Do blog de Leonardo Sakamoto:
 
 
 
Causou espanto a reação de Jair Bolsonaro (PSL) diante do resultado do primeiro turno das eleições.
 
Seu discurso, transmitido através de uma live do Facebook, parecia o de um candidato derrotado e não daquele que recebeu 46% dos votos e têm um caminho mais fácil do que seu adversário, Fernando Haddad (PT) – que teve 29% – para o Palácio do Planalto.

 

Não só isso: Bolsonaro foi puxador de votos de seu partido, que deve ser o segundo maior na Câmara dos Deputados, saltando de oito para mais de 52 parlamentares, ficando apenas atrás do PT (56).

 
E com um Congresso Nacional que promete ser eminentemente conservador, já tem o aceno das bancadas do agronegócio (…) e das corporações policiais e militares se vencer.
 
Nunca a extrema direita teve uma votação tão grande no país. Sob vários aspectos possíveis, ele é o maior vencedor até aqui das eleições.

 

Contudo, o ex-capitão estava claramente abatido por não ter liquidado a fatura. O que mostra que não era bravata, ele realmente acredita no que disse no último dia 28, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes: ”Pelo que vejo nas ruas, não aceito resultado diferente da minha eleição.”

 
E completou: ”Se você ver como eu sou tratado na rua e como os outros são tratados, você não vai acreditar. A diferença é enorme”.

 

Do seu ponto de vista, portanto, não havia uma Presidência da República em disputa nas eleições, apenas um ritual para confirmá-lo como próximo mandatário neste domingo (7). Não admira, portanto, a frustração.

Caso confiasse nas pesquisas de intenção de voto, saberia que as coisas não sairiam do jeito que ele que desejava. Datafolha e Ibope, realizadas entre os dias 5 e 6 e divulgadas no sábado à noite, apontavam para 40% a 25% e 41% a 25%, respectivamente.

 
Ele ganhou entre cinco e seis pontos e Haddad, quatro pontos, desconsiderando-se as margens de erro. Ambas mostravam que sua curva estava ascendente (e que isso poderia continuar acontecendo), mas que seria muito difícil atingir a maioria dos votos válidos até domingo.

 

O resultado dessa frustração foi um discurso com toques de esquizofrenia, paranoia e agressividade.

 
Ao mesmo tempo em que prometeu acabar com a divisão do país, trazer paz e ”unir o nosso povo”, afirmou que vai acabar com toda forma de ”ativismo”, apesar de não explicar o que isso significa. Ativismo político, estudantil, sindical, empresarial, social, cultural?
 
De direitos humanos, indo contra as leis brasileiras e os tratados internacionais que o país assinou? Ativismo, que significa a militância da sociedade voltada a mudar o que considera errado e apoiar o que acha certo? Se for isso, propôs tolher a liberdade.

 

Sem contar que também afirmou disse que o povo do Nordeste vota coagido no PT, região onde perdeu de Haddad, ignorando que o povo tem vontade própria – o que certamente não é um discurso apaziguador.

Além disso, apesar de bradar que o país está à beira do caos, colocou mais lenha na fogueira incentivando uma teoria da conspiração sem provas ao afirmar que as urnas foram fraudadas. Um de seus filhos havia compartilhado, ainda durante a votação, um vídeo que mostrava uma urna que autocompletava o número 13.

 
O Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais afirmou que o vídeo era fake, uma montagem, e peritos do tribunal mostraram como foi feita a falsificação grosseira. Mesmo assim, isso foi o suficiente para criar uma onda de indignação e protestos entre seus eleitores. Há quem foi protestar à frente de prédios da Justiça Eleitoral.

 

”Vamos juntos ao TSE exigir soluções para isso que aconteceu agora, e não foi pouca coisa, foi muita coisa. Tenha certeza: se esses problemas não tivessem ocorrido, e tivéssemos confiança no voto eletrônico, já teríamos o nome do futuro presidente da República decidido hoje”, afirmou Bolsonaro. Não importa que o resultado bateu com a pesquisa Boca de Urna Ibope, que deu 45% a 28%. Ele afirma que foi vítima de uma fraude, ou seja, algo ou alguém bloqueou o seu destino.

Esse tipo de declaração joga fora a legitimidade do voto popular e põe em risco a estabilidade do país. Já teremos muita dificuldade para evitar grandes comoções do lado derrotado, seja ele qual for, após o resultado ser confirmado dada a ultrapolarização em que nos encontramos.

Enfim, nada disso condiz com a situação privilegiada em que ele se encontra agora. Os discursos de Marina Silva e Geraldo Alckmin, cujas candidaturas tiveram rápida desidratação por conta da corrida pelo voto útil na últimas semanas, foram mais altivos e em nada rancorosos, ao contrário do dele.

Resta saber se realmente tem dúvidas sobre a possibilidade de sua vitória, se isso é uma tática para comover o eleitorado ou se essa é a forma com a qual age diante de frustrações.

Até porque, neste segundo turno, será chamado a participar de debates e entrevistas para expor mais detalhadamente suas propostas para o governo e a responder por declarações polêmicas dadas por ele, por seu candidato a vice, o general da reserva Hamilton Mourão (13o salário, ”branqueamento”…), e por seu assessor econômico, Paulo Guedes (CPMF, Imposto de Renda…). Bolsonaro pode se negar a ir e continuar produzindo vídeos, tuítes e memes para a rede.

(…) Mas depois, em 28 de outubro, não pode se frustrar caso o resultado não seja de seu agrado.

 

Leonardo Moretti Sakamoto é um jornalista brasileiro. Além da graduação em jornalismo, possui mestrado (2003) e doutorado em ciência política (2007) pela USP. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste (1998), Angola (1999) e no Paquistão (2007) e retratou problemas sociais em reportagens realizadas por todo o país. Diretor da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, é conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra. Foi visiting scholar do Departamento de Ciência Política da New School for Social Research, em Nova Iorque (2015-2016). Sakamoto é ainda professor de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e escreve diariamente sobre política e direitos humanos em seu blog no portal UOL.

Livros: Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI (2006); Pequenos Contos Para Começar o Dia (2012); Repórter Brasil - 10 anos de estrada de terra em 17 grandes reportagens (org) (2012); O que Aprendi Sendo Xingado na Internet (2016).

 

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