Publicado em: abril 7, 2019/ Sul 21///

 

Pichação no Centro do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1979. Arquivo Nacional.

 

Fernando Nicolazzi (*)

Convido o leitor ou a leitora a realizar uma reflexão simples. Suponha que você contrate um determinado serviço que oferece banda larga de alta velocidade e a empresa lhe entregue uma internet discada, irritantemente lenta e com aquele enfadonho barulho da conexão sendo feita. Suponha também que você compre uma torta cujo recheio é descrito com fartos adjetivos no cardápio e ilustrado por uma bem produzida fotografia, mas a empresa lhe entregue uma massa vazia e insípida, feita com farinha velha. Suponha ainda que você encomende uma obra cuja propaganda lhe convença tratar-se da mais importante coleção de biografias de uma cidade, porém o que chega em sua casa enviado pela empresa é tão somente o catálogo telefônico do município e ainda por cima desatualizado.

A reflexão proposta a partir destas suposições imaginárias é a seguinte: qual seria sua atitude diante destas empresas? Como você classificaria o serviço contratado ou o produto adquirido? Mesmo ciente de que foi enganado, você se sentiria confortável sabendo que os proprietários manifestam a mesma ideologia política com a qual você se identifica? Indo um pouco mais além neste raciocínio, suas convicções políticas mais básicas (por exemplo, ser de direita ou de esquerda) são razões suficientes para você consumir um produto de péssima qualidade, ainda que vendido em uma embalagem atraente com aquelas convicções estampadas no rótulo?

Esta reflexão me veio à mente quando comecei a acompanhar a atuação da Brasil Paralelo e a observar com mais cuidado os produtos por ela comercializados. A produtora, que ganhou repercussão nacional recentemente (além de uma involuntária e discutível publicidade que a ajudou em sua expansão), é uma empresa que disponibiliza conteúdos que permitem lucros econômicos aos seus proprietários. No caso, seus principais produtos são narrativas sobre o passado brasileiro e seu público privilegiado são pessoas interessadas em conhecer tal passado.

Obviamente, não há nada de errado no simples fato da empresa comercializar produtos de natureza educacional sobre nossa história. Penso que, por si só, isso poderia até ser algo bastante positivo. A mesma certeza, contudo, não me parece possível de ser colocada a respeito daquilo que é por ela comercializado. Ou seja, deixando claro desde já para evitar mal-entendidos posteriores: meu argumento não incide sobre a prática (o comércio), mas sim sobre o objeto (o produto). Assim, transformo o argumento em uma indagação: é possível sustentar que a empresa, ao comercializá-lo, entrega um produto conforme o prometido em sua propaganda? Neste texto vou sugerir que há elementos suficientes para desconfiarmos disso, mostrando ainda como o público de história deve estar atento para não ser engambelado quando consumir determinados conteúdos.

A natureza dos produtos oferecidos pela produtora já vinha despertando minha curiosidade há algum tempo. Ela ficou ainda mais evidente quando vi um artigo meu, publicado neste mesmo Sul21 em março passado, sendo falsamente instrumentalizado para repercutir supostas censuras que teriam ocorrido em universidades brasileiras em relação ao vídeo 1964. O Brasil entre armas e livros, a mais recente produção da empresa. Na imagem, o print de meu texto segue com áudios não identificados de pessoas alegando aquela suposta censura, acompanhado pela seguinte legenda: “vozes de alunos e professores censurados nas universidades”.

Estamos diante de uma instrumentalização e de uma falsidade por dois motivos bastante simples: meu artigo não dizia respeito diretamente ao vídeo em questão, tampouco sugeria qualquer tipo de boicote ou censura à sua exibição. Ou seja, ele aparece ali deslocado de seu contexto de origem e utilizado unicamente para repercutir o vídeo veiculado. Trata-se de marketing publicitário, não de uma verdade factual. Em outras palavras, se não estamos diante de uma mentira explicitamente enunciada, é certo que o que vemos é uma falsidade sugerida de forma implícita e que engana o espectador. Seria como, por exemplo, colocar uma imagem de garimpeiros de Serra Pelada realizada pelo fotógrafo Sebastião Salgado após o fim da ditadura para representar supostos guerrilheiros encarados como responsáveis pelo início dessa mesma ditadura. Não apenas um erro cronológico, mas uma falsificação histórica.

De todo modo, esse uso desonesto de meu artigo me permite o ensejo para retomar o argumento que ali sustentei e que agora tenho certeza a empresa conhece, embora não tenha encontrado meios para refutá-lo. O argumento é o seguinte: a Brasil Paralelo promete um determinado produto, mas entrega outra coisa bastante diferente. Minha análise do livro Entre mitos e verdades. A história do regime militardisponibilizado pela empresa mostrou isso. Retomo aqui um ou dois pontos.

Em primeiro lugar, a produtora se define como “imparcial”, no entanto deixa claramente evidenciado desde o início que o livro é para “resgatar” apenas uma das partes da história, supostamente silenciada pela esquerda. O nome disso ainda é parcialidade, pelo menos até que o negacionismo comece a agir sobre nossos dicionários. Ou seja, o produto fornecido, ao contrário do enunciado, de modo algum é um relato parcial. Entre o produto enunciado e o entregue, estamos aqui em distância semelhante àquela entre banda larga e conexão discada.

