Nem as verdades que afirmamos, proclamamos ou defendemos, são para sempre.

 

Tenho a convicção de que o maior dos males, é pretender ser o senhor da verdade. (Pixabay)

 

Por Evaldo D' Assumpção*

Lemos na Bíblia que Jesus Cristo foi interrogado por Pilatos, e num determinado momento o governador romano perguntou ao Mestre: “O que é a verdade?” A resposta foi o silêncio de Jesus.

Qual foi a razão desse silêncio? Acreditamos que, apesar de Cristo ser a Verdade, como Ele mesmo já o afirmara (Jo 14,6), nada adiantaria responder isso a Pilatos. A verdade é, em Deus, absoluta, e assim sendo, inalcançável pelos humanos, para quem ela sempre será relativa. E isso em razão da nossa própria imperfeição, onde tudo é transitório, passageiro, nada é definitivo. Portanto, nem as verdades que afirmamos, proclamamos ou defendemos, são para sempre.

Com certeza era à luz dessa realidade, que Ghandi dizia: “Não tenho compromisso com a coerência e sim com a verdade”. Em outras palavras, devemos estar permanentemente buscando a verdade, sem querer ser inflexíveis e imutavelmente coerentes com a “verdade” que até então afirmávamos, pois podemos descobrir que ela não era tão autêntica assim. Ser capaz de voltar atrás, reconhecendo os próprios erros, isso é sinal de sabedoria.

Essas reflexões nos vêm diante de tantas afirmações de políticos e cientistas, de religiosos e moralistas, cada um pretendendo que suas posições sejam a verdade absoluta, imutável, definitiva, e portanto única. Vejam o Congresso Nacional, os Supremos Tribunais, etc. Quantos ali representam realmente o povo brasileiro, quantos ali escutam, de verdade, a voz das ruas, o grito do povo? São movidos pela ilusão, pela ambição, pela pretensão. Quanta vaidade!

Tenho a convicção de que o maior dos males, é pretender ser o senhor da verdade.  Por isso, quanto zelo devemos ter, cada vez que dizemos algo, em cada palavra que pronunciamos, em cada afirmação que fazemos... Até mesmo as considerações, e ou afirmações que agora faço, e as que já fiz, causam-me enorme inquietação! Não estarei, eu mesmo, arvorando-me em “dono da verdade”, fazendo incontestáveis asserções, e assim caindo em contradição? Quantos de nós aceitamos, com tranquilidade, as divergências de opinião?

Quanto mais avançam os conhecimentos técnicos e científicos dos humanos, mais pretensioso eles se tornam, acreditando terem encontrado a verdade final. E quantas decepções!  O próprio átomo, cujo significado etimológico é: “indivisível”, tornou-se inteiramente fragmentado em partículas subatômicas. Até a velocidade da luz, que seria intransponível, foi ultrapassada.  Como pretender então que nossas crenças, nossas posturas, nossas “verdades”, sejam definitivas? Como pretender que as alheias sejam falsas?

Refletindo sobre essa questão, descobrimos o quanto somos pequenos dentro de toda a grandeza que é a dignidade da pessoa humana, de toda a humanidade.

Descobrimos que, “feitos à imagem e semelhança do Criador”, diante do Criador somos frágeis criaturas. Se nos excluímos do seu amor por nós, aquele que dá dignidade ao nosso ser, voltamos a barbárie, a insignificância, ao próprio pó de onde viemos. Contemplemos a história: quantos “deuses”, césares, imperadores, ditadores e gênios ocuparam o píncaro da glória humana, para depois tombarem à terra que os engoliu, deixando apenas lápides e frias estátuas de pedra a representá-los. Alguns se transformaram em nomes de ruas e praças, e nelas os transeuntes passam sem sequer tomar conhecimento de quem foram aqueles que deram seus nomes para a mera localização de onde se está.

E tão aterrorizadora é essa realidade, que a nossa defesa muitas vezes é a de anular o Criador, a Verdade absoluta, o único que realmente está acima de tudo e de todos. Afinal, se Deus não existe, tudo passa a ser permitido, e os parâmetros da moral se moldam à nossa vontade, aos nossos desejos, e às necessidades pessoais. Ateus, acreditamos ser superiores, e senhores da “verdade”! Deuses de barro, nos travestimos em avestruzes: com a pequenina cabeça escondida no chão, fazendo de conta que o corpanzil exposto nem sequer existe. E assim nos sentimos protegidos. Vulgus vult decipit. (O povo quer ser enganado!)

Nunca a humildade consciente – que definitivamente não é o mesmo que humilhação – foi tão necessária aos humanos. Nunca a consciência crítica foi tão indispensável à humanidade.

Hoje os poderosos utilizam suas armas para dominar os desarmados. Vozes são estranguladas na garganta quando se elevam para questionar as falsas verdades. Os que ocupam cargos e ostentam títulos, acreditam, ou fingem acreditar, que são os tutores da humanidade, só eles sabendo a verdade, o caminho, e como percorrê-lo. Por isso mesmo tanta miséria, tanto tumulto, tantas catástrofes, tanta dor, tanto sofrimento, nas famílias, nas empresas, nos estados, nas religiões. Quantos donos da verdade... Quantas ordens, quantas proibições, quantas normas, e quão poucos, pouquíssimos, resultados, em termos de felicidade humana!

Há 2.000 anos alguém ensinou: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. Só assim vocês encontrarão alívio para as suas vidas!” (Mt 11,29) Tanto tempo passou, tantos se dizem seus seguidores, outros se arvoram em seus arautos, mas continuamos do mesmo tamanho (ou ainda menores), com os mesmos sobressaltos, na mesma hipocrisia, reféns da nossa própria pretensão. Repito César, diante dos desmandos de Catilina: Quousque tandem?... (Até quando?...)

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

 

dom total///

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