Chovia muito e fazia um frio gélido quando cheguei naquela noite em Zahle, na fronteira entre o Líbano e a Síria, a cidade milenar que já fora um dos celeiros do Império Romano. A linda cercada pelas montanhas de Haidi e Bir Gahzour, banhada pelo rio Bardhouni e repleta de grutas descobertas pelos romanos, no coração do Vale do Beqaa, o vale dos vinhedos e de alguns dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo. O Vale onde estãoo templos romanos de Júpiter, de Baco e da deusa Vênus. O Vale de onde partiram, em busca de um sonho, milhares de sírios e libaneses em direção ao Brasil nos séculos XIX e XX.

No dia seguinte , bem cedo, eu me encontraria com Tariq e Samira , um casal de refugiados sírios, com dois filhos pequenos, que ele professor universitário e ela médica, que haviam perdido absolutamente tudo e agora viviam no campo de refugiados de Zahle.
Tariq fazia parte de um coletivo de professores e vinha escrevendo artigos contra Assad em sua pequena cidade. Ele me contara naquele dia que, durante as primeiras manifestações de abril, ainda em 2011, foi para as praças com a esposa e chegou a acreditar que poderia haver uma transição pacífica, preservando tudo o que Assad fizera de positivo para o país, mas com novas eleições, e que não haveria uma guerra.

Sua visão do que aconteceria mudou completamente quando percebeu que um de seus vizinhos, um homem sunita que praticava o whahhabismo e que havia estudado na Arábia Saudita , estava convocando reuniões noturnas em sua casa e parecia estar recebendo caixas imensas vindas do exterior. Tariq não demorou muito para descobrir que as caixas recebidas pelo viziho e ex amigo estavam repletas de armas de fabricação americana.

Ele me contara também que poucos meses depois sua casa foi bombardeada por membros da Frente Al Nusra, o braço da Al Qaeda na Síria, 6 parentes seus foram mortos, sua cidade fora destruída e haviam começado os boatos de que Assad estava usando armas químicas contra a população síria. Um dos amigos de Tariq era um dos maiores engenheiros químicos da Síria, trabalhara durante anos na mesma Universidade, e mesmo fazendo duras críticas a Assad, afirmava categoricamente que a Síria não possuía armas químicas e que essa afirmação era tão fraudulenta quanto as de que Saddam Hussein possuía armas de destruição de massa.

Hoje , mais do que nunca , tenho poucas certezas sobre o futuro da Síria e das crianças qe conheci no campo de refugiados de Zahle. Mas uma das poucas certezas que tenho é de que a Síria jamais possuiu um arsenal químico e de os dois ataques atribuídos a Assad pela comunidade internacional foram cometidos por mãos que espalham apenas a morte, mãoos armadas pelos EUA e Arábia saudita.

No caso do ataque mais recente, na cidade de Duma, as próprias evidências de que tenha havido um ataque são confusas. Depois que foram libertadas do domínio de terroristas do ISIS, parte da cidade de Ghouta Oriental e dos arredores de Duma, foram inspecionadas por um grupo de engenheiros de várias nacionalidades e, segundo o diplomata russo Vasilli Nebenzia, os engenheiros relataram a OPAQ , a Organização para a Proibição de Armas Químicas, que não encontraram sequer rastros de substâncias químicas e não encontraram as provas materiais que os EUA afirmavam ter sobre o ataque. O grupo conversou com médicos do único hospital deixado de pé pelos terroristas que rebatem a versão dada por Trump.

As perguntas para as quaias não encontro respostas são muitas. Por que Assad, no momento final da guerra, depois de obetr uma série de vitórias contra o ISIS e outros grupos terroristas armados pela Coalizão, faria um ataque químico contra seu próprio povo? Por que, num momento em que seria crucial para ele, retomar o diálogo com quem se opunha a ele e reconquistar a confiança de uma parte da população, Assad faria um ataque desumano e dessa dimensão? Nâo seria um imenso erro estratégico?

Como se não bastassem toda a dor que testemunhei na fronteira, como se nãoo bastassem as 450 mil mortes de mulheres, homens e crianças sírias, como se não bastassem os dois milhões de feridos, como se não bastassem os 10 milhões de refugiados, as centenas de escolas destruídas , as cidades dizimadas, as dezenas de hospitais bombardeados e a esperança violentada, o presidente Donald Trump acaba de fazer, via twiter, a maior ameaça à paz mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Depois de cancelar sua viagem a América Latina, onde participaria da Cúpula das Américas, e dizer que estava estudando uma resposta para o país árabe, Trump agora ameaça disparar mísseis contra a Síria, sem nenhum aval do Conselho de Segurança da ONU, enquanto grita, como um garoto de 11 anos jogando contra um rival mais experiente, que a Rússia deve se preparar. "A Rússia promete abater quaisquer mísseis disparados contra a Síria. Prepare-se, Rússia, pois eles estão chegando, bons, novos e 'inteligentes'! Você não deveria se ter aliado ao animal assassino com gás que mata o seu povo....! Trump profere as ameaças mais insanas diante da perplexidade do mundo.

A atitude perigosa de um presidente que age como estivesse em um reality show filmado numa escola de ensino fundamental, deixa o mundo todo e a todos aqueles que amamos, diante da possibilidade inexorável de uma Terceira Guerra Mundial.

Um presidente que sequestra a semântica, a dialética e os vocábulos, usando a palavra PAZ de forma obscena. Como se a PAZ pudesse de fato ser obtida através de bombardeios, mentiras, fraudes, mortes e mais guerras. Um presidente fascistóide e moralmente anão, que, não conseguindo mobilizar mentes e corações para grandes projetos humanos ou grandes transformações, os mobiliza para o mais cruel e perigoso jogo dos medíocres. A guerra.

 

LÚCIA HELENA ISSA

Jornalista, escritora e ativista pela paz. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro "Quando amanhece na Sicília"

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