AO VIVO - Clique aqui para tocar a Rádio Tertúlia Web

Minha primeira providência foi reimplantar a antiga Escola Normal em todas as regiões do Estado.

 

Acontece que eu resolvi subverter completamente a ordem das coisas e tomei medidas incompatíveis com o momento que nos foi imposto (Feliphe Schiarolli / Unsplash)

 

 

Foi com enorme surpresa – e mesmo estupefação – que me vi nomeado ministro da Educação. Nunca imaginei chegar a um posto tão importante da vida pública, eu que sempre vivi uma pacata e anônima vida privada. De toda forma, encarei com denodo e intrepidez a missão que me foi conferida pelo senhor presidente. Durei exatos três meses e dois dias como ministro, e conto como e porque fui demitido, o que enfim não me causou nenhuma surpresa ou estupefação. Acontece que eu resolvi subverter completamente a ordem das coisas e tomei medidas incompatíveis com o momento que nos foi imposto. A falta de Educação impera e não é permitido que seja revogada ou mesmo alterada. Não falo da educação como cortesia e bons modos, gentileza, amabilidade, essas coisas. Falo da Educação mesmo, maiúscula, aquela que se aprende na escola, nas carteiras, nas lições, nos livros e nos cadernos. A primeira coisa que fiz como ministro foi baixar uma portaria reimplantando a antiga Escola Normal. As pessoas do gabinete da ira e da ignorância me taxaram de comunista quando resolvi adotar essa medida.

Comunista, eu? Meu Deus, perdoai-os, exclamei aos céus, porque não sabem o que dizem. Explico minha ideia didática com uma volta ao passado. Lembrei com saudade minha infância na comuna de São José do Jacuri, então distrito do município de Peçanha, cidade quase histórica onde havia uma Escola Normal famosa em toda a região pela alta qualidade do ensino que ali se ministrava. Escola Normal era um estágio da vida estudantil correspondente ao nível do Ensino Médio, o segundo grau de hoje. Ou seja, uma normalista (sim, eram mulheres na quase totalidade) não precisava de curso superior para se tornar professora do ensino primário, hoje chamado fundamental. Acontece que ela aprendia a ser uma mestra no sentido mais amplo da palavra.

Ao se formarem no Curso Normal, estavam aptas a alfabetizar crianças a partir dos seis ou sete anos de idade, o que faziam com dedicação e competência. Para decidir pela implantação das Escolas Normais eu me baseei na minha própria experiência. Minhas duas irmãs tornaram-se professoras em Peçanha, a 48 quilômetros do Jacuri. Uma delas, que era também minha madrinha de batismo, foi quem me ensinou a ler, escrever e fazer contas. Era a mestra Maria, querida de todos e minha professora do primeiro ao quarto ano primário na chamada Escolas Reunidas de São José do Jacuri, denominação que jamais pude entender.

Como Reunidas, se era a única escola do distrito? Mas eu fui ainda mais ousado nos meus poucos meses como ministro. Resolvi facilitar aos estados um aumento geral na remuneração das professoras do Ensino Fundamental. Lembrei-me do tempo em que elas, muito ao contrário de hoje, ganhavam bem. Tão bem que provocavam até uma espécie de golpe do baú por parte dos rapazes casadouros do lugar. Queriam casar com professora na esperança de que nem precisassem trabalhar quando maridos. E era a pura verdade: o salário que elas recebiam como servidoras do estado era mais do que suficiente para garantir uma vida confortável, de mesa farta e de criação dos filhos sem carências ou apertos. Não deu certo minha ideia, evidentemente. Além de comunista, fui chamado de retrógrado.

Como pode um ministro querer voltar assim ao tempo das cavernas pedagógicas? Era o que sopravam na orelha do presidente os integrantes do tal gabinete e um guru estrangeirado que idolatravam. Além do mais, Educação não parecia ser prioridade do governo, muito antes pelo contrário. Devo dizer que minha tese foi aprovada por grande número de prefeitos e políticos remanescentes da geração de bons homens públicos. Pedagogos também se debruçaram sobre a ideia de reimplantar as escolas normais, e alguns chegaram a escrever artigos elogiando a iniciativa. Mas não deu. O presidente, escravo do gabinete e da própria ignorância, resolveu que eu era mesmo um subversivo esquerdófilo. Então, fui defenestrado. Não ganhei abraço (também não queria) e nem mesmo uma mísera diretoria no Banco Mundial. E o Brasil, coitado, continuará como está, com um belo passado, um presente inglório e um futuro que é melhor nem pensar no que será.

 

 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

 

 

Dom Total///

0 comentários | Escrever comentário