A transformação interior das pessoas não pode ser desligada da tarefa de mudar a sociedade.

 

É preciso uma mudança que atinja o plano interior das pessoas e concomitantemente a dimensão social. (Reprodução/ Pixabay)

Por Marcelo Barros

Ninguém se dá vida a si mesmo. A mãe dá a luz ao filho ou filha. Todos nós recebemos a vida de nossos pais e mães. Maria Zambrano, filósofa espanhola do século XX, afirmava que se a vida é sempre doada de um ser a outro, é dada para ser desenvolvida. Ninguém nasce de uma vez por todas. O nascimento é apenas começo de um processo que consiste em nascimentos constantes. Assim, nascer não é apenas um evento do passado que lembramos no dia do aniversário. Coloca-se diante de nós, como algo a ser aperfeiçoado e completado. Viver é renascer continuamente, como renasce a aurora de cada novo dia.

A transformação interior das pessoas não pode ser desligada da tarefa de mudar a sociedade. Os grupos de esquerda tendem a privilegiar o coletivo e nem sempre educam as pessoas para o processo de permanente mudança interior. Os espiritualistas têm a sensibilidade oposta. Pensam que, à medida que cada pessoa mudar interiormente, o mundo inteiro começa a mudar. Conta-se a parábola do passarinho que, ao ver a floresta pegar fogo, voa até o rio e traz no bico uma gota d’água para apagar o incêndio. Joga a gota d’água e volta ao rio para buscar outra gota d’água. Outros pássaros lhe dizem que aquele seu trabalho não conseguirá apagar o incêndio. Mas, o herói alado responde: - Ao menos, estou fazendo a minha parte. 

Quem analisa melhor a sociedade sabe que é importante, como dizia Gandhi “começar por si mesmo a mudança que se quer para o mundo”. No entanto, isso só funciona se a parte mais sadia da sociedade conseguir se organizar para lutar contra estruturas que vão além das vontades humanas e do coração das pessoas. Esse processo supõe que a dimensão pessoal se articule dialeticamente com a social. É preciso uma mudança que atinja o plano interior das pessoas e concomitantemente a dimensão social.

Esse tem sido sempre o apelo que todas as religiões e caminhos espirituais acolhem como apelo divino. Conforme a maioria das tradições, é o Espírito de Deus em nós que nos chama permanentemente a uma renovação total do mais íntimo do nosso ser e à transformação do mundo. É isso que o Cristianismo se propõe a celebrar no Natal. Os antigos pastores das Igrejas cristãs afirmavam: “No Natal, o Espírito de Deus se manifestou no homem Jesus, para que o ser humano se tornasse divino”. Isso significa que para os cristãos não é apenas Jesus que se parece com Deus (o Pai). É Deus que se apresenta a nós parecido com Jesus, pessoa humana como qualquer um de nós. Isso nos leva a assumir mais e melhor nossa realidade humana. Deus nos ama como somos. Como a vida é constante processo de renovação interior, somos chamados a sim a nos transformar e amadurecer permanentemente, mas sem que isso nos leve lutar contra nós mesmos. Só seremos capazes de conviver com os outros e compreendê-los, se aprendermos a conviver melhor conosco mesmos.

No Natal, ao nos dar Jesus como sua palavra de amor, Deus puxou o diálogo conosco. Ele tinha iniciado esse diálogo através das mais diferentes revelações de sua presença e seu amor, nas mais diferentes religiões e caminhos espirituais. Na Bíblia, revelou o seu projeto para o mundo: uma humanidade de irmãos que cuidam do mundo com amor e cuidado. No nascimento de Jesus, se revela como pequeno e pobre. É uma indicação de caminho de como podemos nos tornar mais humanos e mais capazes de dialogar.

Não é fácil dialogar em um mundo no qual a sociedade é organizada contra o respeito aos diferentes e o diálogo com o outro. Em um Brasil no qual muitos escolheram como caminho de organização social e política uma proposta de intolerância e mesmo de violência, mais ainda do que antes, o diálogo claro e positivo será a nossa profecia. Não cansaremos de afirmar nossa opção pela vida da humanidade e do planeta. Não deixaremos de combater as desigualdades sociais e a injustiças. Estaremos sempre do lado dos índios, negros e de todas as minorias sociais e sexuais.

Em Gênova, na Itália, o padre e biblista Paulo Farinella anuncia que nesse Natal, ele e sua comunidade não celebrarão nenhum culto público como protesto contra a lei do governo italiano que discrimina estrangeiros e persegue migrantes. Assim como Jesus, ainda criança, teve de fugir para o Egito afim de não ser morto por Herodes, atualmente os migrantes se tornam clandestinos para não morrerem. Não tem sentido celebrar Natal nesse contexto e quando muitos cristãos parecem insensíveis a essa tragédia.

No Brasil, celebraremos o Natal com esse sabor de festa e de dor. É através da solidariedade humana e da opção pelos excluídos que aprofundamos juntos o caminho de Jesus e reafirmamos o sentido do Natal.

dom total///

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad)

 

 

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