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Em nova encíclica, a denúncia que poucos têm a coragem de fazer: o mercado não é deus.

 

 

Como seus predecessores, Francisco propõe uma 'terceira via' para acabar com problemas sociais e econômicos (Remo Casilli/AFP) Mirticeli Medeiros* A Fratelli Tutti, terceira encíclica do papa Francisco, que foi publicada no último domingo (4), no Vaticano, não caiu nas graças de todos. O documento entrou para o "Índice dos Livros Proibidos" de quem não se esforçou para interpretá-lo à luz da tradição católica. E já era de se esperar.

É nessas horas que vemos o quanto certas militâncias católicas se tornam bastante seletivas quando o discurso pontifício pende para as questões sociais. E não só em relação aos escritos de Francisco. Basta fazer uma busca para constatar que muitos "youtubers católicos", considerados os "guardiões do depósito da fé" por seus correligionários, sequer tocam na temática. É como se a mensagem do catolicismo se restringisse à liturgia, à sexualidade ou ao aborto. A preocupação com gente passando fome, segundo eles, "é coisa de comunista". O papado contemporâneo não só incomodava aos comunistas leninistas e stalinistas do século passado, mas também aos capitalistas messiânicos de várias épocas. Francisco, seguindo seus predecessores, dá um golpe no estômago daqueles que acreditam na onipotência da economia de mercado.

Para alguns, o modelo é perfeito e incontestável. Ora, se a idolatria é, segundo os parâmetros religiosos, uma atitude que rouba da divindade a exclusividade da veneração que lhe é devida, vemos que muitos religiosos, contrariando a própria fé, a tem praticado com sucesso na política. Deus se tornou um mero lema de campanha. Retrocesso. Voltamos à ideia de que devemos assumir uma "religião política" para viver, dotada de cultos e símbolos próprios, como na época dos totalitarismos. É por isso que, com muita perspicácia, Francisco usa justamente a terminologia religiosa para fazer sua denúncia. Chama de "dogma de fé neoliberal" a lógica do lucro pelo lucro. Em seus documentos, a Igreja Católica afirma lutar por uma ordem social mais justa.

Porém, de acordo com a sua visão, esse tipo de pretensão não está atrelada à escolha de nenhum sistema econômico ou doutrina política específicos. Inclusive, reitera que cada país, a partir de sua própria realidade, deve avaliar qual direcionamento tomar em vista do bem comum. João Paulo II, no documento Centesimus Annus, publicado em 1991, quando a União Soviética agonizava à espera de seu colapso definitivo, que viria a acontecer meses após a publicação desta encíclica, é categórico ao dizer que "a Igreja não tem modelos a propor". E completa: "Os modelos reais e eficazes poderão nascer apenas no quadro das diversas situações históricas, graças ao esforço dos responsáveis que enfrentam os problemas concretos em todos os seus aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais que se entrelaçam mutuamente", ressaltou. Papa Francisco não apresenta nada de novo na Fratelli Tutti, mas amplia algumas reflexões. No capítulo 5, associa o neoliberalismo aos populismos do presente.

Elenca os males causados pela radicalização dos princípios dessa doutrina econômica. Combate a divinização do mercado. Também pede atenção às parcelas da sociedade que, por não serem "monetizadas", acabam sendo esquecidas. Sai em defesa de todos aqueles que foram atingidos pela "cultura do descartável", fruto de um sistema que coloca as finanças acima do desenvolvimento humano integral. O Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1997, que reúne os principais ensinamentos do catolicismo, sintetiza a visão do catolicismo sobre o tema: "A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao 'comunismo' ou ao 'socialismo'. Por outro lado, recusou, na prática do 'capitalismo', o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano.

Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado". É certo que, no pontificado de Francisco, há elementos de mudança que rompem com as "lógicas de corte", as quais, por muito tempo, descaracterizaram o papel da cúria romana e do papado. Porém, em relação ao magistério (ensinamento) do pontífice atual, forçam uma hermenêutica da ruptura. No entanto, o papa argentino não foge ao parecer da Igreja. A diferença é que algumas pessoas acabam se afastando desses "conceitos incômodos", motivadas pelas próprias paixões partidárias. E terminam por interditar um pontífice que faz questão de relembrá-los.

 

 

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