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Outros movimentos grevistas históricos do século 20

Outros movimentos históricos do século 20

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Convocação da greve de 21 de julho de 1983 e fundação da CUT em 28 de agosto. Novo sindicalismo contra a recessão e os generais

1983: nasce a CUT

Entre o movimento de 100 anos atrás e o surgimento do novo sindicalismo, a partir dos anos 1980, o mundo do trabalho experimentou grandes transformações. No plano da regulamentação, a Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, e a Constituição de 1988 contribuíram para solidificar uma visão mais civilizatória da relação capital-trabalho. A primeira, ainda sob a ditadura do Estado Novo; a segunda, em plena reconstrução democrática depois do golpe de 1964. 

Veio do novo sindicalismo a inspiração para a construção da greve geral convocada para 21 de julho de 1983. O pano de fundo foi a paralisação dos petroleiros de Paulínia, no interior de São Paulo, e de Mataripe, na Bahia, atingindo as refinarias do Planalto (Replan) e Landulpho Alves (Rlam). O governo, ainda sob o comando de um general-presidente (João Figueiredo), havia baixado o Decreto-lei 2.036, de 28 de junho, restringindo salários em estatais e direitos de funcionários novos.

Em 13 de julho, viria o DL 2.045 – com uma política salarial que limitava os reajustes a parte da inflação –, em que o governo diz que "as perspectivas da política econômica para os próximos anos estão a exigir a efetiva participação do povo brasileiro no programa de estabilização da economia nacional". Mesmo com Brasília sob estado de emergência, em outubro o Congresso derrubou esse decreto. Outros viriam.

Paulínia parou na noite de 5 de julho, antecipando em oito horas o movimento previsto para as 7h30 do dia seguinte, e na Bahia a greve começou no dia 7. O governo reagiu com intervenção no sindicato paulista e em outras entidades. No ABC, os metalúrgicos decidiram cruzar os braços em solidariedade aos petroleiros. Foi uma semana de paralisação, durante a qual centenas de funcionários da Petrobras foram demitidos. Mas o movimento é considerado um marco na resistência à ditadura civil-militar, que cairia formalmente em 1985.

Então secretário-geral do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Gushiken (1950-2013) lembrou em depoimento de um período mais delicado da entidade, por causa da cassação da diretoria no período. "A subsistência financeira e política se deu num quadro completamente adverso, porém se deu em um contexto político de ascenso das lutas reivindicatórias das massas, que permitia que uma direção, mesmo sem o aparato burocrático, mas gozando da legitimidade da categoria, dirigisse o movimento", afirmou, em depoimento ao site ABC de Luta.

A cassação da diretoria e a nomeação de um interventor foi uma retaliação do regime ao envolvimento da entidade dos bancários na greve. A intervenção duraria de agosto daquele ano até março de 1985, quando Gushiken seria eleito presidente do sindicato, semanas antes da morte de Tancredo Neves – cuja morte, anunciada em 21 de abril, levou ao poder José Sarney.

"O jornal diário (Folha Bancária) nunca foi paralisado, mesmo na época da cassação, e nossas reuniões foram realizadas em vários lugares. E isso vai até 1985, quando se faz a grande greve nacional (dos bancários), infringindo uma derrota aos banqueiros", disse Gushiken. Ele e Gilmar Carneiro, outro diretor afastado, chegaram a ser indiciados pelo Dops. 

Pouco mais de um mês depois da greve dos petroleiros, em congresso realizado entre 26 a 28 de agosto em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, seria fundada a CUT. Era o desfecho de um processo aberto dois anos antes, com a realização da 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), em Praia Grande (SP), que reuniu todas as tendências do movimento sindical, mas se dividiu em alguns temas-chave – como o da formação de uma central. Depois do congresso que criou a CUT, em agosto de 1983, ocorreria outra conferência, três meses depois, quando a sigla Conclat passou a significar "Coordenação", juntando o grupo que originaria a CGT, em 1986 – a central se dividiria em duas em 1989.

Primeiro presidente da CUT, o metalúrgico Jair Meneguelli considera a greve de 1983 "totalmente política". "Estávamos em um congresso em Piracicaba, passamos em Paulínia e ali nós resolvemos pedir à nossa categoria que se solidarizasse com os petroleiros", recorda. Era um tempo em que greve era sinônimo de proibição. "Nossas greves sempre foram decretadas ilegais", lembra. 

Ele mesmo chegou a ser preso durante panfletagem, em 1979, diante da Fris Moldu Car, fábrica localizada em São Bernardo. "A maioria saiu correndo, eu não corri. Aí fui dar uma volta de camburão, que nem carga."

Na greve dos metalúrgicos em 1980, a diretoria comandada por Luiz Inácio da Silva, o Lula, foi presa. Para manter o funcionamento do sindicato, Meneguelli lembra que havia o chamado Grupo dos 16, metalúrgicos que participavam das discussões da diretoria, mas não tinham mandato. Nessa época, as reuniões tinham de ser precedidas de alguma cautela, em locais só conhecidos na última hora. "Geralmente era o Bargas (Osvaldo Bargas, ex-diretor) que escolhia. Ele marcava um ponto em determinado lugar, a gente pegava um papelzinho com o local da reunião."

A primeira greve geral, com divergências, foi um marco da reorganização sindical no Brasil, depois de duas décadas de repressão. "O ano de 1983 que, fora do centro, divide a década, foi aquele em que a oposição (vitoriosa nas eleições estaduais de 1982) e o movimento sindical derrotaram no Congresso Nacional, pela primeira vez, um decreto-lei da ditadura (o 2.045, de arrocho salarial) e o movimento sindical paulista realizou a greve geral unitária de 21 de julho", escreveu, em 2014, o consultor sindical João Guilherme Vargas Netto, na Agência Sindical. "Mas os trabalhadores assistiram também, neste ano, a divisão orgânica de seu movimento com o congresso, em agosto, da CUT em São Bernardo e a Conclat, em novembro, na Praia Grande, que daria lugar à CGT."

