Atitudes de Francisco e Bolsonaro mostram o equilíbrio e o desequilíbrio de governantes diante da luta pela justiça.

A pandemia expõe nossas fragilidades e nossa humanidade. Nossa casa é comum (VaticanNews e PR)

 

 

Élio Gasda*

 

 

Vírus, do latim “fluído venenoso, toxina”, microscópicos agentes infecciosos altamente nocivos à saúde. A coisa mais importante para todos os humanos é a saúde. De etimologia latina salus -ūtis significa salvação, conservação da vida. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Sem saúde não há trabalho. Sem trabalho não há dinheiro, consequentemente não existe mercado, lazer, política e religião. O mundo está doente! Uma pandemia em pleno século 21: Covid-19, doença causada pelo coronavírus, de uma família de vírus responsáveis por infecções respiratórias. O novo agente foi descoberto em dezembro na China.

A Covid-19 ainda não tem cura. O Interferon alfa 2B, fornecido por Cuba para a China, é um antiviral usado no tratamento de contaminados. O número real de infectados e taxa de reprodução são desconhecidos. Como na Idade Média! A peste bubônica, causada pelo vírus Yersinia pestis, matou cerca de um terço da população europeia em meados do século 16. O coronavírus já está presente em todos os continentes. Até o momento que escrevia essa coluna passavam 200 mil casos e 8 mil mortes no mundo. A pandemia expõe nossas fragilidades e nossa humanidade. Nossa casa é comum. O vírus não escolhe raça, idade, sexo, situação financeira. Não somos deuses. Vivemos a precariedade humana, econômica, social, política e moral.

Momento de reavaliar tudo. Quem tem um bom plano de saúde, emprego formal, que possa trabalhar em casa seguindo as diretrizes da OMS, estará até certo ponto protegido. E os milhões de trabalhadores informais, desempregados e sem teto como ficam? É importante a defesa SUS (Sistema Único de Saúde). Caso contrário a Covid-19 terá endereço: os idosos, os pobres e excluídos, os descartados. No Brasil, a destruição das políticas sociais aprofundou a miséria. Nas áreas pobres, o coronavírus atingirá uma população extremamente vulnerável. “O acesso a medicamentos vitais, incluindo vacinas, antibióticos e antivirais, deveria ser um direito humano, universalmente disponível a preço zero” (Mike Davis). A pandemia reforça a urgência da solidariedade mundial. Precisamos conter o “vírus da indiferença”.

Cientistas estimam que a taxa de mortalidade pode chegar a 10% dos infectados. O surto pode ser desacelerado com a adoção de medidas rigorosas. Quarentena na França, Itália e Espanha. Vários países da América do Sul e a União Europeia União Europeia fecharam suas fronteiras. No Brasil? Bolsonaro disse que não se importa. Em ato de extrema irresponsabilidade, o presidente “espalha-vírus” ignorou as orientações médicas e do seu próprio governo ao abraçar, cumprimentar, tirar selfies com apoiadores. Por nova portaria do Ministério da Justiça, teria que ser preso. 16 integrantes da comitiva que o acompanhou aos Estados Unidos positivou para a Covid-19. Seu despreparo e irresponsabilidade o tornou inimigo público da saúde dos brasileiros, um vírus. Enquanto líderes do mundo estão preocupados em estabelecer políticas para evitar a disseminação da doença, Bolsonaro classifica o momento como histeria.

Diz que o vírus é produção da mídia, retira o Ministro da Saúde da coordenação do combate à pandemia e põe um general. Ao contrário de outros países, ainda não fechou as fronteiras. Bolsonaro não participou da videoconferência que reuniu os presidentes do Chile, Argentina, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Guiana. “As pessoas abandonarão a Igreja se a Igreja as abandonar durante a epidemia” (Yoannis Gadi, secretário do papa). No Vaticano a epidemia cancelou audiências e fechou museus. Nada de peregrinos e fiéis nas missas e na Praça de São Pedro. No domingo, papa Francisco deixou o auto confinamento. Ao contrário de Bolsonaro, respeitou as determinações da OMS. Rezou diante de um ícone de Nossa Senhora e depois foi a Igreja de São Marcelo, onde está exposto o crucifixo que protegia a cidade da peste bubônica. Um gesto simbólico de que a Igreja não fecha suas portas, apesar de respeitar as normas sanitárias. “Seguimos rezando juntos” (papa Francisco).

As atitudes de Francisco e Bolsonaro são muito significativas, mostram o equilíbrio e o desequilíbrio de governantes diante da luta pela justiça, pelo respeito, igualdade e direito a vida. Nesta pandemia de coronavírus, Francisco, como bom jesuíta, seguiu a orientação do seu fundador, Inácio de Loyola: “na doença, obedeçam aos médicos, enfermeiros, cientistas e autoridades como se obedecessem ao próprio Senhor”.

Nesta Quaresma, que se faça jejum de missa. Se Bolsonaro gostasse de ler, A Peste seria uma ótima opção para ocupar seu tempo de confinamento. “A única maneira de lutar contra a peste é a honestidade. O que é a honestidade? Em meu caso, sei que consiste em fazer meu trabalho” (Albert Camus). O Estado é de calamidade pública e de desgoverno. Talvez a pandemia recoloque as coisas em seu lugar. Ou tirar. O país não suportará essa peste por mais tempo. “Revolto-me, logo existo” (Camus). *Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

 

 

Dom Total///

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