Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Em seu artigo 39, o Código de Defesa do Consumidor proíbe a venda casada, que é quando o consumidor que adquire um produto ou serviço tem que comprar ou contratar outro com o mesmo vendedor ou prestador.

Fazendo uma analogia alegórica, é o que a direita está fazendo com os seus “consumidores”. Ser de direita ou ter escolhido esse lado ideológico nas eleições não é só ter votado no Bolsonaro (o que, diga-se, apesar da minha quase integral discordância com suas ideias, é legítimo e democrático). Quem escolheu esse caminho, ao que parece, teve que levar o conjunto todo. O então candidato não pôde ser “vendido separadamente”.

 
O pior é que nesse pacote de ideias, muitas delas são explicitamente contrárias aos interesses do “freguês”. Mesmo assim, esse parece ter o dever de adquiri-las, de defendê-las.

Quem prestou minimamente atenção às aulas de História do fundamental, ou tem um mínimo de cultura, sabe o quão ruim foi a Ditadura Militar Brasileira. No entanto, como está “no pacote”, os direitistas devem relativizar os horrores e os crimes que a Ditadura cometeu. Ou acusar os citados professores de História de serem parciais e doutrinadores em suas aulas. Em hipóteses piores, os “clientes” defendem arduamente o Regime e usando como argumento justamente o que para outros sustentam a contrariedade: a tortura, as prisões arbitrárias, os assassinatos.

Bolsonaro mal assumiu e já viu seu sobrenome envolto num escândalo de corrupção. Flávio, seu filho, é acusado de empregar funcionários laranjas. Ninguém é culpado até que se prove ao contrário. O “garoto” tem direito à defesa. Mas os consumidores do pacote direitista não exigem com muito afinco que as investigações sigam. Alguns evocam aquilo que é o principal argumento da direita: e a corrupção do PT?

Nosso Presidente (como me é estranho escrever isso) fez explicitamente um discurso fraquíssimo em Davos, na cúpula dos investidores, na Economia, bandeira que lhe era muito cara. Falou por oito minutos. E não disse nada. Todos os especialistas o criticaram. Mas os clientes direitistas o defenderam incondicionalmente. Um bolsonarista convicto o protegeu: “tá certo. Se é pra dizer besteira, tem mais é que falar pouco mesmo!”. Não pude deixar de concordar com ele.

Jean Wyllys, deputado federal reeleito pelo Rio de Janeiro e ferrenho opositor de Bolsonaro, resolveu não reassumir seu mandato e sair do Brasil, por medo. Ele estava sendo ameaçado há pelo menos um ano e andava com escolta policial há meses. Jean é (seria) tão legítimo deputado como Bolsonaro é Presidente, apesar de ele lhe ser o seu completo antagônico. Ao invés de se preocuparem com a situação genérica, um deputado ter que deixar o País por causa de ameaças, os adquirentes do “pacote direitista” comemoram o exílio e ainda debocham do deputado.

É comprovado que os agrotóxicos, eufemisticamente chamados de “defensivos agrícolas”, são maléficos à saúde. No entanto, como Bolsonaro é um defensor do grande agronegócio, que se utiliza desses “remédios” pra aumentar a produção, os direitistas se deixam convencer que o uso desses produtos não faz mal algum. Pelo contrário, aumentam a produção de alimentos. Com isso, voltam a atacar os defensores dos orgânicos, os “ecochatos”, por eles assim acusados.

O pacote é enorme. Falei dalguns. No campo da educação, daria outro texto. E nem citei a Reforma (Destruição) da Previdência, que vai jogar na pobreza os velhos.

E, depois da tragédia de Brumadinho, vamos ver se os “clientes” direitistas ainda vão ter coragem de defender flexibilizações na legislação ambiental, também inclusa nessa “venda casada”.

Repito, o voto em Bolsonaro foi legítimo. Em alguns casos, até explicáveis. A defesa incondicional de suas ideias, contudo, não é obrigatória.

*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”

Pragmatismo Político 

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