Toda religião, para ser verdadeira, isto é, verdadeiro reatar, pressupõe uma dimensão ética, de transformação de seus adeptos.
Por Felipe Magalhães Francisco*
A modernidade esperou pelo fim da religião: Freud, Marx e Nietzsche que o digam! Esperava-se que o ser humano, amadurecido e sabedor de si, se pusesse em liberdade da tutela de Deus e, por consequência, da religião. A espera foi acertada, em partes: as religiões continuam aí, mas não como antes. Nestes tempos pós-modernos nos quais vivemos, as instituições são relativizadas e, até mesmo, rechaçadas: elas não ditam mais, para a maior parte das pessoas, um modo de vida. É certo que as instituições religiosas continuam influentes, mas os seus adeptos criam caminhos próprios: aceitam o que lhes parece ter sentido e negam aquilo que soa estranho e intransigente. Agrega-se, ainda, elementos de outras tradições religiosas.
Não há uma definição suficientemente satisfatória para o que seja a religião. A mais usual, mas não unânime, é que o papel da religião é o de religar, isto é, o de reatar o vínculo quebrado entre o ser humano e o mistério transcendente. Ora, se o sujeito moderno, sabedor de si, sabe-se capaz de acorrer, por si próprio, a esse mistério transcendente, qual a necessidade da religião, como instituição mediadora desse reatar? Aparentemente, não há necessidade alguma, mas as igrejas, templos e semelhantes continuam a ser bem frequentados e, pelo menos no cristianismo, uma religião de massas tem sido bem valorizada.
Sabe-se que as pessoas continuam religiosas, estando elas ligadas a alguma religião, ou não. Ao que parece, o acesso ao mistério transcendente, que o cristianismo nomina como sendo Deus, não depende mais da mediação institucional, em grande parte: subjetivamente se faz um caminho próprio. Há reconhecíveis exceções, certamente. Algumas dessas exceções, repito, algumas, podem ser identificadas como magia: o cliente religioso busca, por meio de uma figura institucional, o mago (no caso do catolicismo, o presbítero), a realização de um desejo, mas sem vínculo de pertença, sem tomar parte, em comunhão, com os outros clientes.
Deus se revela de modo salvífico, indiscriminadamente, em toda a sua criação. Não é preciso religião para que essa revelação seja recebida: basta abertura e receptividade. Isso, contudo, não significa que não haja importância para a religião. O aspecto comunitário, aqui, parece-nos ser essencial. Toda religião, para ser verdadeira, isto é, verdadeiro reatar, pressupõe uma dimensão ética, de transformação de seus adeptos. E nisso reside a diferença, ao nosso ver, da religião para a magia: na religião, o vínculo de fraternidade criado entre os adeptos é fundamental. Esse vínculo, nutrido entre os membros de uma mesma religião, por exigência ética, precisa dar frutos para a sociedade como um todo.
Dessa maneira, diante de uma sociedade exacerbadamente individualista, o papel da religião, de criar laços de fraternidade e solidariedade que se desdobram em ações de justiça e paz, é fundamental. Ela promove, naturalmente, o encontro das pessoas, possibilitando que se estabeleçam relações. Contudo, ela só será capaz de exercer bem o seu papel, quando não absolutiza a instituição, com suas normas e doutrinas, e sim quando contribui para o amadurecimento humano de cada um e de cada uma de seus seguidores.
*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.
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