada na periferia da cidade, como acontece ainda hoje.

Se o grão de mostarda é capaz de criar uma árvore frondosa, como a Criança comparou a capacidade de poder da pequenez e da fraqueza, numa das suas célebres parábolas transcritas no evangelho, o trabalho humilde e quase sempre anônimo de plantá-la com paciência e perseverança, inclusive na terra hostil e dura da economia e da política, desmente o impossível. Desnuda as mentiras do chamado sistema-mundo, cuja globalização se inspira na concentração da riqueza e não da sua partilha, no crescimento econômico e não na inclusão social, na depredação da terra e da vida, no poder de troca e não de uso da primeira, no sacrifício e não nas garantias devidas à segunda.

A defesa dos direitos humanos fundamentais sociais, agora sob poderoso ataque desse sistema-mundo antecipadamente aceito pelo governo que toma possa em janeiro no Brasil, pode servir para a semeadura desse grão, mesmo sob suas conhecidas limitações e insuficiências, na terra ainda por ser amanhada convenientemente da organização popular, seu verdadeiro sujeito.

O Menino celebrado no natal não nos deixa abandonar essa esperança, embora ela seja vista como blasfêmia pela ideologia centrada no egoísmo e como heresia pelo poder econômico-político hoje dominante em todo o mundo. Conservar tudo como está, por ser bom assim, é o tom aparentemente inquestionável e invencível desse monstro, mesmo que a história venha demonstrando o contrário há séculos.

Ernst Bloch, no seu “O Princípio Esperança”, vol. 1, Rio de Janeiro: 2005, dá uma lição sobre o juízo que se possa fazer do passado sem comprometer o futuro: “… um futuro do tipo autêntico, aberto como processo, é inacessível e estranho a toda a mera contemplação. Somente uma maneira de pensar para a mudança do mundo, que municia com informação este desejo de mudança, diz respeito a um futuro que não é feito de constrangimento (futuro como o espaço de surgimento inconcluso diante de nós) e a um passado que não é feito de encantamento.” (pág. 18)

Salvo melhor juízo, o Brasil de 2018 não produziu nenhum encantamento para grande parte do seu povo, e um futuro feito de constrangimento é considerado mais do que provável por essa gente, não sem muito boas razões para isso. Sobre o ingente esforço coletivo de se surpreender toda a verdade tendenciosamente escondida nas relações socioeconômicas causadoras dessa probabilidade, Bloch não abre espaço para o desânimo desesperado, e o faz com fé e esperança:

“… a verdade {…} de forma alguma é aflição e gelo. Ao contrário, ela tem, terá e manterá a postura do otimismo crítico militante, e este se orienta dentro do existente sempre pelo que ainda não se tornou existente, pelas possibilidades da luz que possam ser impulsionadas. Ele produz a prontidão não enjeitada e tendencial de ousar o engajamento rumo ao que ainda não foi realizado com êxito.” {…} “… o trabalho que faz a história avançar, sim, já há muito a fez avançar, conduz para a causa que tem possibilidade de ser boa, não como abismo, mas como montanha para o futuro. Os homens, assim como o mundo, carregam dentro de si a quantidade suficiente de futuro bom; nenhum plano é propriamente bom se não contiver essa fé basilar.” (pág.433).

Às críticas e aos críticos dos diálogos que propomos a cada escrito neste espaço de comunicação, aqui generosamente nos permitindo falar e ouvir, estamos nos despedindo até o fim-começo de janeiro de 2019, desejando a todas/os nos reencontrarmos neste novo ano para celebrar, com essas mesmas fé e esperança, uma renovação diária, permanentemente inspiradora, do natal.

dom total///

 

Jacques Alfonsin - Procurador do Estado do Rio Grande do Sul (Aposentado). Mestre em Direito pela Unisinos. Professor de Direito Civil da Unisinos. Advogado e assessor jurídico de movimentos populares como o MST e ONGs ligadas aos direitos humanos: catadores e sem-teto, que defendem alimentação, moradia e ambiente saudável para o povo pobre. É coordenador da ONG "Acesso – Cidadania e Direitos Humanos", em Porto Alegre e integrante da RENAP. Publicou vários estudos sobre função social da propriedade e da posse, reforma agrária e solo urbano, assessoria jurídica popular e direitos humanos. Autor dos livros: "Das Legalidades Injustas às (I)Legalidades Justas: Estudos Sobre Direitos Humanos, Sua Defesa por Assessoria Jurídica Popular em Favor de Vítimas do Descumprimento da Função Social da Propriedade" pela editora Armazém Digital; "O Acesso à Terra como Conteúdo de Direitos Humanos Fundamentais à Alimentação e à Moradia" (Sergio Fabris, 2003).

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