Os Evangelhos são mais do que histórias, são manuais de discipulado. Supõe-se que nos achemos neles, nossas forças e esperanças, nossos medos, nossas fraquezas.
Por Terrance Klein*
O que entra para a história como a “Maldição de Sangue” só é encontrado na Paixão segundo São Mateus. Em todos os evangelhos, os líderes judeus em Jerusalém estão implicados na morte de Jesus, enquanto no evangelho de Lucas, a cruz mesma, composta por pessoas comuns, é inerente a Cristo.
Nos quatro Evangelhos, antes de Jesus ser sentenciado a morte, Pilatos declara a inocência de Cristo, mas só em Mateus a multidão reage extremamente forte ao governador.
“Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso. E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” Mt 27,24-25
Por outro lado, a tensão do cristão vê nesta resposta à Pilatos uma maldição proferida pelos próprios judeus à respeito da morte do Messias. No tratado de 1543 de Lutero “Sobre os judeus e suas mentiras” chamando à queima das sinagogas e as casas dos judeus, o autor escreveu: “Somos culpados de não atacá-los até a morte”. Como outros cristãos deste tempo, incluindo católicos, a Reforma também endossou o libelo do sangue – a lenda de que os Judeus matavam crianças cristãs com propósitos rituais. Isto é o que acontece por nos centrarmos só numa linha das Escrituras em vez de olhar a misericórdia de Cristo, sobre quem elas testemunham e a partir de quem são interpretadas.
Os Evangelhos são mais do que histórias, são manuais de discipulado. Supõe-se que nos achemos neles, com nossas forças e esperanças, nossos medos, nossas fraquezas. Santo Inácio de Loiola entendeu isto quando insistiu aos seus seguidores, em orações, que imaginassem a si mesmos como os personagens de um relato das Escrituras. Orando com o Evangelho, cada cristão deve entender: uma parte de mim aceita Cristo, a outra parte o despreza.
Abrindo a perspectiva na reflexão do Evangelho de Mateus encontramos o exemplo de reconhecimento das nossas aparentes rupturas interiores. Nas narrativas da infância, alguns judeus aceitavam o rei recém-nascido: Maria e José. Alguns o rejeitavam: Herodes, os sacerdotes e os escribas. Também é verdade que José de Arimateia, Maria Madalena e os discípulos o receberam, enquanto os sacerdotes, os fariseus e os guardas o rejeitaram.
Lembremos que o Evangelho de Mateus foi escrito por judeus cristãos, que tinham acabado de atravessar pelo terrível cenário que foi a destruição de Jerusalém. As famílias foram despedaçadas com as perguntas sobre Jesus e o judaísmo. O Evangelho de Mateus reflete este terrível e doloroso debate interno, fazendo ainda mais dolorosa a insistência mateana de que inclusive os gentios, devidamente dispostos, podem reconhecer e receber a Cristo.
Novamente, o modelo se repete. Nas narrativas da infância, os reis magos chegam para prestar homenagem a Jesus. Na narrativa da Paixão, a esposa de Pilatos, uma gentil, recebe o sonho revelador acerca de um homem que se levantava frente ao seu marido.
Alguns, de forma desmedida, sugeriram tirar esta passagem, mas a Escritura, copiada e colada, não tem autoridade porque aqueles que editam já se estabeleceram como os árbitros finais.
Não, nós devemos ver esta passagem como os primeiros cristãos judeus, reconhecendo suas próprias cisões internas, não simplesmente no familiar, senão neles mesmos. Essa é a divisão que fica em todo coração humano desse lado interno da sepultura.
Talvez um outro grande luterano poderia ser evocado. Na sua "Paixão segundo São Mateus" Johan Sebastian Bach segue a maldição do sangue com a magistral alto aria “Können Tränen meiner Wangen”.
Se as lágrimas no meu rosto
Nada podem alcançar
Oh, toma meu coração!
E permita que,
do sangue que flui abundante das feridas,
Seja a taça da libação!
Bach incluía a todos nós. Nós odiamos a Cristo; nós não temos pena dele. Porém, como nós não podemos ser suavizados pela visão do seu sofrimento? Como pode isso não mover nossa alma? Isso nos move, com certeza, mas é suficiente? Do nosso lado, não. Da parte de Cristo, sim.
Para meditar: Mateus 21, 1-11. Isaías 50, 4-7. Filipenses 2, 6-11. Mateus 26, 14-27;66.
Traduzido por Ramón Lara
America
Terrance Klein é padre e trabalha na diocese de Dodge City. É autor do livro Vanity Faith .




