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Apesar da vitória de Dilma, as mulheres ainda têm pouca presença na política brasileira

Na noite de sua vitória, no dia 31 de outubro, a presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, fez um apelo emocionado.

Parodiando o slogan de campanha de Barack Obama ("Sim, nós podemos"), ela destacou o valor simbólico de seu próprio destino: “Eu gostaria muito que os pais e as mães das meninas pudessem olhar nos olhos delas e dizer: sim, a mulher pode!”

Quadragésima chefe de Estado desde o advento da República em 1889, e primeira mulher a governar esse imenso país, "Dilma" sucederá no dia 1º de janeiro de 2011 aquele que a mimou, que a escolheu como sucessora e a ajudou a se eleger, projetando sobre ela o brilho de sua glória: Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de um operário, uma mulher! Dupla missão cumprida por Lula.

"Sim, a mulher pode" chegar à função suprema: é o que ela acaba de provar. Envolver as brasileiras na vida política, convencê-las a se engajarem, militarem, estimularem a democracia cidadã será infinitamente mais difícil e demorado.

Eleita presidente do Chile em 2006, à frente de uma coalizão de centro-esquerda, Michelle Bachelet instaurou a paridade homens-mulheres em seu primeiro governo. Com Dilma Rousseff, ainda se estará bem longe disso. Ela estabeleceu uma meta mais modesta – 30% de mulheres ministras – que ela terá dificuldades para atingir.

Ela teria adorado confiar as relações exteriores a uma mulher. Mas é difícil, pois três quartos da diplomacia brasileira são compostos por homens. Essa prestigiosa pasta, afinal, caberá a um homem, Antônio Patriota, um veterano na "carreira". Nenhum dos grandes ministérios ficará a cargo de uma mulher.

No Brasil, o universo político continua sendo profundamente machista, como mostra a composição do Parlamento de Brasília. Na próxima legislatura, a Câmara dos Deputados terá 45 mulheres, entre 513 membros: menos de 9%. O Senado é ligeiramente melhor. Esse pífio desempenho coloca o Brasil na 108ª posição, segundo números do Fórum Econômico Mundial, que classifica 134 países.

Essa forte sub-representação – e às vezes até pior – é encontrada em todos os escalões da estrutura federal: governadores, deputados, prefeitos, vereadores. A senadora Serys Slhessarenko, colega de partido de Lula, gosta de lembrar que, quando ela foi eleita em 1990 para a Assembleia Legislativa do Estado do Mato Grosso, o prédio que o abriga não tinha banheiros para mulheres.

Desde então a presença das mulheres na política evoluiu. Mas pouco.  Hoje, ela parece estar mais estagnada. As mulheres não serão mais numerosas no novo Parlamento, que assume suas funções no dia 1º de fevereiro, do que no anterior.

No entanto, Dilma Rousseff e a candidata ambientalista Marina Silva obtiveram sozinhas mais de dois terços dos votos no primeiro turno da última eleição presidencial.

Mas nenhuma das duas tem um passado feminista, e também não usaram como argumento de campanha o fato de pertencerem ao sexo frágil.

Uma lei de 1997 obriga os partidos a reservarem às mulheres pelo menos 30% de suas candidaturas à Câmara dos Deputados. Mas ninguém a aplica. Nas eleições de outubro, somente 21% dos candidatos eram mulheres. As que são eleitas muitas vezes são relegadas às comissões parlamentares de segunda linha.

"A classe política faz resistência", lamenta Lourdes Bandeira, socióloga da Universidade de Brasília. "E a Justiça se diz impotente para fazer com que a cota seja cumprida. A lei também atribui às mulheres 10% do tempo de horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, e aloca 5% do orçamento dos partidos à ‘formação política das mulheres’".

A mulher política brasileira se depara com o famoso "glass ceiling" [literalmente, "teto de vidro"], muitas vezes denunciado em outras sociedades conservadoras, que consiste em barreiras invisíveis erguidas pelos homens para frear ou desencorajar suas ambições.

São raros os sucessos femininos nos quais ela poderia se inspirar. O eleitorado, ainda que majoritariamente feminino, se mostra mais exigente em relação a ela do que aos homens. Seu comportamento público é facilmente ridicularizado: algumas lágrimas em público entregam sua "fraqueza", um acesso de raiva faz dela uma "dama de ferro". Um apelido que Dilma Rousseff também ganhou. Mas não teria ela dito um dia: "Sou uma mulher dura, cercada por homens meigos"?

Conscientemente ou não, Lula manifesta um "machismo às avessas", quando trata Dilma como o pequeno ser frágil que ela não é. Durante a campanha, no dia seguinte a uma entrevista concedida por sua candidata a uma rede de televisão, ele lhe ofereceu uma rosa vermelha, repreendendo o entrevistador por ter faltado com "gentileza" a ela.

Preocupado em suavizar a imagem de sua protegida, Lula a chamou de "mãe do povo" depois de tê-la batizado de "mãe do PAC", um conjunto de grandes obras visando estimular o crescimento, ou ainda de "mãe do programa Luz para Todos".

Ele também adotou um tom paternal em relação a Dilma, que é somente dois anos mais nova que ele: "Minha filha, faça o que eu não consegui fazer". Mãe? Filha? Não importa. A "mulher" presidente já respondeu: ela "pode".

Tradução: Lana Lim(

Le Monde

Jean-Pierre Langellier

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