por Dimalice Nunes — publicado 06/12/2017 18h42/Carta Capital
Embora a taxa Selic tenha alcançado o menor nível desde 1986, juros reais seguem acima dos 4%. Com Selic a 14,25%, eles chegaram a 3,2%. Entenda:

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu mais uma vez, agora para 7% ao ano, a taxa básica de juros da economia. Nominalmente, trata-se da menor Selic desde 1986, ou uma queda de 7,25 pontos porcentuais desde outubro de 2016, quando o BC iniciou a trajetória de queda da taxa.

Comemorado pelo governo Temer, o corte é usado para avalizar uma política econômica que, na visão de sua equipe, poderia estimular o investimento e a recuperação da economia. Quando pensamos em juros reais, porém, o corte é bem menos expressivo.

Juros reais são aqueles que descontam a inflação do preço do dinheiro e, por isso, são uma medida muito mais fiel para entender o peso dos juros nas operações de crédito. Vale para o crédito contratado para uma empresa investir, vale para o cheque especial, ou para qualquer outro tipo de contratação feita nas instituições financeiras.

A inflação medida pelo IPCA nos últimos 12 meses até outubro, dado mais recente disponível, atingiu 2,7%. Com a atual Selic, a taxa real é de 4,19%. Em outubro, com a mesma inflação e a taxa ainda sem o último corte, os juros reais estavam em 4,67%. Em outubro de 2016, com a Selic ainda em 14,25%, a inflação estava em 7,87% em 12 meses. Com isso, os juros reais eram de 5,91% ao ano. Taxa básica alta, então, não significa, necessariamente, juros reais elevados na mesma proporção. Tudo depende da inflação.

Desde janeiro, o índice acumula 2,21%, abaixo dos 5,78% do mesmo período do ano passado e o menor para o período desde 1998. São justamente esses patamares historicamente baixos para a inflação que impulsionaram os sucessivos cortes das Selic. De outubro de 2012 a abril de 2013, a taxa foi mantida em 7,25% ao ano, no menor nível da história, e passou a ser reajustada gradualmente até alcançar 14,25% ao ano em julho de 2015.

Ao contrário do que ocorre hoje, o aumento foi um ajuste visto como necessário pela equipe econômica do então governo Dilma Rousseff para conter a inflação, que atingiu seu pico em janeiro de 2016, com 10,71% nos 12 meses anteriores. Naquele momento, em que se teve auge da inflação e dos juros, a taxa real foi de 3,2%, abaixo da verificada agora. Em abril de 2016, último mês do governo Dilma, os juros reais estavam em 4,55%, me próximo do atual. 

Como avalia Emilio Chernavsky, doutor em economia pela USP, em recente artigo para o BrasilDebate, não faz sentido comemorar uma taxa real superior a 4% quando as taxas internacionais são muito menores, quando não negativas. Na prática, embora comemorada pelo atual governo, a redução da Selic não se reverte em taxas mais palatáveis no mundo real, ou seja, nos bancos. 

Assim como a taxa que desconta o peso da inflação, os juros praticados pela economia caíram, mas de forma bem mais modesta do que a Selic. De acordo com os dados da Nota de Política Monetária à imprensa e Operações de Crédito, divulgada no último dia 24 pelo Banco Central, o juros cobrados no cheque especial, por exemplo, estavam em 323,7% ao ano em outubro e sofreram uma queda irrisória em um ano: eram 328,5% ao ano em outubro de 2016. No cartão de crédito, 337,9%.

Na média, os juros cobrados das pessoas físicas caíram 8,9 pontos porcentuais em um ano até outubro, mas ainda estão em 34,2% ano ano. Para as empresas, a taxa média é menor, 18%, mas a queda também foi mais tímida: 3,6 pontos porcentuais em 12 meses até outubro.

 

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