Grupo de trabalho busca equacionar a mortalidade de abelhas em razão do uso indiscriminado dos venenos agrícolas / Fernando Dias / Seapi

 

GERALDO HASSE

Formado há um mês no âmbito da Câmara Setorial de Abelhas, Produtos e Serviços da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, o grupo de trabalho sobre o impacto dos agrotóxicos na apicultura faz nesta quarta-feira, 10, sua primeira reunião. O grupo, que tem por meta equacionar o principal problema da apicultura – a mortalidade das abelhas provocada pelo uso indiscriminado dos venenos agrícolas -, é composto por técnicos da Secretaria da Agricultura, da Federação dos Apicultores (FARGS), da Emater, da Farsul e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA).

Anselmo Kuhn, presidente da FARGS / Tânia Meinerz

“O mau uso dos agrotóxicos colocou a apicultura numa encruzilhada”, afirmou o presidente da FARGS, Anselmo Kuhn, na reunião da Câmara Setorial das Abelhas, realizada em dezembro. Consciente de que a maioria dos apicultores trabalha dentro do espírito do extrativismo, com baixo grau de associativismo, Kuhn reconhece que, embora tenha criado recentemente o Sistema Integrado do Gestão de Agrotóxicos (SIGA), o Estado carece de informações sobre o uso de venenos na agricultura. Os casos registrados configuram a ponta de um iceberg ainda não dimensionado.

Segundo um levantamento apresentado em dezembro por Nadilson Ferreira, coordenador da Câmara Setorial, apenas no início do ano agrícola 2017/2018 (em andamento) a apicultura gaúcha havia perdido 1489 colmeias em seis municípios onde foram registradas ocorrências envolvendo o uso irresponsável de venenos em lavouras de soja. Os locais mais afetados foram São Gabriel (657 colmeias) e São Francisco de Assis (418 colmeias). Estima-se que cada colmeia perdida represente um prejuízo de R$ 800 aos apicultores, que somente agora começam a reclamar, pois boa parte deles opera na informalidade, com um atávico receio da fiscalização sanitária e tributária.

Além de cadastrar os apicultores, a Secretaria da Agricultura está em campanha para que, em caso de “acidentes” com suas colmeias, os produtores de mel prestem queixa em inspetorias regionais de veterinária, cujos técnicos, por sua vez, estão sendo orientados a enviar amostras (de mel e de abelhas mortas) a laboratórios de análises biológicas e bioquímicas – no Estado há três aptos a fazer os exames: em Porto Alegre (UFRGS), Santa Maria (UFSM) e Lajeado (Univates). Com isso, pretende-se fechar paulatinamente o circuito de controle do mau uso de agrotóxicos.

No âmbito federal, apenas há pouco o Ministério da Agricultura criou o Programa Nacional de Sanidade Apícola, que abre perspectivas para que os apicultores consigam financiamentos do sistema de crédito agrícola. Enquanto isso, o Sindicato Nacional de Indústria de Defesa Vegetal (Sindiveg) criou um projeto chamado Colmeia Viva, que se propõe a ajudar os apicultores a se defenderem das aplicações irresponsáveis de venenos em lavouras.

A agrônoma responsável pelo projeto, Paula Arigoni, foi bem recebida na reunião de dezembro da Câmara Setorial das Abelhas, mas a maioria dos apicultores presentes ficou na defensiva, pois acredita que os fabricantes de agrotóxicos estão chegando ao problema com um atraso de dez anos.

Paula Arigoni, coordenadora do projeto Colmeia Viva / Divulgação

Foi em 2007 que surgiram nos EUA e na Europa as primeiras denúncias e suspeitas de que a onda de mortandade das abelhas tinha como principal causa a má aplicação de agroquímicos. Em anos recentes, concluiu-se que, além dos venenos agrícolas, há outras causas – doenças dos insetos, por exemplo — para o problema, presente em todos os países em que a apicultura vem sendo acuada pelo avanço da agricultura ultramecanizada.

Preocupada com a judicialização dos “acidentes”, a indústria agroquímica quer que os comerciantes de venenos assumam sua responsabilidade, junto com os agricultores e os prestadores de serviços – entre os quais se destacam as empresas de aviação agrícola, que costumam operar em regime de urgência, sem dar tempo para que os apicultores retirem suas colmeias dos arredores das lavouras pulverizadas. Em alguns locais, na região da campanha,  está se desenvolvendo um diálogo produtivo entre apicultores e agricultores.

Em agosto passado, Ademir Hattinger, presidente da Associação dos Apicultores de Santiago, cujos 43 sócios mantêm cerca de 20 000 colmeias itinerantes num raio de 100 quilômetros da cidade, passou um fim de semana trabalhando para remover cerca de 500 colmeias de uma área de soja que seria alvo de pulverização. “Ainda bem que fomos avisados com antecedência”, lembra Hattinger, que acabou ficando sem tempo para comparecer ao congresso estadual de apicultura que se realizava, naqueles dias, em São Gabriel.

Nesse evento, com mais de 300 apicultores presentes, surgiram relatos de que, na Argentina, há casos exemplares de “aproximação” e entendimento entre apicultores e sojicultores, enfim conscientes de que as abelhas fazem parte de um complexo sistema interdependente de produção. Sem as abelhas e outros insetos, a polinização dos vegetais fica radicalmente prejudicada, comprometendo não apenas a produção de alimentos mas a própria sustentabilidade dos biomas.

Por tudo isso, junto com a consciência de que os agrotóxicos são os principais responsáveis pela morte das abelhas, cresce a vigilância sobre a aplicação predatória de venenos nas lavouras. Em 2016, 80% dos processos abertos no conselho de ética do CREA-RS estavam relacionados a irregularidades nas receitas emitidas por agrônomos – alguns são citados jocosamente como PhD, em que a sigla Philosophical Doctor foi trocada por “Profissional habilitado em Defensivos”. Na reunião de dezembro da Câmara Setorial das Abelhas, foi citado o caso do Mertin: indicado oficialmente para as culturas de algodão e feijão, esse “defensivo” foi receitado para matar caramujos nas lavouras de arroz irrigado do Rio Grande do Sul.

Por fatos como esses, estão na mira da Promotoria de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público as 1500 revendas de agrotóxicos existentes no Estado. O problema é que, para controlar a venda de venenos, o eventual contrabando de insumos e as práticas nefastas de profissionais avulsos da agricultura, o MP depende da colaboração de órgãos de governo ou instituições de pesquisa em que atuam poucos abnegados. Os mais citados, por antiguidade, são Aroni Sattler, professor da UFRGS; e Nadilson Ferreira, da Câmara Setorial de Abelhas, Produtos e Serviços, ambos doutores em assuntos apícolas.

Andrés Canhedo, professor da Unipampa: “A gente precisa abrir a boca contra os abusos na aplicação de agrotóxicos” / Tânia Meinerz

Ultimamente vem se sobressaindo o jovem professor Andrés Canhedo, da Unipampa. De origem uruguaia, em eventos do setor ele usa uma camiseta contendo uma sutil adaptação da frase shakespeariana “Bee Or Not To Be”, dúvida que remete à famosa sentença de Einstein, segundo o qual a humanidade não sobreviveria mais do que quatro anos em caso de desaparecimento das abelhas. Canhedo está convencido de que o problema da morte das abelhas provocado por agrotóxicos, roubo de colmeias e outras causas, só será resolvido se os apicultores e demais participantes da cadeia apícola denunciarem todas as ocorrências.

 

(Fonte:Jornal JÁ-POA)

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