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A ONU prevê que a Covid-19 pode acrescentar entre 83 e 132 milhões de pessoas ao número total de indivíduos subnutridos apenas este ano, em consequência dos impactos sociais e econômicos do novo coronavírus.

 

Quase um em cada 10 habitantes do planeta sobrevive em insegurança alimentar (Steve Knutson on Unsplash)

 

Por Frei Betto

 

Relatório da ONU, divulgado no dia 13 de julho, frisa que em 2019 mais 10 milhões de pessoas no mundo ingressaram no inferno da fome, que hoje abriga 690 milhões, 8,9% da população mundial. E a este número podem ser acrescidas mais 270 milhões até o final do ano. Em cinco anos, o aumento é de quase 60 milhões. A desnutrição aumentou pelo quarto ano seguido em todo o mundo. Quase um em cada 10 habitantes do planeta sobrevive em insegurança alimentar. A ONU prevê que a Covid-19 pode acrescentar entre 83 e 132 milhões de pessoas ao número total de indivíduos subnutridos apenas este ano, em consequência dos impactos sociais e econômicos do novo coronavírus. Segundo a Oxfam, 12 mil pessoas podem morrer de fome a cada dia até o final de 2020. Dois bilhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar, ou seja, não têm acesso regular a alimentos nutritivos em qualidade e quantidade suficientes. Cerca de três bilhões não têm meios para manter uma dieta considerada equilibrada, com ingestão suficiente de frutas e legumes. Em média, uma dieta saudável custa cinco vezes mais do que uma dieta que só atende às necessidades de energia com alimentos ricos em amido. Assim, a obesidade está aumentando, tanto em adultos quanto em crianças. Importante destaque do relatório deste ano é sobre a qualidade de comida ingerida. Atualmente, uma dieta saudável, variada e com os nutrientes necessários, é inalcançável para 38% da população mundial, aproximadamente três bilhões de habitantes. Cerca de 104,2 milhões dessas pessoas vivem na América Latina e Caribe. As crianças são as mais afetadas pela ausência de alimentação e oferta em má qualidade. Em 2019, 144 milhões de crianças abaixo de cinco anos foram atingidas pelo crescimento atrofiado, enquanto outras 38,3 milhões estavam com excesso de peso. O aumento da fome e da insegurança alimentar este ano se deve à desaceleração da economia global, em razão da pandemia, agravada pelas restrições impostas à circulação de mercadorias e pessoas, o que ampliou o índice de desemprego. Políticas de proteção social deveriam ter sido adotadas com mais eficácia pelos governos. No Brasil, por exemplo, apenas 47,9% do montante destinado ao auxílio emergencial foram distribuídos até o início de julho. As principais vítimas dessa conjuntura são mulheres e crianças. No Brasil, os trabalhadores informais representam 40% da população economicamente ativa. E as mulheres são maioria; recebem menos salários que os homens pelos mesmos trabalhos, e assumem o peso maior do cuidado dos filhos e da casa. Uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é erradicar a fome no mundo até 2030. De olho nas tendências atuais, a perspectiva para alcançar a Fome Zero é negativa. Se as tendências se mantiverem, o número de pessoas afetadas pela fome ultrapassaria 840 milhões até 2030. O único dado positivo é não ter havido tanto atraso no crescimento físico (altura) de crianças de cinco anos. Houve queda de 1/3 entre 2000 e 2019. Mais de 90% delas vivem na Ásia ou na África. Na América Latina e Caribe, mais de 47 milhões foram atingidas pela fome em 2019. É nessa região que a insegurança alimentar mais aumenta. Cresceu de 22,9%, em 2014, para 31,7% em 2019. O relatório foi organizado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Programa Mundial de Alimentos e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

 

Frei Beto - escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "A Obra do Artista – uma visão holística do Universo", "Um homem chamado Jesus", "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul", entre outros.

 

 

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