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Pompeo de Mattos: “cheguei a ameaçar ir embora da campanha”

Se os partidários que apoiaram Tarso Genro (PT) comemoram a inédita eleição em primeiro turno, resta aos derrotados pelas urnas a difícil – e por vezes espinhosa – tarefa de analisar e tentar compreender os próprios erros. Pompeo de Mattos (PDT), vice na chapa de José Fogaça (PMDB) ao governo gaúcho, é um dos nomes centrais de uma coligação que, mesmo reunindo duas das siglas mais fortes no RS, jamais conseguiu encontrar seu caminho. Eleito em 1986 como o prefeito mais jovem do Brasil, empossado duas vezes como deputado estadual e três como federal, Pompeo encarou, como vice de Fogaça, sua maior derrota política. Um assunto que já rendeu muita discussão interna nos partidos, mas que ainda não está encerrado.

Em entrevista telefônica com o Sul21, Pompeo de Mattos comentou abertamente os aspectos negativos da campanha de Fogaça. Admitiu que a militância não se engajou, o que atribuiu a um posicionamento equivocado da propaganda eleitoral da coligação, em especial da televisiva. Revelou que ele e Romildo Bolzan Jr, presidente estadual do PDT, ameaçaram abandonar a campanha, se não houvesse uma mudança de rota.

Com a eleição de Tarso Genro para o Piratini, Pompeo defende uma postura de apoio do PDT ao novo governante, sem entrar de cabeça na base governista. Segundo ele, não é esse o recado que as urnas passaram para o PDT, na votação de 3 de outubro. E defende uma postura “ativa, altiva e independente” como forma de garantir a relevância do seu partido no cenário político estadual.

Sul21 – Mais de dez dias se passaram desde a votação de 3 de outubro, quando a candidatura de José Fogaça (PMDB), da qual o senhor era vice, foi derrotada em primeiro turno. Já é possível fazer um balanço mais equilibrado do que foi feito de errado na campanha? A coligação com o PMDB não funcionou?

Pompeo de Mattos – A coligação PMDB-PDT não foi problema. Ela funcionou bem. Tanto que nós tivemos uma convenção que foi a maior da história dos dois partidos. Sinal de que o povo veio, o povo assumiu e o partido (PDT) assimilou bem a coligação. O problema começou com os programas de televisão. O pessoal do marketing (da campanha) entendia que não precisava aparecer a coligação (na TV), diziam claramente que a coligação não contava. Para eles, não era importante mostrar o PDT e o PMDB, não era importante falar de política. Os comícios e as carreatas não interessavam, tanto que não apareciam nos programas. Além disso, não levavam em conta as lideranças dos dois partidos. Tanto isso é verdade que o presidente do PDT (Romildo Bolzan Jr.), um partido que trouxe muito tempo para o horário eleitoral, passou toda a campanha sem ter aparecido em nenhum programa. E o Pedro Simon, que era o presidente da outra parte (PMDB), só foi aparecer no finalzinho, colocado a contragosto (por quem fazia o programa eleitoral).

Sul21 – Então, os responsáveis pelos programas abordaram a eleição de maneira errada?

PM – Eles entendiam que era uma questão de perfil entre o candidato Fogaça e o candidato Tarso Genro. E aí colocaram de cara o Fogaça sozinho no vídeo, sem interatividade, sem um time do lado. Enquanto do lado de lá mostravam o Tarso com a Dilma, o Lula, o Beto Albuquerque (deputado federal do PSB), a Manuela D’Ávila (deputada federal do PCdoB)… Tinha um time todo do lado dele.

Quando eles faziam as pesquisas qualitativas, não podíamos participar. Não nos diziam onde faziam, como eram feitas… Se é que eram feitas, no fim das contas. Marcávamos para comparecer na qualitativa, e eles cancelavam.

Sul21 – Isso teve efeito ruim sobre os apoiadores, em especial os mais distantes das grandes cidades do RS?

PM – Sim, porque os programas não refletiam a alma da militância. E isso foi desmobilizando a própria militância dos partidos, foi murchando todo mundo. O pessoal do PMDB foi se encolhendo, o do PDT também… Pode ver que nós começamos nas pesquisas com 31% dos votos. Quando entrou no ar a propaganda eleitoral, tínhamos 31%, 29% nas piores indicações. E aí foi a 28%, 27%, 26%… O programa foi nos colocando para baixo. Ao invés de crescer, nós diminuímos.

Nós acabamos não usando a televisão para dialogar com os partidos, para dialogar com a sociedade.  Esse diálogo não aconteceu. Enquanto o Tarso tinha um programa interativo, no qual ele aparecia com várias pessoas, o Fogaça aparecia sempre sozinho, no máximo com alguém do povo, digamos assim. Lideranças não apareciam (na TV). Ele (Fogaça) foi ficando cada vez mais sozinho.

Sul21 – O PDT se mobilizou para tentar corrigir isso?

