Aparecida é Mãe que acolhe a todos: pobres, ricos e até mesmo os que não sabem rezar e só se achegam a ela para mostrar o olhar.

 

Por Felipe Magalhães Francisco*

A história da “aparição” da Virgem tão querida por muitos brasileiros e brasileiras é uma história singular. Não há nenhuma epifania, nem mensagens reveladas e ditadas. Uma imagem: um corpo e uma cabeça, separados, mergulhado no rio à espera de um encontro. O traço de transcendência que acompanha o encontro da imagem partida é o barco carregado de peixes, no reafirmar da esperança, dada a companhia da Mãe Aparecida. Como o Filho Jesus, tem predileção pelos últimos da história: os pescadores, os negros escravizados, homens e mulheres empobrecidos.

Nesses 300 anos de encontro com a Aparecida, ela tem sido a companhia dos empobrecidos e empobrecidas de todos os cantos de nosso país. Mas é Mãe que acolhe a todos: pobres, ricos e até mesmo os que não sabem rezar e só se achegam a ela para mostrar o olhar, tal como se canta em nosso cancioneiro. Faz jus à fé que professou em Nazaré, abrindo-se ao Senhor, que também é ao lado dos pobres. Ela, própria, agraciada pelo amor de Deus, faz-se Mãe daquele que, no anúncio do Reino, revela a festa da vida àqueles que nunca a ela tinham acesso. É contada dentre a família de Jesus, porque verdadeiramente escutou e viveu a Palavra de seu Filho (cf. Lc 8,21).

O primeiro artigo de nossa matéria especial, Aparecida 300 anos: história e atualidade, do Dr. Ir. Afonso Murad, traz uma leitura teológica e espiritual do encontro da imagem da Senhora da Conceição, chamada Aparecida. No texto, o autor revela a riqueza ainda sendo descoberta nesses trezentos anos de história da “aparição”. Os muitos encontros com a Mãe Aparecida no hoje da história de nosso país, continuam a significar bênçãos na vida dos fiéis, sobretudo dos empobrecidos e empobrecidas. Na atual conjuntura político-social que temos enfrentado, a companhia da Negra Aparecida acalenta nossa luta e nosso sonho por uma vida mais justa.

Em seguida, o Dr. Frei Jonas Nogueira, no artigo Piedade Mariana: caminhos e descaminhos, propõe uma reflexão a respeito do valor da piedade popular, tão viva na relação dos fiéis com a Senhora Aparecida. No artigo, o autor aponta para os riscos dos desvios da piedade popular, bem como mostra sua capacidade de revelar a genuína expressão de fé das pessoas. Contextualizando, teologicamente, a devoção mariana, o autor chama a atenção para o cuidado pastoral a ser dispensado às expressões de piedade popular, para que, cada vez mais, apontem para o mistério da fé: a pessoa de Jesus Cristo.

No terceiro e último artigo de nossa matéria, temos o texto Maria, imagem da Igreja, de autoria do Ms. Fábio Cristiano Rabelo. No artigo, o autor reflete sobre a antiga compreensão a respeito da semelhança teológica entre a Mãe do Senhor e a Igreja. Olhando com atenção para aquilo que os evangelhos nos revelam sobre Maria, a Igreja tende a viver de maneira mais profunda sua missão, sempre atenta e aberta a Palavra de Deus. 

Boa leitura!

Por Ir. Afonso Murad*

Aparecida tem uma história de 300 anos, cujo sentido estamos redescobrindo. O Papa Francisco, em carta aos bispos da América Latina, diz que Aparecida é uma escola para aprender a seguir Jesus. E ele destaca três características.

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(1) Os pescadores: são pessoas para encaram o dia a dia, enfrentando a incerteza do rio. Acostumados a enfrentar os desafios da vida com teimosia, não deixam de lançar as redes. Esta imagem nos aproxima do centro da vida de tantos irmãos nossos. Pessoas que, desde cedo até a noite, saem para ganhar a vida, sem saber qual será o resultado. O que mais dói é ver que enfrentam a dureza gerada por um dos pecados mais graves do nosso Continente: a corrupção. Essa corrupção que arrasa com vidas, mergulhando-as na mais extrema pobreza. Corrupção que destrói populações inteiras, submetendo-as à precariedade. Como um câncer, vai corroendo a vida cotidiana de nosso povo. E aí estão tantos irmãos nossos que, de maneira admirável, saem para lutar contra este flagelo.

(2) A Mãe. Maria conhece bem a vida de seus filhos.  Está atenta e acompanha a vida deles. Maria “vai onde não é esperada. No relato de Aparecida, nós a encontramos no meio do rio, cercada de lama. Aí, espera seus filhos, está no meio de suas lutas e buscas. Não tem medo de mergulhar com eles nas situações difíceis da história e, se necessário, sujar-se para renovar a esperança”. Maria aparece onde os pescadores lançam as redes, ali onde as pessoas tentam ganhar a vida. Como mãe, está junto delas.

(3) O encontro. As redes se encheram de uma presença que deu aos pescadores a certeza que eles não estavam sós em sua labuta. Era o encontro desses homens com Maria. Depois de limpar e restaurar a imagem, levaram-na a uma casa onde ela permaneceu um bom tempo. Nesse lar os pescadores da região iam ao encontro de Aparecida. “E essa presença se fez comunidade, Igreja. As redes não se encheram de peixes, se transformaram em comunidade”.

