Mais bonito ainda ver/sentir que o país não se rendeu ao medo, ao preconceito.

 

 

A potência do enredo reverbera o que vem ganhando força e lugar. (Crédito: Cólera Alegria)

Por Eleonora Santa Rosa*

 

Da saída do reinado de Momo, a melhor notícia foi a vitória da Mangueira no carnaval carioca, com a cara do Brasil.

Coragem é para poucos, criatividade é bem coletivo das escolas de samba em geral, samba-enredo de garra e de virada não é para qualquer um, desfiles de beleza e grandeza não são raros, mas, atualmente, extraordinários são os que conseguem expressar e mobilizar o povo brasileiro.

Gol de placa, pingos nos is, lição do avesso da história, narrativa para nenhum doutor historiador botar defeito. Tudo ali em resumo, sumo do que a história oficial quis apagar, subtrair, menosprezar.

Carro por carro, ala por ala, alegoria por alegoria, ao som da espetacular bateria, a história do Brasil não oficial, do Brasil que muitos não querem que venha à tona, cujos personagens alijados, desconsiderados, insubordinados, incômodos, eclipsados, surgem em extraordinária composição, extravasando séculos de sequestro, opressão e silêncio forçado.

A potência do enredo reverbera o que vem ganhando força e lugar, a fórceps, sem submissão e vergonha, ‘reescrevendo’ na voz, no corpo, na fantasia, na letra pujante e arrebatadora o legado de construção de uma nação (hoje acabrunhada), o caldo de cultura da miscigenação, a lembrança de milhares e milhares sucumbidos na trilha da dizimação trazida  pelas ideias de colonização, evangelização, domesticação, progresso, desenvolvimento e tantos mitos mais. Reverso da história coalhada de sangue, de intolerância, do aniquilamento de povos, de perseguição implacável perpetrada contra índios, quilombolas, ribeirinhos, mulheres, negros, desiguais.

Mais bonito ainda ver/sentir que o país não se rendeu ao medo, ao preconceito, à ignorância, à omissão frente aos assassinatos covardes, à inversão dos fatos, à deseducação moral e cínica, à perseguição à cultura e à arte, à desinteligência, aos ‘justiçamentos’, à mitomania.

Viva a Estação Primeira de Mangueira, viva seu samba-enredo de paixão e coragem, viva a História pra Ninar Gente Grande:

 Mangueira, tira a poeira dos porões

Ô, abre alas pros teus heróis de barracões

Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões

São verde e rosa, as multidões

 

Brasil, meu nego

Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra

 

 Brasil, meu dengo

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato

 

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de cariri

Não veio do céu

Nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

 

Salve os caboclos de julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

*Eleonora Santa Rosa – ex-Secretária de Cultura de Minas Gerais, foi diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, tendo exercido inúmeras funções na Administração Pública. Jornalista, editora e gestora cultural, dirige atualmente o Museu de Arte do Rio – MAR.É sócia fundadora do Santa Rosa Bureau Cultural (www.santarosacultural.com.br).

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