1986: planos cruzados

Seria o governo Tancredo Neves, mas era o governo José Sarney, o vice (oriundo do regime anterior) que assumiu em 1985 com a morte do titular da chapa, encerrando 21 anos de militares na Presidência da República. No final de fevereiro de 1986, o governo lança o primeiro Plano Cruzado, um ataque "heterodoxo" à inflação, que no ano anterior havia chegado a 239%. A Fazenda era comandada por Dilson Funaro.

O plano trazia congelamento de preços e criava um "gatilho salarial": reajuste automático sempre que a inflação atingisse 20%. O presidente pediu que todos fiscalizassem os preços, e surgiu a expressão "fiscal do Sarney". O consumo explodiu, o desemprego caiu. A euforia durou pouco tempo – houve desabastecimento e volta da inflação –, mas foi suficiente para impulsionar o PMDB, que ganha quase todos os governos estaduais. Surge, então, o Cruzado 2, logo depois das eleições. Meses depois, Funaro é demitido e substituído por Luiz Carlos Bresser-Pereira.

Desgastado, o governo ensaiou um discurso de "pacto social" envolvendo trabalhadores e empresários, mas a iniciativa não prosperou. Jair Meneguelli lembra bem dos pedidos de pacto, como o proposto pelo então ministro do Trabalho de Sarney, Almir Pazzianotto.

"Nós não fomos. Era impossível fazer um pacto, porque era abrir mão do que já tínhamos perdido. Um pacto pressupõe cada um abrir mão de alguma coisa, nós não tínhamos mais o que abrir mão. Só se falava o bolo vai crescer, vai ser dividido, vai crescer, vai ser dividido… O bolo crescia e não era dividido." A expressão sobre o bolo foi cunhada, originalmente, pelo ministro da área econômica na ditadura Delfim Netto.

Toda greve tem "duas faces", observa Meneguelli, mas a de 1986 foi basicamente de motivação econômica, com a inflação descontrolada. "Era terrível. A gente fazia greve nas categorias, repunha parte da inflação, mas na semana seguinte já estava a inflação de novo.  Tinha de correr contra o tempo para ganhar da maquininha", diz, em referência à máquina de remarcar preços, muito comum em supermercados.

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Greve contra Plano Verão, no final da era Sarney. Nos anos seguintes, Collor introduz a cartilha neoliberal, que Temer retoma

 

1989: clima eleitoral

Em 1989, o Brasil voltaria a ter uma eleição para presidente da República, a primeira desde 1960. O motivo principal para a greve convocada para 14 e 15 de março pela CUT e pela CGT, únicas centrais existentes na época (a Força Sindical surgiria em 1991), era outro plano de estabilização – a inflação havia fechado o ano anterior perto de 1.000% –, o Verão, pilotado por Maílson da Nóbrega, o mesmo que hoje dá aulas de como sair da crise, mas a pauta incluía assuntos como reforma agrária e não pagamento da dívida externa.

O movimento atingiu todo o país, em alguns locais com mais intensidade. Os ônibus não circularam em São Paulo, por exemplo. O número de usuários caiu aproximadamente 40% no Metrô. As centrais estimaram a adesão em 70% no país. Entidades patronais, como Fiesp e Febraban, afirmaram que a adesão na capital paulista não passou de 30%. Logo após a greve, a ministra do Trabalho, Dorothea Werneck, afirmou que o governo discutiria com trabalhadores e empresários um novo cálculo de reposição de perdas salariais, mas disse que a medida já havia sido decidida antes de paralisação.

A campanha eleitoral ainda não havia começado, mas o tema já agitava o país. O ex-presidente da CUT lembra, por exemplo, de uma divergência pública com o então secretário-geral do PT, José Dirceu, para quem a greve geral poderia prejudicar a candidatura Lula. Possivelmente não teve influência. Lula superou Leonel Brizola e foi ao segundo turno contra Fernando Collor.

2017: contra reformas

"Para mim, greve é sempre resultado do fracasso de um diálogo. Ninguém gosta de fazer greve", analisa Meneguelli, para quem não faltam motivos para protestar atualmente. "Terceirização aprovada ao arrepio do movimento sindical, uma reforma da Previdência sem transparência, sem participação de toda a sociedade…" Ele lembra que, quando deputado, retomou um projeto sobre terceirização, "discutido amplamente" com os vários atores sociais. "Não havia nenhuma regulamentação. Não havia regras, nenhuma proteção."

O projeto chegou a ser aprovado e seguiu para o Senado, mas foi, segundo Meneguelli, desfigurado pelo relator, o ex-governador da Bahia Paulo Souto. Com mudanças, voltou para a Câmara e terminou engavetado.

O ex-presidente da CUT diz que preferia usar outros termos em vez de "greve geral", difícil de organizar em um país do tamanho do Brasil. "O que era preciso era ter paralisações em todos os estados, e isso a gente conseguia."

Ele recorda ainda das dificuldades de organizar um encontro naquele período (anos 1980), quando não havia celular e nem redes sociais. "Hoje, em uma semana, você convoca 1 milhão de pessoas para uma manifestação. Chamar os sindicatos para o congresso de fundação da CUT (em 1983) era um trabalho de alguns meses." Para ele, o movimento sindical precisa conhecer melhor suas bases, ouvir mais os trabalhadores. "O perfil mudou. Estamos perdendo para as redes sociais."