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No final do ano, governo já sabia do impacto negativo do fim do auxílio emergencial.

 

Foto: PMC/Fotos Publicas

 

 

Flavio Fligenspan (*)

 

Para quem acompanha a conjuntura econômica, os números mais recentes do IBGE e do Banco Central que cobrem o final de 2020 – ainda que não tenhamos o PIB fechado do ano – mostram um arrefecimento do esboço de recuperação que se observava no segundo semestre do ano. O último bimestre foi um balde de água fria nas projeções otimistas do Governo e saiu de cena, definitivamente, o debate sobre a recuperação em “V”. Não houve e não há este formato nos gráficos, a não ser que tentemos enxergá-los com um amplo grau de liberdade. Na melhor das hipóteses, o que conseguiremos ver no futuro é “W”, com a ponta da direita bem aberta, tanto mais aberta quanto mais demorar a vacinação e, em consequência, a esperada retomada da atividade. Como se sabe, no que depende do Governo, em especial de um plano organizado e ágil de vacinação, a perna da direita vai ser bem aberta. É fácil de explicar os resultados ruins do fim do ano. As duas principais forças a conduzir os resultados foram a segunda onda da pandemia e a proximidade da retirada dos auxílios em geral, a empresas e a famílias.

Destaque-se a expectativa das famílias quanto à retirada do Auxílio Emergencial num contexto ainda de crise sanitária e elevado desemprego. Aqueles que, por ventura, conseguiram poupar algum recurso durante 2020 preferiram restringir seus gastos ao mínimo no final do ano, tendo em vista que o futuro imediato seria muito difícil. O consumo, que foi uma das forças da economia em 2020, caiu rapidamente e deixou clara a urgência da renovação do Auxílio. Não precisávamos chegar à beira de março para entender a necessidade de estender o Programa. Atualmente, há inúmeras fontes de informação do dia a dia da atividade econômica e não dependemos mais, como no passado, dos números mais trabalhados e precisos do IBGE. Estes, quando saem – com alguma defasagem –, nos oferecem uma visão mais exata da realidade, mas as indicações preliminares e confiáveis chegam à frente e já permitem que se enxergue o que está acontecendo.

Várias instituições, muitas do setor financeiro, já sabiam dos resultados ruins do final do ano e já podiam avaliar o efeito negativo do final do Auxílio. O Governo, através de diversas manifestações do Ministério da Economia, preferiu passar à sociedade a versão de que acreditava numa retomada vigorosa, na recuperação em “V”que traria de volta muitas vagas de emprego, aumento da produção industrial e das vendas do comércio. Até mesmo os Serviços voltariam a operar com o controle da pandemia – sabe-se lá como –, ajudando a criar vagas de ocupação formal e informal. Portanto, não haveria necessidade de estender o Auxílio em 2021 e logo poderíamos começar um processo de recuperação das contas públicas. Mas isto não era verdade e o Governo sabia. Então, qual o sentido de esperar até agora para retomar o Programa, deixando o desespero chegar com força às famílias mais desamparadas? Era um teste para verificar a sustentabilidade da popularidade do Presidente? Ou um teste de resistência destas famílias, para ver se era efetivamente necessário gastar bilhões de reais com a renovação do apoio?

Pois bem, a resposta está dada e é nítida. A popularidade caiu rapidamente e os índices de pobreza e desigualdade que melhoraram celeremente durante a vigência do Programa logo começaram a recuar. O Governo teve que se apressar para repensar o Programa e negociar seus novos parâmetros com os recém eleitos Presidentes da Câmara e do Senado. Para diminuir o risco de ser atropelado pelo Congresso com o valor do benefício e o número de parcelas, tal como em 2020, tenta impor uma negociação de contrapartidas de redução de outras despesas, uma espécie de trava ao que classifica como um potencial de irresponsabilidade do Legislativo. Só que no meio do caminho tinha uma Petrobras e um Presidente populista, que em poucas palavras promete intervir na formação do preço dos derivados de petróleo, reduzindo impostos federais numa conta que chega a R$ 3 bilhões em apenas dois meses.

Para não falar em outras consequências negativas de uma intervenção deste tipo, de curto e de médio prazo, como uma queda expressiva de valor da empresa na Bolsa. Difícil justificar uma negociação dura com o Congresso sobre um Programa que mexe com a vida de milhões de famílias pobres enquanto uma fala descontrolada causa tamanho prejuízo.

 

 

(*) Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

SUL21///

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