Liberação de novos agrotóxicos para a agricultura atinge níveis preocupantes no governo Bolsonaro.

 

 

 

Documento afirma, por exemplo, que apenas 0,03% da água potável apresenta resíduo de glifosato acima do limite permitido, porém esconde que o limite no Brasil é cinco mil vezes superior ao da União Europeia

Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e autora do Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia informa que a consulta pública aberta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para reavaliação do uso de glifosato no Brasil, o agrotóxico mais utilizado no país, contém informações que podem confundir a população sobre o assunto.

De acordo com a pesquisadora, o documento que acompanha a consulta pública, intitulado “Apresentação sobre o glifosato”, é uma “clara tentativa de manipular a opinião pública sobre o que é o glifosato”, afirmou Larissa Bombardi em entrevista à Rádio Brasil Atual.

Larissa Bombardi explica que o documento apresenta a avaliação do resíduo de glifosato na água potável e em alguns alimentos. No caso da água para consumo humano, de acordo com a Anvisa, há apenas 0,03% de glifosato acima do limite permitido. “Quando a gente olha isso, dá uma certa tranquilidade, mas o que não aparece no documento é que os limites no Brasil são cinco mil vezes maiores do que os limites permitidos na União Europeia”, afirma.

A pesquisadora alerta ainda para outro dado apresentado pela Anvisa, o qual mostra que 27% da água coletada para a análise teve resíduo de glifosato. “A gente estabelece no Brasil um limite que é uma exorbitância, de 0,5 mg de glifosato por litro, enquanto na Europa o limite é de 0,0001 mg por litro, e depois se ‘comemora' que só tem 0,03% acima do limite”, criticou. “É o famoso ‘me engana que eu gosto’. O Brasil estipula um limite absurdo e depois comemora que pouco está acima do limite.”

Segundo Larissa Bombardi, a maneira como a Anvisa está apresentando as informações na consulta pública é uma “obscenidade”. No Brasil, o uso do glifosato é permitido nos cultivos de algodão, ameixa, arroz, banana, cacau, café, cana, citros, coco, eucalipto, fumo, maça, mamão, milho, pera, pêssego, trigo, uva, soja e na criação de patos. No caso da soja, o limite de resíduo de glifosato permitido é 200 vezes maior do que o estabelecido na Europa.

E quando a Anvisa escolhe mostrar no documento o resíduo de glifosato nos alimentos, estranhamente escolhe o arroz, manga e uva. Por que não escolheu a soja e o milho, que são cultivos transgênicos? Temos no Brasil uma área equivalente a quatro vezes o tamanho de Portugal só de soja transgênica. O cultivo transgênico está pronto pra receber o herbicida. É evidente que na manga e na uva o resíduo vai ser de forma muito mais periférica.”

Epidemia de doenças

A liberação de novos agrotóxicos para a agricultura está atingindo níveis preocupantes no governo de Jair Bolsonaro (PSL), segundo especialistas. Só entre janeiro e fevereiro deste ano, 58 tipos de venenos foram registrados e formalizados noDiário Oficial da União. A situação preocupa entidades que lutam contra o uso de agrotóxicos, pelo potencial risco à saúde que esse tipo de substância pode causar.

De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), dos 58 produtos aprovados, 21 dessas substâncias são consideradas extremamente tóxicas, 11 altamente tóxicas, 19 de média toxicidade e 7 pouco tóxicas. Já em relação ao perigo ao meio ambiente, uma é classificada como altamente perigosa, enquanto que 31 substâncias foram consideradas muito perigosas, 24 como perigosas e apenas duas como pouco perigosas.

Para o Seu Jornal, da TVT, o Mapa afirma que a liberação de novos registros não implica em maior uso desses venenos. O argumento, no entanto, é rebatido por entidades.

Você está incentivando que aquelas culturas que não usavam um produto, passem a usar. Então, isso (argumento) não é verdade. A gente sabe que quanto mais empresas autorizadas a fabricar agrotóxicos, mas terão agrotóxicos no mercado e maior será o lobby delas para que esses produtos sejam usados”, contesta a integrante da Campanha Contra Agrotóxicos pela Vida Susana Prizendt.

Monitor Mercantil///

Foto: MF rural///

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