Em Aparecida, encontramos um povo forte e persistente. Consciente de que suas redes, sua vida, está cheia da presença de  Maria, que o anima a não perder a esperança. Uma presença que se esconde no cotidiano, nesses silenciosos espaços nos quais o Espírito Santo continua sustentando nosso Continente. Tudo isto nos apresenta sua mensagem, que devemos acolher.

Para terminar, Francisco nos diz: “viemos como filhos e como discípulos para escutar e aprender o que hoje, 300 anos depois, este acontecimento continua nos dizendo. Aparecida não nos traz receitas, mas chaves, critérios, pequenas grandes certezas para iluminar”. E sobretudo, acender o desejo de voltar ao essencial da nossa fé.

Aparecida: inculturação e missão

O Padre Paulo Suess escreveu um artigo sobre Aparecida, publicado na revista “Convergência”.   Ele nos relembra que, após a permanência de alguns anos no leito do rio, como numa pia batismal emergiram na rede dos pescadores dois pedaços de barro de uma imagem da Imaculada Conceição. Estava sem a roupa, escurecida e envolvida na lama. Mas era realmente “nossa” Senhora por respeito. Azul seria apenas seu manto, posteriormente confeccionado para cobrir seu corpo e negritude. Depois do batismo no rio Paraíba e uma longa permanência na casa dos pobres, a imagem foi enfeitada com adornos, cordões de ouro e homenagens que têm valor simbólico. Não foram encomendados pela visitada, mas agradam os visitantes. Pois o povo sempre dá o melhor para seus hóspedes.

No rio Paraíba não aconteceu propriamente uma aparição milagrosa de Nossa Senhora. A Aparecida é uma santa silenciosa. Apareceu no silêncio das águas e atuou no silêncio das casas, sem dizer uma só palavra, sem fazer promessas nem profecia, sem dar ordens ou indicar um lugar para construir um templo. Até hoje, ela não propõe encontros com data e hora marcadas, nem envia mensagens por uma vidente. A Aparecida consiste em um simples e maravilhoso “encontro” de dois pedaços de uma imagem, logo identificada como da Imaculada Conceição.

Apesar do silêncio e de milagres discretos, a devoção a Aparecida cresceu e se espalhou pela região. Para receber cada vez mais peregrinos, foi necessário construir espaços maiores, simbólicos e reais.

Cidinha e Rainha, com humildade e majestade, Nossa Senhora Aparecida, pode puxar a cada um(a) para cima e para fora de sua miséria. Pode garantir o essencial a cada dia e, na falta desse essencial, transmitir o sentimento de não abandonar os devotos dos quais é Mãe.

Aparecida aponta para uma devoção mariana enraizada na encarnação da Palavra de Deus em nosso mundo e em nossas realidades. A proximidade entre Maria e a Missão significa encarnação, tratar a vida cotidiana como ela é. Falar do trabalho e de uma pesca que no começo não deu certo, tocar no barro e cantar a glória de Deus numa vida de simplicidade. A Nossa Senhora (silenciosamente) Aparecida é três em uma: Nossa Senhora da Encarnação/Inculturação, Nossa Senhora do Encontro e Nossa Senhora da Missão.

300 Anos de Bênçãos e esperanças

Na Bíblia, “bênção”, “abençoar” e “bendizer” estão por toda a parte. No relato de Gênesis 1, o Criador abençoa as aves, os peixes, o homem e a mulher. E Deus promete a Abraão: em Ti serão abençoados todos os povos da Terra (Gn 12,3). Quem espalha a bênção, torna-se “bendito” e bendiz o Senhor. “Que eu bendiga ao Senhor e não me esqueça de nenhum de seus benefícios” (Sl 103,2).

Os 300 anos de Aparecida testemunham muitas bênçãos. A devoção começa simples, como uma nascente. Os primeiros frutos são a fartura dos peixes, que alimentam também a todos. Cria-se uma pequena comunidade em torno da imagem. O escravo fugido é libertado de suas correntes. No correr dos anos, os devotos recebem muitas graças: curas de doenças graves, salvação em acidentes, superação de problemas na família, conversão a Deus, conseguir uma profissão, encontrar o amor de sua vida.

A peregrinação em grupo até o santuário é uma bênção. As comunidades se organizam. Durante a viagem, os romeiros compartilham o alimento, conversam, rezam, brincam. Fortalecem os seus laços. Os que vêm a pé experimentam a liberdade interior, a dureza do caminho, o desapego, a busca do essencial.

Os 300 anos de Aparecida coincidem com um momento difícil da nossa história. A bênção ainda não penetrou na sociedade como um todo, especialmente na política e na economia. A CNBB denunciou esta situação. Os poderes em Brasília praticam o roubo e a iniquidade abertamente, defendendo seus próprios interesses. O governo, com o apoio dos deputados e senadores, diminui as oportunidades aos mais pobres e favorece a elites. Retira direitos sociais. Faz leis injustas. Membros do judiciário condenam e prendem sem provas. E mandam soltar pessoas corruptas que se enriqueceram com o dinheiro do povo. A ecologia, os direitos dos povos indígenas e dos quilombolas estão ameaçados. Nossa Senhora Aparecida está muito triste com tudo isso. Como a Rainha Ester, o que ela mais deseja é a vida do seu povo (Est 7,3).

Que este ano mariano tenha despertado a consciência social  e o compromisso de muitos cristãos. Que a bênção de Aparecida se transforme em vida plena para todos os brasileiros(as), a começar dos mais pobres, como aconteceu há 300 anos, nas margens do rio Paraíba.

*Ir. Afonso Murad é marista. Doutor em Teologia e professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.

 

Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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