 

PM – Mas claro! Não deixei vazar (para a imprensa), mas chegou ao ponto de eu e o Romildo dizermos: “bom, se não é importante a coligação, não é importante o PDT, não é importante o vice, não é importante o PMDB, não são importantes os partidos… Então nós vamos embora, não vamos ficar por aqui”. Chegamos a fazer esse questionamento. Mas nos disseram: “não, não, é que a campanha na rua é uma coisa, na TV é outra. Na rua é importante, mas na televisão não é importante”. Depois, pedimos que o PDT tivesse autonomia sobre 30 segundos do programa. Nada mais que isso, 30 segundos para o PDT. Disseram que veriam o que fazer, que iam olhar, examinar… E acabaram negando. Não deram 30 segundos de espaço para o partido!

Sul21 – Mas o senhor não foi ouvido?

 

PM – Eu questionei essa situação (dos programas eleitorais) desde o primeiro momento. No início de setembro eu já tinha constatado isso. Fui firme nessa questão, mostrei os erros. O Fogaça chegou a sugerir até a troca da equipe, e pediu a minha opinião. Eu disse: “Olha, não fui eu quem contratei, como é que eu vou trocar?” O que tinha que ser feito não era trocar a equipe, e sim mudar a direção dos programas. Eu disse: “Se me derem uma certa autonomia, vou lá e faço (parte do programa), eu sei fazer”. Mas a equipe do marketing era muito fechada, e não abriu para nada.  Apenas diziam: “Vai melhorar, vai acontecer, o programa vai decolar”.

O Fogaça me dizia: “Vocês tinham que ter é um minuto (no programa de TV)”. Porque nós (PDT) contribuímos com 1 minuto e 20 segundos para a propaganda da coligação. E nunca tivemos autonomia, nossas opiniões nunca foram ouvidas. Essa foi a grande dificuldade, porque a gente não conseguia se comunicar com o cidadão, passar uma imagem afirmativa para as massas.

Sul21 – O PDT assumiu desde o início uma postura favorável a Dilma Rousseff. O PMDB, por sua vez, adotou a neutralidade ativa, com muitos líderes estaduais abrindo voto para Serra. Isso atrapalhou?

 

PM – Na minha visão, foi irrelevante. Falam muito disso, que essa indefinição atrapalhou, mas não acredito nisso. Por exemplo, aqui em Porto Alegre, o Serra ganhou – e nós perdemos, por 3 votos por 1, na Capital. Se a transferência de votos fizesse tanta diferença, era para termos tido um resultado diferente. O que faltava era comunicação. Não houve politização na campanha, um confronto de propostas, entende?

Sul21 – Mas a postura do PDT não acabou perdendo visibilidade, no meio dessa incerteza?

 

PM – Não. Nós tínhamos posição, e a defendíamos aonde quer que a gente fosse, sem problema nenhum. Sempre assumimos publicamente nosso apoio a Dilma. Inclusive, acho que foi ao contrário, que até nos ajudou. O que prova que a neutralidade (do PMDB) não era o problema. Eu interpreto que, no primeiro momento em que é feita uma coligação, o presidente do PDT tem que ir até a televisão e anunciar a parceria com o PMDB. Do lado deles, a mesma coisa, ir aos programas e dizer que estão coligados com o PDT. O primeiro ato deveria ter sido esse, de anunciar essa união. E daí sim tinha que aparecer o Fogaça e o Pompeo.

Chegou um ponto tal que, no meio da campanha, as pessoas vinham me procurar como se eu fosse candidato a deputado federal. Diziam: “Mas o senhor não vai fazer propaganda?” No finalzinho da campanha, tinha gente que queria saber qual era o meu número, como se eu fosse candidato a deputado, e não vice na chapa do Fogaça. Tu olhava o programa do Fogaça, e não colocavam nem o número dele, que era o 15!

Quando os deputados do PDT e do PMDB apareciam nos programas, colocavam de fundo a imagem do Fogaça e não colocavam a do vice. Detalhezinhos, coisas que parecem até pequenas, mas que contam muito. Daí, eu perguntava: “Tchê, mas por que não coloca o vice junto? Até nos programas individuais do PDT isso ajuda”. Aí colocaram o Fogaça e eu de fundo nos programas do PDT, mas nos do PMDB seguiu sendo só o Fogaça. Havia coligação só em um momento, em outro não tinha coligação. Ou seja, a coligação foi desconsiderada no programa eleitoral.

Sul21 – Então, o senhor não atribui a responsabilidade desses problemas ao PMDB…

 

PM – Não, de jeito nenhum. Na verdade, o PMDB também foi isolado. O Pedro Simon não participou (dos programas)! Ficou uma coisa estanque, muito fechada. Te dou exemplos do que estou dizendo. Tínhamos municípios nos quais PDT e PMDB não se entendiam, e perdemos lá. Em outros, o PDT era prefeito e o PMDB era vice, e perdemos nesses municípios também. Tínhamos outros, onde o PMDB era prefeito e a gente (PDT) era vice, e perdemos também! Ou seja, o problema afetou de forma generalizada. Para fazer uma festa, primeiro os donos da casa precisam organizar essa festa, e depois criar um ambiente para que os outros se entrosem. Nós não organizamos a casa, não preparamos o ambiente, e não recebemos os convidados. Aí, não houve a festa.

