Precisamos de uma educação que aclare o papel da mulher e ensine o homem a construir sua masculinidade de modo sadio.

 

Em 2018, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 16 milhões de mulheres acima de 16 anos sofreram violência. (Fernando Frazão/ Fotos Públicas)

 

Por Élio Gasda*

Não é não! Século XXI, as mulheres ainda precisam explicar que depois do não, tudo é violência, assédio e desrespeito. Ainda estão na luta por direitos civis, políticos e sociais. Lutam pela igualdade de gênero! Até quando? De Cleópatra a Marielle Franco pouco mudou. As conquistas são módicas, homens se sentem proprietários das mulheres.

Sempre autorizadas por eles. Com maioria no Congresso Nacional, nas Assembleias, nas Câmaras Municipais e até no Judiciário legislam sobre corpos, direitos e deveres delas. Em 1827 as autorizaram a estudar. Em 1934 a votar. Hoje são necessárias cotas eleitorais de gênero para que elas participem do processo. Pasmem, em 1962 foi sancionado o Estatuto da Mulher Casada, que instituiu que a mulher não precisaria mais da autorização do marido para trabalhar, receber herança e, em caso de separação, ela poderia requerer a guarda dos filhos. Elas precisam mesmo de autorização? “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas entram, muda a política” (Michelle Bachelet). 

Foram eles que em 2006 aprovaram a Lei Maria da Penha, contra a violência doméstica. Em 2015 sancionaram a Lei do Feminicídio, que colocou a morte delas no rol de crimes hediondos. Adiantou? Em 2018, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 16 milhões de mulheres acima de 16 anos sofreram violência: 3% ao se divertir num bar, 8% no trabalho, 8% na internet, 29% na rua e 42% em casa. 536 mulheres agredidas por hora! A cada nove minutos uma delas foi agredida por motivos sexuais. 4,7 milhões tomaram socos, empurrões, tapas e chutes. 12,5 milhões sofreram ofensa verbal, insultos, xingamento e humilhação, 1,7 milhão ameaçadas com arma branca ou de fogo. 1,6 milhão foi espancada ou sofreu tentativa de estrangulamento. 76% delas conheciam o agressor (marido, ex-namorado, vizinho). Mais da metade (52%) não o denunciou. Medo? Como é arriscado quebrar o silêncio. Só 8% dos municípios possuem Delegacias da Mulher. Precisamos mais que delegacias.

Ainda somos coniventes com brutalidade contra elas? O feminicídio muitas vezes é o ponto final de uma história de violências que poderia ter sido interrompida pelos vizinhos, familiares ou o Estado. São tantos tipos, espaços distintos (transporte público, academia, escritório, consultório, escola, igrejas), mas as atitudes e as respostas são as mesmas. A mulher grita por socorro de madrugada e ninguém se importa! A mulher é molestada no metrô, pede ajuda depois que um homem ejacula em se corpo e ninguém se importa. A culpa é sempre delas. Humilhação! Denunciar para quê? Para quem?

O problema é cultural. As políticas públicas, as leis estão aí, mas como mudar uma cultura machista se crianças crescem vendo o pai espancar a mãe. No futuro, o menino vai achar natural controlar e agredir a mulher. A menina é violentada (física, sexual, psicologicamente) pelo pai, irmão, tio, primo, padrasto, muitas vezes sem se dar conta de que sofre violência. Pior é ter um presidente que faz apologia da violência: “Eu falei que não ia estuprar você porque você não merece” (dirigindo-se a dep. fed. Maria do Rosário, 2003). “Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher” (Clube Hebraica 2017). O presidente expediu um decreto que facilita a posse de armas em casa. Lugar de morte e terror de tantas mulheres. A maioria das vítimas de feminicídio morava ou morou com os assassinos. Um pacto com a tragédia, com o crime. Números apresentados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e de outras pesquisas apontam a relação de aumento de arma de fogo com o aumento de homicídios, o crescimento do feminicídio é uma obviedade.

Um padrão que precisa ser vencido. A educação é fundamental para mudar essa realidade. Muitas vezes, o resultado do feminicídio é uma mãe morta, um pai preso e um filho órfão. A educação infantil, na família e na escola, precisa ensinar o valor da mulher como sujeito de direitos. Ensinar o homem a construir sua masculinidade não a partir do domínio e desrespeito a uma mulher. “O homem não traz harmonia. É ela. A mulher é quem dá harmonia ao mundo. Não está aqui para lavar louça” (Papa Francisco). O caminho a percorrer é longo. É preciso ter coragem, sabedoria e discernimento para enfrentar a violência por questões de gênero.

 “Quero ressaltar que a mulher tem uma sensibilidade particular pelas ‘coisas de Deus’, sobretudo para nos ajudar a compreender a misericórdia, a ternura e o amor que Deus tem por nós”. Então, porque as mulheres ainda são tão violentadas? Porque homens cristãos espancam suas mulheres e as humilham? "Estou chamando vocês para lutar contra essa fonte de sofrimento por meio da legislação e de uma cultura que rejeita todo tipo de violência" convocou Francisco (Peru/2018). “Não desejo que as mulheres tenham mais poder que os homens. Desejo que elas tenham mais poder sobre si mesmas” (Mary Shelley).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

 

Dom Total///

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