Além disso, a empresa sustenta que seu produto é desprovido de “qualquer viés político ou ideológico”. Ora, se o caso é de refutar com parcialidade um viés considerado de esquerda, de que lugar específico estão falando se não de outro viés antagônico a este? A partir do momento em que o relato foi parcializado, o viés político e ideológico encontrou abrigo no livro e de lá não mais saiu. A apetitosa torta recheada do cardápio foi entregue como um pastel murcho e sem recheio.

A mesma coisa percebemos quando a empresa afirma tratar-se de “uma análise puramente historiográfica do Regime Militar no Brasil”. Argumentei que não há no livro análise, mas tão somente uma recolha malfeita de dados coletados pela internet. Ainda assim caso houvesse análise, ela não poderia ser considerada historiográfica, tal a distância mantida em relação aos princípios básicos que alimentam a historiografia, como o cuidado documental. O velho catálogo telefônico foi definitivamente transformado em biografia dos cidadãos ilustres.

Em resumo, apesar de contar uma determinada história, o livro falseia o passado e distorce informações em vários momentos e demonstrei isso em meu artigo. E como a própria empresa garante que “todo o conteúdo gerado pela Produtora” é semelhante entre si, podemos então assumir que a pouca qualidade que encontramos no livro pode também ser encontrada em outras produções. E de fato isso ocorre. A série Brasil: A última cruzada, de 2017, fornece situações que beiram o ridículo. Menciono apenas uma delas para não me alongar em demasia.

Desde o primeiro episódio, o espectador é informado que o projeto da empresa é olhar para o futuro do Brasil, valendo-se do exemplo de heróis que funcionam como lideranças morais, e carregado por um sentimento patriótico que permita perceber a grandeza da nação brasileira. Contudo, o sexto episódio da série nos traz na voz arrastada de um dos entrevistados a seguinte definição: “…e o fascismo também surge com a mesma retórica, ou seja […] nós precisamos olhar para o futuro, precisamos ter grandes lideranças, nós precisamos agora sermos (sic) uma grande nação”. Minutos depois, outro entrevistado afirma com a voz mansa e um irretocável sotaque carioca: “o fascismo é de esquerda”.

E se dermos ainda um passo a mais rumo ao absurdo e chegarmos, por exemplo, na famosa entrevista feita com o Ministro das Relações Exteriores, recebemos atônitos a informação não contestada pela empresa de que “nazismo e fascismo são fenômenos de esquerda”. Neste ponto a confusão é total e estamos diante do olavismo em estado puro: a empresa que pretende lutar contra a esquerda se vale de uma retórica que é definida no próprio produto da empresa como fascista; neste mesmo produto é afirmado que o fascismo é de esquerda; por fim, além do fascismo, essa retórica se aproxima do nazismo. Se alguma lógica funcionasse aqui, o espectador seria levado a concluir que esta é uma empresa nazista, fascista, de esquerda e que, curiosamente, está lutando contra si mesma. Creio não ser necessário qualquer comentário adicional para mostrar o abismo intelectual em que estamos.

Mas gostaria de relembrar que isso é vendido pela empresa como se fosse um bom produto historiográfico. Voltando ao exercício proposto no início deste texto, pergunto se alguém que busque conhecimento adequado se sentiria confortável consumindo um produto dessa qualidade? Evidentemente, não se trata aqui de avaliar se é um produto esquerdista ou direitista (essa é uma obsessão dos proprietários, não minha), mas tão somente se é um produto qualificado ou não.

Como a empresa não cansa de repetir (embora seja preguiçosa para apresentar provas) que a historiografia brasileira é tomada por autores e autoras de esquerda que deformariam a história nacional, não seria despropositado perguntar: não estaria ela própria, com sua posição enviesada ideologicamente, seus equívocos interpretativos, seus erros factuais e suas falsificações grosseiras, enveredando-se pelo mesmo caminho que pretende condenar? Longe de mim sugerir que não há diferença entre esquerda e direita, muito pelo contrário. O que argumento é que um produto é ruim e continua sendo ruim independente da ideologia política de que o produz.

Toda essa situação me lembrou uma curiosa situação que há algum tempo ocupou muitas das discussões políticas em nosso país. Foi noticiado que conhecidas empresas frigoríficas, investindo pesadamente em estratégias de marketing para vender produtos supostamente de qualidade, entregavam na verdade carne de péssima procedência e, inclusive, com vestígios de papel em sua composição. Não tardou muito para que piadas se espalhassem pela internet, com imagens de churrascos feitos com picanhas de papelão.

Obviamente, a comparação entre os dois produtos não tem nenhum cabimento. Afinal, são coisas muito distintas e qualquer analogia não faria o menor sentido. Mas do ponto de vista da atuação empresarial e do respeito ao consumidor que se deveria manter, algumas perguntas guardam uma inusitada semelhança: independente do frigorífico ser de esquerda ou de direita, alguém gostaria de consumir carne falsificada com papelão? E se porventura o açougueiro negasse a natureza mamífera do boi, defendendo ser a picanha um “fenômeno” das aves, alguém confiaria nesta empresa? As respostas a elas deixo a cada um responder.

(*) Professor do Departamento de História da UFRGS

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Observador.///

 

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