08/04/2016 | domtotal.com
Saúde: um olhar espiritual
Toda ação curadora de Jesus significa uma reintegração.
Por Felipe Magalhães Francisco*
Ao longo de seu ministério, Jesus operou muitas curas. Todas essas curas restituíam a dignidade da vida para as pessoas, pois as enfermidades que apresentavam as excluíam social e religiosamente. É emblemática a narrativa da cura do paralítico, que foi descido, junto à sua maca, pelo telhado da casa em que Jesus estava (cf. Mc 2,1-12). A paralisia da qual o homem sofria, era a paralisia existencial, causada pelo pecado, que o impedia de seguir na vida. Jesus, vendo a fé dos homens que conduziram o paralítico, proclama o perdão dos seus pecados, tirando-lhe as ataduras que o impediam de caminhar.
Chama a atenção, no texto narrado, o fato de que Jesus tem consciência de que a saúde diz respeito ao todo da pessoa. Toda ação curadora de Jesus significa, sob este ponto de vista, uma reintegração: da pessoa mesma, da sua relação com a sociedade e com a prática religiosa. Tudo isso é marcado pela ordem de Jesus: “levanta-te, pega a tua maca e vai para casa!”. De destinatário da compaixão dos que o carregaram, bem como da ação libertadora de Jesus, o ex-paralítico se torna sujeito de sua própria história: “O paralítico se levantou, saiu carregando sua maca”.
A prática de Jesus está a serviço de sua missão: anunciar o Reino de Deus. Junto às suas palavras de sabedoria estão os seus gestos de misericórdia, pois é assim que o Reino se revela. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa-Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Curar, em todos os níveis, significa, na ação de Jesus, dignificar a vida.
A missão dos seguidores e seguidoras de Jesus está pautada pela ação de seu próprio Mestre, por isso a Igreja é chamada, tal como os discípulos de ontem, a proclamar a conversão, a expulsar os males que afligem as pessoas, a ungir os doentes e a curá-los (cf. Mc 6,12-13). É, sem dúvidas, um retorno ao Evangelho a fala do Papa Francisco de que a Igreja precisa ser um hospital de campanha. Muitas coisas no mundo têm adoecido as pessoas, não só fisicamente, mas também emocional, psíquica e espiritualmente.
Paradoxalmente, em um tempo em que as pessoas vivem mais, com mais possibilidades, ainda padecemos de muitos males provocados pela injustiça, pela ganância, pelo descaso. Tudo isso, verdadeira guerra contra a vida e o bem-estar das pessoas. A Igreja, como sinal do Reino de Deus, precisa contribuir, à sua maneira própria, no processo de cura das pessoas, de resgate de sua dignidade, da denúncia das injustiças e do descaso.
Por isso, na ocasião do Dia Mundial da Saúde, ocorrido ontem (7), e do Dia Mundial do Combate ao Câncer, hoje (8), importa-nos a reflexão sobre a dimensão espiritual da saúde, que está intrinsecamente relacionada às dimensões física, emocional e psíquica. A teologia, como ciência da fé, à qual importa o ser humano, precisa oferecer uma palavra a este respeito, contribuindo com a promoção da saúde para uma vida cada vez mais plena.
Nesse sentido, chamamos a atenção para as três reflexões que propomos sobre este tema. A primeira, uma entrevista feita com a Luciana Cangussu, terapeuta e mestre em Teologia, na qual percebemos a importância da integração pessoal, como fruto da espiritualidade, na busca por uma vida saudável. A segunda, o artigo de Tânia Mayer, mestre em Teologia, sobre o olhar teológico para a realidade atual, na qual ainda vemos o descaso por parte daqueles que deveriam zelar e promover a saúde, sobretudo dos pobres e marginalizados. A terceira, por fim, o artigo do Diácono Paulo Taitson, Assessor Eclesial da Pastoral Hospitalar, da Arquidiocese de Belo Horizonte, em que ele reflete sobre a importância desse trabalho pastoral, no paradigma da ação do próprio Cristo, o Bom Pastor, como possibilidade de dignificação e humanização dos sofredores.
*Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Coordena, ainda, a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).




