Celebrar a vida no carnaval, meditar sobre ela na quaresma: alegra-se sem se alienar.

 

Na festa do carnaval evidencia-se um aspecto da vida humana, o existir. (Reprodução/ Pixabay)

 

Por César Thiago do Carmo Alves*

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu… Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo, povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!” (Dom Helder Câmara).

 

Dom Helder Câmara (1909-1999) foi, indubitavelmente, um dos maiores bispos que a Igreja Católica no Brasil conheceu. Sua força profética, com dinamismo e coerência de uma vida pautada no Evangelho, optando pelos pobres, consistiu numa referência para o discipulado de Jesus de Nazaré. As palavras desse Arcebispo de Olinda e Recife ecoavam nos corações e motivava tantos quantos as ouviam. Dom Helder era capaz de visualizar horizontes onde as pessoas enxergavam o fim da linha. Sua sensibilidade humana com toques profundos de mística fazia com que ele vislumbrasse beleza no dom da Criação e nas manifestações populares. Enquanto muitos demonizavam festas como o carnaval, Dom Helder conseguia extrair o sentido existencial de uma festa como essa. Esse sentido consiste na alegria popular. A alegria é uma marca cristã.

A alegria popular que é envolvida a festa de carnaval evidencia um aspecto da vida humana. Celebra-se, de algum modo, o existir. Diante do sofrimento seja por conta das dores existenciais, seja por conta de um sistema sócio-político e econômico que impede as pessoas de terem vida em abundância com justiça e segurança jurídica, a alegria popular carnavalesca vem como um modo de vivenciar o outro lado da vida. É uma festa popular. Celebra-se comunitariamente. Os bloquinhos de rua ou os grandes desfiles nos sambódromos reúnem inúmeras pessoas que estão ali tão-somente para se divertir. Diversão compõe o nosso modo de ser. O espaço para o lúdico é fundamental para uma saúde psíquica. Essa diversão comunitária mostra que o ser humano não é uma ilha. Que a alegria é partilhada. Festeja-se juntos! É a comunidade humana. No entanto, essa pausa durante o ano não faz com que se relegue a luta cotidiana. Após a terça-feira de carnaval vem sempre uma quarta-feira de cinzas.

A quarta-feira de cinzas marca o início do tempo quaresmal. Tempo Forte na liturgia da Igreja. Desde a antiguidade esse tempo fora marcado por um intenso e denso itinerário para a busca da vivência cristã. As catequeses mistagógicas dos Santos Padres dos primeiros séculos revelam isso. A seriedade da opção pelo projeto de Jesus colocava aos que se dispunham a seguir o Mestre de Nazaré num processo mistagógico. O ápice desse processo acontecia na Noite Santa, a Vigília Pascal, na qual as pessoas catecúmenas recebiam os Sacramentos da Iniciação Cristã. Era e é um tempo de conversão e avaliação da própria vida. De aderir à fé pessoalmente a partir dos conteúdos de fé propostos pela comunidade eclesial. Portanto, o compromisso firmado com o projeto de Jesus e o Reinado de Deus passavam e passam pela mediação da Igreja.

Mas, afinal, o que esses dois momentos, carnaval e quaresma, podem dizer da vida humana?

Alegria e seriedade são um dos binômios que fazem parte da vida. Carnaval e quaresma podem ser metáforas desse binômio. Em tempos sombrios, em que os falsos moralismos querem imperar, fica o desafio de ver, como Dom Helder, a beleza humana da alegria celebrada em comunidade. Essa alegria de sentir a vida é a mesma que deveria perpassar no caminho do discípulo e discípula de Jesus para assumir com seriedade o projeto do Mestre comunitariamente. Alegria e seriedade não são antagônicas. Muito pelo contrário, se complementam.

Esse ano a Igreja Católica no Brasil, no tempo quaresmal, propõe a tradicional Campanha da Fraternidade. O tema de 2019 é atual e necessário: “Fraternidade e Políticas Públicas”. Pensar a relação desses dois aspectos consiste num desafio. A alegria popular do carnaval na qual estaremos envolvidos não deve ser motivo para anestesiarmos da seriedade de refletir sobre as Políticas Públicas, pois não é possível ser uma pessoa cristã sem lutar para que a vida seja marcada pela dignidade humana e isso perpassa também pela esfera política. Em tempo no qual cada vez mais se quer retirar direitos dos mais pobres, como é o caso do atual Projeto de Reforma da Previdência, urge a necessidade de se assumir profeticamente, como Dom Helder Câmara fez, o lado dos oprimidos com seriedade.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

 

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