Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já dizia Caetano Veloso na deliciosa letra de Dom de Iludir. Só o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, saberá o que sente agora. Vinte e quatro dias depois de assumir como superministro encarregado do combate à corrupção e ao crime organizado, Moro encara o constrangedor caso Coaf — órgão a ele subordinado —, que vai se transformando em caso Flávio (Bolsonaro) e ganhando tinturas mais fortes com o envolvimento de milicianos do Rio de Janeiro. E agora, Moro?

Depois de dias de silêncio, nesta quinta Moro deu rápida entrevista em Davos, dizendo que não haverá interferência do governo nas investigações, que segundo ele estão em estágio preliminar. Não poderia dizer outra coisa, evidentemente – até porque, como ministro da Justiça, não está no comando dessas apurações.

Imagina-se, porém, o constrangimento das conversas a bordo do Airbus presidencial na volta de Davos para o Brasil esta noite. O presidente Jair Bolsonaro, que ontem de manhã disse que, se errou, Flávio terá que pagar, mas que à noite deu outra entrevista defendendo o filho, parece achar que o 01 está sendo injustiçado nas investigações que começaram no Coaf — que não era ainda, mas agora é responsabilidade de Moro.

A relação com as milícias, que também fazem parte do crime organizado e tiveram seus integrantes homenageados pela família Bolsonaro, também será certamente outro ponto delicado dessa conversa.

Com menos de um mês de governo, este não foi o único ponto de divergência. Já no decreto que flexibilizou a posse de armas, sugestões de Moro foram ignoradas. E é evidente sua discordância em relação à próxima etapa dos planos de Bolsonaro, que é reduzir também restrições para a posse de armas.

Por tudo o que se viu até agora, inclusive decreto editado hoje que enfraquece a lei do Acesso à Informação e os planos do Banco Central para suspender a vigilância sobre parentes de políticos, Moro pode acabar isolado no governo. Não há sinais de que haverá apoio efetivo à agenda Moro. A legislação que o ministro da Justiça está elaborando e quer mandar ao Congresso torna mais duras as penas da legislação penal contra o crime organizado e a corrupção. Depois do caso Flávio, será que o Planalto vai bancar essas mudanças?

As dúvidas no entorno de Moro são muitas, e o entusiasmo inicial da República de Curitiba com a nova missão começa a dar lugar a certa cautela. Dependendo do rumo das coisas, não haverá surpresa se o Planalto apressar as articulações para nomeação de Moro para o STF, a pedido do próprio, inclusive negociando a antecipação da aposentadoria de algum de seus atuais membros.

Helena Chagas é Jornalista, foi ministra da Secom e integrante do Jornalismo pela democracia.

 

Helena Chagas é jornalista, foi ministra da Secom e integra o Jornalistas pela Democracia

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