Sul21 – E o segundo turno presidencial? A postura do PDT, de apoio a Dilma, se mantém, e agora sem eventuais empecilhos do PMDB. O que o partido está fazendo para garantir a eleição de Dilma?

 

PM – Nós estamos fazendo o que dá, o que está a nosso alcance. Hoje mesmo (15) estou indo para uma reunião em São Gabriel. O PDT está participando da campanha, como estava desde o primeiro turno. A gente sabe que a eleição, no segundo turno, é meio “morte súbita”, a campanha é mais forte na TV mesmo. Claro que seguimos fazendo declarações públicas, manifestações em jornais… Vamos lançar um manifesto, com lideranças do PDT declarando apoio a Dilma. Fizemos até um decalque que diz “Sou PDT, voto Dilma”, que já estamos distribuindo. E estamos ajudando a organizar uma visita da candidata Dilma a Porto Alegre. Os trabalhistas vão estar lá, com certeza.

Sul21 – O PDT está sendo convidado pelo PT para integrar a base de governo de Tarso Genro. Isso pode acontecer? Qual a sua posição sobre essa possibilidade?

 

PM – Em primeiro lugar, nós disputamos com o Tarso, defendendo o nosso projeto, e fomos vencidos. Claro que não era um candidato próprio do PDT… Nesse sentido, nós não vencemos, mas não perdemos também. Tínhamos três deputados federais, e elegemos três; tínhamos sete deputados federais, reelegemos os sete. Mantivemos as vagas. De qualquer modo, compor o governo Tarso assim, logo de cara, é algo que não pegaria bem. Politicamente, nossa imagem seria desgastada. É como aquela história em que morre o cara, e no velório do falecido a viúva arruma um novo casamento. Não é uma coisa boa, entende?

Além disso, temos que lembrar que daqui a um ano e pouco, já temos eleição para prefeito. De que lado o PDT e o PT vão estar? Certamente, de lados opostos. Eu já assisti esse filme, quando o Collares disputou com o Tarso o segundo turno da eleição para prefeito da capital. No caso, nem vai ser no segundo turno, já será no primeiro, porque o (atual prefeito de Porto Alegre, José) Fortunati será o nosso candidato, e tudo indica que o PT vai ter alguém concorrendo também, o que é legítimo. E aí, se estamos no governo, o pessoal que estiver no governo vai ser fiel a quem? Ao partido e à prefeitura ou ao governo do estado?

Sul21 – Então, a tendência é de apoiar Tarso, mas sem entrar no governo?

 

PM – Exatamente. Um apoio respeitoso, colaborativo, com o governo estadual. E isso vai se ampliando. Passadas as eleições municipais, podemos fazer um balanço e dar um caminho, para onde o PDT vai, para onde o PT está indo, e aí nós vamos tomar nosso rumo. E outra, o PDT já teve experiências que deram errado. Entramos no governo estadual, com o Olívio Dutra, e o resultado acabou sendo muito ruim. Não entramos bem, e saímos mal. No governo Rigotto, a mesma coisa. No governo da Yeda, pior ainda. Então, eu digo que a gente tem que tomar cuidado para não entrar pela porta dos fundos. A porta da frente, para mim, é a eleição. E nós não conseguimos de novo, ficamos ali na escadaria, na calçada. Mas o povo nos deu sete cadeiras do outro lado da rua, e nós temos que valorizar essas cadeiras. Interpretar a mensagem que o povo nos deu. Podemos ser o fiel da balança no parlamento gaúcho! Porque o PT tem 14 cadeiras, mais quatro do PCdoB e PSB, mais o PTB que são mais seis. Com isso, são 24 cadeiras. Então, nós vamos ser o fiel da balança, vamos ser importantes, porque o PT vai ter que negociar conosco. Se nós formos para o governo, vamos ter uma obrigação. O PDT indo para o governo, a gente se divide muito, pode rachar. Então, a gente pode preservar a nossa unidade, colaborar naquilo que for possível, examinar o ambiente, e dar um tempo para nós mesmos. Não quer dizer que não possamos ser parte do governo mais para frente. Acho que nós temos que colaborar com o governo, sermos colaboracionistas, mas não adesistas. Se nós conseguirmos elaborar um projeto em conjunto, entre PDT, PT e as outras forças de esquerda, aí a gente fica mais à vontade para entrar no governo.

Sul21 – E qual deve ser a postura do PDT nos próximos anos, para conseguir crescer e renovar seus quadros?

 

PM – Altiva, ativa e independente. Se o partido souber interpretar o que o povo diz, então não é para a gente ir para o Palácio (Piratini), pelo menos não nesse primeiro momento. Podemos ir, mas em outro projeto, e quando esse projeto começar a acontecer. Temos que receber o recado da urna, interpretar, e nos mantermos na ativa, sermos altivos e independentes nessa hora. Isso vai nos fortalecer como partido político, e vai fazer com que sejamos respeitados, inclusive pelo PT. Não só respeitados, mas eu diria até tratados com carinho. Então, esse é um valor que temos que ter muito claramente, porque é isso que vai manter o partido vivo e fortalecê-lo para o futuro.

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