As lamparinas da fé estão sendo largadas para se acolher a violência das armas.

 

O entrelaçamento da fé com a politicagem vendida provoca o irremediável distanciamento de Jesus. (Kyle Johnson/ Unsplash)

 

Por Tânia da Silva Mayer*

“Lâmpadas nas mãos, vamos ao encontro do Senhor”, essa frase poderia ser dita por qualquer pessoa cristã de ontem e de hoje. Ela se encontra facilmente referenciada na Sagrada Escritura e poderia muito bem consistir num mantra para aqueles cujas existências estão convergidas à espera e ao trabalho pelo Reino de Deus. 

Nas celebrações do ciclo do Natal, essa expressão redobra sua força e assume a forma de um convite feito à comunidade cristã para que se prepare para a manifestação definitiva de Deus quando todas as coisas estiverem consumadas. Não somente em épocas natalinas, esse convite deve estar sempre presente no horizonte da fé dos cristãos e das cristãs, pois indica um estado de mínima preparação para o encontro com o Senhor, aquele que traz a salvação para todas as pessoas.

Se a salvação é uma oferta divina a todas as pessoas, sem distinções, está claro também que a acolhida desse dom se dá por meio de uma resposta livre, sem pressões. E essa resposta pode ser tanto de adesão quanto de rejeição. Precisamente, ao recordar a parábola evangélica sobre as 10 virgens à espera do noivo, percebemos que a acolhida do dom está mais propensa a acontecer entre as pessoas que assumem um processo contínuo de conversão e preparação para acorrer ao encontro do noivo que vem. E isso compreende a decisão de se tornar outra pessoa cada vez melhor para si mesmo, para os outros, para a sociedade e também para Deus. 

Essa parábola também permite compreender que o noivo esperado é aquele em direção ao qual se caminha, mas, sobretudo, que ele é advento, pois está sempre vindo ao encontro da humanidade para encontrar-se com ela numa festa nupcial da salvação. Nesse sentido, entende-se que não é somente o ser humano que sai ao encontro de Deus, mas que ele próprio se coloca em marcha rumo à sua criação para salvá-la.

As lâmpadas servem para iluminar o caminho, a fim de que os passos não se desviem impedindo o encontro com o Senhor que vem. Por isso, é imprescindível mantê-las acesas para não se perder na escuridão das ações, dos gestos e das palavras que afugentam e distanciam do Reino de Deus. Precisamente, o Evangelho de Jesus é lâmpada segura na qual os cristãos e as cristãs devem se apoiar para enfrentar a escuridão do tempo presente. Trata-se de uma loucura não alimentar a luz e ceder às trevas. Loucura essa que fez com que lideranças evangélicas e políticas deixassem de lado as lamparinas da fé para acolher a violência das armas.

O gesto profético do Jair Bolsonaro, presidente da República, durante o evento promovido pelos pastores da Renascer em Cristo e apoiado por outras igrejas evangélicas na última quinta-feira, não deixa dúvidas da irresponsabilidade diante da fé cristã e da sociedade brasileira que ali se praticou. A Marcha para Jesus deveria ser uma oportunidade para que os presentes retomassem o lugar da preparação para o encontro daquele ao qual marcham em sua direção. Mas em vez disso, o entrelaçamento da fé com a politicagem vendida provoca justamente o irremediável distanciamento dessa multidão do próprio Jesus. É um desafio sem superação encontrar no Evangelho qualquer mínimo apoio às armas, porque elas pertencem ao anti-Reino e não promovem a vida que é dom de Deus.

Bolsonaro, messias do anti-Reino, disparou, com seu gesto irresponsável e violento, contra alguém supostamente caído, matou alguém ali mesmo diante do riso fácil dos que se dizem pastorear o rebanho evangélico ali presente. Marcha da paz? Não, porque a paz não vem pelas armas e não pode ser alcançada pela promoção de assassinatos. Marcha para Jesus? Sim, com as armas nas mãos, para mata-lo outra vez e despejar seu corpo entre outros tantos corpos encontrados nas ruas e avenidas de um país bárbaro e sob a conivência e o apoio de um cristianismo que não tem nada a ver com Jesus e com seu Evangelho.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

 

DOM TOTAL///

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