"Não uma intervenção militar como desejam alguns, mas uma intervenção judicial, na qual prazos e decisões parecem variar de acordo com a orientação política dos envolvidos", analisa o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa; sobre economia, ele diz que, "ironicamente, para seus defensores no mercado, a intervenção judicial em curso no Brasil deveria melhorar o ambiente de negócios, eliminando a esquerda da corrida eleitoral deste ano. Na prática ocorreu o inverso"; leia seu artigo

 

6 DE JULHO DE 2018 ÀS 16:05 // 

 

Artigo do economista e ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa publicado originalmente publicado na Folha de São Paulo e reproduzido no site do ex-presidente Lula


Três meses
Lula está preso preso desde abril e parece que já vivemos sob intervenção no Brasil 

Amanhã o ex-presidente Lula completará três meses de prisão. Já mencionei em outras colunas que a condenação tem bases frágeis, como apontado por vários juristas nacionais e internacionais.

Em um ambiente normal, seria possível que Lula recorresse da sentença em liberdade, como manda a Constituição, mas a análise do tema tem sido adiada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Diante disso, até um ministro de nossa Suprema Corte afirmou recentemente: "Nunca vi manipulação da pauta como esta".

Os dois pesos e as duas medidas usados por alguns membros do nosso Judiciário comprometem a democracia.

Parece que já vivemos sob intervenção no Brasil.

Não uma intervenção militar como desejam alguns, mas uma intervenção judicial, na qual prazos e decisões parecem variar de acordo com a orientação política dos envolvidos.

Mas falemos de economia. Ironicamente, para seus defensores no mercado, a intervenção judicial em curso no Brasil deveria melhorar o ambiente de negócios, eliminando a esquerda da corrida eleitoral deste ano. Na prática ocorreu o inverso.

Os candidatos do governo —Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles— ainda não decolaram e os excessos de nossos órgãos judiciais e de controle aumentaram a insegurança jurídica no país.

Do lado administrativo, a aplicação de novos entendimentos do TCU (Tribunal de Contas da União) com efeito retroativo —usada como base para o afastamento da presidente Dilma Rousseff— simplesmente paralisou a máquina pública.

Nenhum gestor honesto e racional assina nada se o que vale hoje puder ser considerado irregular amanhã.

Do lado econômico, cada vez fica mais claro que os excessos da Operação Lava Jato geraram paralisação excessiva de investimentos e destruição desnecessária de empregos.

Segundo estimativa de consultorias privadas, os efeitos de curto prazo da Lava Jato teriam derrubado o PIB (Produto Interno Bruto) de 2015 em 2,5%.

Com certeza os impactos negativos adentraram 2016 e se fazem sentir até hoje.

Combater a corrupção é dever de qualquer governo e foram os governos do PT que deram mais poder para que nossos órgãos de investigação e controle expandissem suas atividades.

Porém, não é possível ignorar que a Lava Jato teve impactos mais negativos que positivos sobre a economia até agora.

No longo prazo os ganhos da redução da corrupção e aumento da eficiência do governo tendem a suplantar, em muito, as perdas de curto prazo. Mas ainda não chegamos lá.

Para ultrapassar a fase de danos colaterais excessivos é preciso restaurar o bom senso no funcionamento do Judiciário e dos órgãos de controle.

O combate à corrupção deve respeitar os princípios básicos da segurança jurídica (sem inovações com efeitos retroativos) e direitos individuais (todos devem ter tratamento igual, pelo menos no STF).

Teoricamente bastaria cumprir a Constituição para fazer isso, mas depois de anos de guerra judicial, reafirmar o óbvio soa revolucionário.

A recuperação da governabilidade do Brasil, seja quem for eleito em outubro, requer a restauração da confiança na imparcialidade de juízes e procuradores.

Os Poderes Executivo e Legislativo podem até ajudar, com leis e regulamentos, mas a responsabilidade maior está com o próprio Judiciário.

Nesse sentido, desejo sorte e sucesso ao ministro Dias Toffoli, que assumirá a presidência do STF em setembro.

Para o bem da democracia, o ideal é que nossa Suprema Corte lidere o fim da intervenção judicial no Brasil.

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