Demissões em massa: seria o fim do jornalismo?
Centenas de jornalistas demitidos, agrupamento de editorias, veículos de comunicação em séria crise financeira. Seria o jornalismo uma profissão em extinção?
por Melissa Rocha/ON – 15 de setembro, 2015
Conhecidas entre jornalistas como “passaralhos”, as demissões em massa se tornaram uma realidade constante nas redações dos veículos de comunicação do país. Desde 2012, já foram demitidos 1.280 jornalistas, segundo a agência de dados Volt Data Lab.
Os cortes afetam jornais impressos, portais, rádios e emissoras de televisão, independentemente da linha editorial. Este ano, o site Terra demitiu 110 jornalistas. A Editora Abril, campeã dos passaralhos, dispensou 175, chegando a ser alvo de uma decisão da Justiça que proibiu novos cortes, sob a pena de R$ 15 mil por jornalista demitido. O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo demitiram, respectivamente, 71 e 65 jornalistas. No jornal O Dia, foram 30 demitidos. O último corte, e também o mais chocante, ocorreu no início deste mês, na Infoglobo, empresa responsável pelos jornais Globo, Extra e Expresso. Foram demitidos 400 funcionários, sendo pelo menos 60 dos departamentos de jornalismo do Globo. Entre os maiores espantos está a dispensa de grandes nomes do ramo, como Marceu Vieira, Cora Ronai e Helena Celestino, além do encerramento do caderno Prosa & Verso.
Nesse contexto, é impossível deixar de se perguntar: seria o jornalismo uma profissão em extinção? Para muitos que optaram por mudar de área, sim. É o caso de Renato (nome fictício). Em condição de anonimato, ele contou ao Opinião & Notícia por que trocou o jornalismo pela enfermagem. “No meu último ano de faculdade consegui um estágio na Super Rádio Tupi. Saí de lá assim que me formei, em 2012, sendo recontratado logo depois. Trabalhei lá por seis meses até ser dispensado, sem saber o motivo. Passei 11 meses procurando emprego. Surgiu uma oportunidade para Técnico de Enfermagem, curso que fiz junto com o ensino médio. Posso afirmar que, mesmo em crise, a oferta de empregos nesse ramo é 50 vezes maior do que na área de Comunicação.”
Outros, porém, preferem seguir tentando, como Bianca Borges, que já trabalhou como repórter, redatora, produtora e apresentadora de rádio. “Uma vez, entrevistei um jornalista que atua na Amazônia há 40 anos e perguntei por que ele continuava a fazer o trabalho, independente e pouco lucrativo, apesar das dificuldades, processos e ameaças. Ele disse que, simplesmente, não tinha outra opção. Eu respondi ‘Mas Lúcio, você tem sim, pode, simplesmente, parar’. Mas o fato é que isso nunca foi uma opção para ele. Não querendo ser pretensiosa e me comparar com a maior referência em jornalismo na Amazônia [Lúcio Flávio Pinto] mas eu sentia desde adolescente que a minha vida só faria sentido se eu pudesse contar e ouvir histórias. Quando escolhi o curso, sentia que não poderia fazer outra coisa da vida. Eu não seria feliz, não seria eu mesma.”. Atualmente, Bianca atua como jornalista freelancer.
Qual a causa dos passaralhos?
Sérgio Spagnuolo, jornalista especializado em jornalismo de dados e editor do site Volt Data Lab conversou com o O&N sobre os cortes em massa. Em seu site, ele criou um projeto para contabilizar as demissões. O sucesso foi tanto que gerou uma página dedicada apenas à análise do fato.
“Criei um banco de dados onde é possível pesquisar por empresa e ver quantos jornalistas e funcionários de outras atividades foram demitidos por cada empresa de mídia brasileira”, diz Spagnuolo, que também já atuou em jornalismo financeiro em veículos como a Reuters.
Notícias declaratórias, sem a devida apuração dos fatos, afetam a credibilidade da profissão (Foto: Flickr)
As demissões, muitas vezes, miram os jornalistas mais antigos, com mais experiência, que acabam substituídos por outros, mais novos e com salários mais baixos. Essa tendência acaba cortando uma corrente vital para o bom funcionamento das redações: a inovação dos jornalistas mais novos somada à experiência dos mais antigos. Com menos gente, a fusão de editorias e o acúmulo de funções é inevitável. E a consequência é a precarização da qualidade da informação, fazendo o veículo perder credibilidade. Segundo Spagnuolo, isso gera o atual jornalismo do “disse especialista”. “Não digo em todos os veículos, mas nos grandes, com certeza. É só ver a home da Folha, do Estadão, do UOL. A maioria das matérias são declaratórias. ‘Economia vai mal, diz fulano’, ‘Presidente está errada, diz Cunha’. Tem menos gente fazendo muita coisa, então se baseiam em coisas rápidas, fáceis de fazer.”
Esse tipo de matéria, no entanto, não cativa o leitor, que, segundo Spagnuolo, “não perde tempo lendo algo que já está no título”. “Esse tipo de matéria declaratória, o jornalismo rápido e imediatista que temos hoje, trabalha com o senso do ‘caça cliques’. Apelam para a emoção das pessoas, criam títulos mirabolantes para o leitor clicar. Só que ele clica, vê que é um monte de besteira e logo sai.”
Uma saída seria tirar o foco imediatista da notícia e investir em reportagens mais apuradas. “Dar a notícia assim que ela sai funciona bem em agências de notícias, como a Bloomberg e a Reuters. Mas não é benéfico para o tipo de jornalismo apurado que a Folha ou o Estadão se propõem a fazer. Não se apura nada em 10 minutos. O New York Times, o Guardian e o Le Monde quando têm um breaking news dão poucas informações e avisam que estão investigando. A notícia é construída aos poucos. Na Folha, já colocam 10 parágrafos, com um monte de coisa que você não sabe de onde veio. Acho que aqui no Brasil, esse conceito imediatista é assim: ‘Vamos dar logo essa matéria e depois partir para a próxima, não vamos construir mais essa matéria.’”
O novo jornalismo?
Apesar das demissões em massa, uma nova forma de fazer notícia vem ganhando força: o jornalismo independente e sem fins lucrativos, feito por veículos como Agência Pública e Ponte. Talvez, isso seja uma prova de que o jornalismo não está acabando, mas passando por uma transformação, em que os negócios passam para o segundo plano e a notícia fica em primeiro lugar.
Spagnuolo acredita que essa mudança não vai acabar com o jornalismo, mas sim aprimorar a qualidade do trabalho. “Esses veículos de jornalismo independente vêm apresentando um ótimo trabalho, muitas vezes superando os grandes jornais. Acho que o jornalismo brasileiro vai se adaptar e, assim que a economia melhorar, veremos alguma orientação nesse sentido, mais anunciantes, mais pessoas dispostas a investir nisso. Porque o jornalismo é um dos combustíveis da democracia. Não acho que jornalismo profissional está acabando. Acho que ele tem de ser adaptado. Porque se fosse para continuar com o mesmo foco imediatista que existe hoje em dia, do ‘vamos reproduzir o que o outro está falando, com informações rápidas e sem apurar’, aí sim seria como cavar uma cova para a profissão. Mas não acho que esse é o caso.”(por Melissa Rocha/ON – 15 de setembro, 2015
Caro leitor,
Você acha que a crise no jornalismo é um reflexo da crise financeira ou um indício do fim da profissão?

