Poder e morte caminham juntos e, quando pervertem democracia, tornam-se necropolítica.

 

No Brasil atual, estamos assistindo a um espetáculo da polarização entre os que expressam abertamente o desejo de morte e a violência, de um lado, e os que lutam – literalmente neste momento – pela vida. (Ueslei Marcelino/ Reuters)

 

Reinaldo Lobo*

 

 

O poder e a morte andam sempre próximos e, muitas vezes, unidos intimamente em sua virtual destrutividade. A violência acompanha o poder como sua sombra ao longo da História. Não há poder sem uma boa dose de sangue.

Um psicanalista francês, Eugène Enriquez, escreveu um livro instigante que nos ajuda a pensar um pouco mais a tragédia humana e política que atinge o Brasil atual: As figuras do poder (editora “Via Lettera”, 2007). Ao estudar de modo inovador as vertentes mais obscuras desse objeto de desejo – o poder, seu enigma e seu alcance –, Enriquez postula uma hipótese central: “revelar a pulsão de morte que nele opera diretamente ou sob a máscara da fascinação, da manipulação ou da sedução’”. Nosso autor segue a tradição freudiana mais clássica, inaugurada com o conceito de pulsão de morte, que seria uma tendência do ser humano não apenas para a vida, Eros e ligação, mas também para o retorno em última instância ao estado mineral, uma espécie de busca pela imobilidade, a repetição e a morte.

Os conflitos psíquicos, sobretudo na doença mental, seriam a expressão da pulsão de morte contra a pulsão de vida – é por isso que Freud diz que , para não adoecer, o sujeito precisa começar a amar. Esse conceito foi forjado após a I Guerra Mundial e a pandemia da “gripe espanhola”, quando Freud ficou chocado com a brutalidade do conflito e morte de sua filha Sofie pela doença, passando a opor Eros, deus da ligação erótica, a Tânatos, deus da morte. Postulou que a natureza humana é marcada por essas inscrições, expressas, por exemplo, no amor e no ódio. Alguns autores interpretam o conceito como uma “pulsão anárquica”, destrutiva, de puro ataque à vida.

Outros veem essa pulsão (impulso, tendência) mais pelo seu aspecto conservador, como uma compulsão à repetição, à imobilidade e ao retrocesso. Ambas as visões contemplam o foco da morte como alvo último e sua finalidade como desligamento, ao contrário de Eros, que ata. Freud chamava esses e outros dos seus conceitos como “nossa mitologia”, pois se inspiravam na mitologia grega, por ele transformada em categoria de análise. O poder, para Enriquez, é constituído pela pulsão de morte. O que não significa que não seja desejado, almejado e sonhado pelos seres humanos. Ter poder, submeter-se ao poder, delegar poder, tomar o poder isso faz parte das nossas preocupações e obsessões do nascimento à morte, diz ele. E completa afirmando: “Qualquer grupo social pode ser considerado um feixe de relações de poder. São poucos os termos, como por exemplo “amor”, que têm repercussão comparável e são tão centrais para o ser humano.”

Concordo com boa parte das afirmações do nosso autor sobre a importância de estudar o poder como expressão do confronto do ser humano consigo mesmo e com o outro, o que provoca uma ressonância sobre nosso futuro e do mundo. Discordo dele quando centra toda a fundamentação do poder no conceito clássico freudiano de pulsão de morte, e ignora algumas outras dimensões complexas. Também dá a impressão de que todo poder é a encarnação do mal. Faz isso claramente quando examina o “mito do bom poder”. Ora, nem todo poder é a expressão exclusiva da malignidade. Os gregos antigos inventaram, já no alvorecer da nossa civilização, um método interessante de repartição do poder chamado democracia.

Dá uma certa liberdade de escolha para os seus participantes e contrabalança os efeitos deletérios do poder, mesmo que não de forma definitiva nem absoluta. Nem todo poder é despótico e pode ser removido periodicamente pela participação do demos (povo). Contudo,existem, sem dúvida, formas de poder comprometidas diretamente com a morte. São justamente os que buscam o despotismo e a concentração em poucas ou em uma única mão. No Brasil atual, estamos assistindo a um espetáculo da polarização entre os que expressam abertamente o desejo de morte e a violência, de um lado, e os que lutam – literalmente neste momento – pela vida.

O esquema de Enriquez vale para este acaso extremo de batalha entre Eros e Tânatos. A ideologia neofascista que empolga o pequeno grupo de militares e de civis em torno do presidente Bolsonaro tem, de saída, uma vertente negativa e destrutiva. Não é por acaso que alguns a chamam de “necropolítica”. Repousa sobre um raciocínio baseado no utilitarismo: quantos mortos são toleráveis para salvar a contabilidade econômica? Para “liquidar a esquerda” o presidente e seus ideólogos não hesitam em falar numa matança, agora já saindo da retórica, e na eliminação de qualquer traço esquerdista na cultura brasileira.

Todos recordam a história daquele general fascista que gritava durante a Guerra Civil Espanhola: “Viva a morte, abaixo a inteligência!”. Essa política negativa não hesita em incluir na lista de seus alvos as minorias dos “diferentes”, como índios, negros, o grupo LGBTQ, as mulheres e tudo o que lembre liberdade de escolha. Do outro lado, estão os partidos políticos atarantados pela existência da pandemia, cuja realidade reconhecem e respeitam, e que paralisou qualquer resistência nas ruas, exceto pelas redes sociais. E, desse mesmo lado, está a população assustada com o perigo de morte, paralisada em casa ou, então, seguindo para o risco do matadouro.

Muitos ainda não compreenderam que só há dois partidos no Brasil neste momento: o partido da morte e o que luta pela vida. Os militantes pela vida , que cultuam as artes, a ciência e o amor , procuram entender, perplexos, como o poder autoritário funciona, estupidamente envolvido com a pulsão de morte, disposto a seguir avante com a violência, incêndios de florestas, contaminação de comunidades de todos os tipos, ignorância, anti-intelectualismo, e desrespeito aos direitos sociais e humanos. O desprezo pela vida dos outros contamina toda sua ação. Se Gandhi pregasse a não-violência e o amor sob o governo de Hitler, provavelmente não duraria vivo uma semana. Não há diálogo racional com o partido da morte.

 

 

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista

 

 

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