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Tempo

A gratidão em desuso

Com a perda das palavras, automaticamente vem a perda das ações que as motivam.

 

A tecnologia distancia as pessoas, e literalmente desumaniza-as. (Pixabay)

Por Evaldo D’ Assumpção*

Aproxima-se o Natal, ocasião em que a nossa sociedade, insanamente consumista, ignora que estamos celebrando o maior presente que poderíamos receber, que é o próprio menino-Deus, e transforma-a numa época, tão somente, para dar e receber presentes, quase sempre como meras “retribuições por obrigação”. No dia em que se comemora o nascimento daquele que tantos dons e benefícios nos concede, sequer lembramos de dizer-lhe um simples “Obrigado, Senhor!” por tudo o que nos tem proporcionado. A gratidão está em desuso.

Recordo-me da minha infância, na qual meus pais nunca se descuidaram de proporcionar-me a melhor educação possível. Esse, o maior presente que me deram, e pelo qual sou imensamente agradecido. E entre os ensinamentos, solidamente fixados em minha mente, um deles sobressai: a gratidão. Sempre me recordo de que, recebendo alguma coisa, um objeto, uma atitude, uma palavra elogiosa ou estimulante, fosse de quem fosse, meu pai ou minha mãe, atentos à minha reação, diziam-me: “O que você diz a ela?” referindo-se à pessoa que me dera aquele agrado. E eu, saindo do meu encantamento pelo que que recebera, imediatamente manifestava minha gratidão, dizendo: “Obrigado!”.  

Os anos se passaram, tornei-me adulto, em seguida uma pessoa madura, um idoso, mas sem perder o hábito de agradecer, por tudo e a todos, o que recebo, material ou verbalmente.

Hoje, oito décadas bem vividas, observo, com tristeza, a quase total ausência dessa palavra tão singela, que não demanda qualquer esforço maior que um único movimento respiratório: “obrigado!” O que dizer então das outras palavras que geralmente devem anteceder a motivação para o agradecimento, tais como: “com licença”, “por favor”, “posso?” Parece até que todas elas foram excluídas do nosso vocabulário. Resolvi rever meu bastante manuseado Houaiss, e nele constatei que ainda existe a palavra mágica: “obrigado”, tanto quanto suas antecessoras já referidas. Portanto, oficialmente ela não está extinta. Mas, com o advento da informática, onde reina hoje, soberano, o “smartphone” – em tradução direta, “telefone inteligente” (ele o é, seus usuários nem sempre).. – o modus vivendi foi totalmente alterado. Melhor dizendo, adulterado e acelerado. Os hábitos sociais, a inter-relação entre os humanos, foi completamente modificada. Se muitas pessoas já estavam abandonando o modo civilizado de nunca passar entre duas pessoas sem dizer “com licença”, ou de nunca pegar alguma coisa que não era seu, sem perguntar: “posso?”, ou jamais pedir alguma coisa sem anteceder seu pedido com um “por favor”, depois do tal smartphone, as relações se deterioram. Hoje, quase todos andam, ou ficam parados em qualquer lugar, ou sentam-se num restaurante, num cinema, sozinhos ou acompanhados (fisicamente), sem afastar seu olhar da fascinante telinha desses aparelhos. E ela hipnotiza as pessoas de tal forma, que tornou-se quase impossível alguém ser visto sem o dito cujo em suas mãos, mesmo nos lugares mais inapropriados. Hoje, o maior número de atropelamentos, e grande parte dos abalroamentos, ocorrem porque todos tudo fazem sem desviar seu olhar daquele mundo mágico, daquele paraíso móvel que se reflete nas seis, oito ou mais polegadas coloridas, a poucos centímetros do seu nariz. E mesmo em casa, no escritório, até em ambulatórios médicos, vemos as mais diferentes pessoas, de grupos etários os mais variados, literalmente dominadas pelo seu celular. Muitos, também com os ouvidos obstruídos pelos fones a eles conectados, todos totalmente desatentos e surdos ao ambiente que os rodeia.

Desvanece-se então a principal característica dos humanos, que é a comunicação verbal, articulada e lógica, transformando-os em fonófobos, com dedos mais ágeis do que os dos símios, nossos ancestrais, que não falam, mas têm uma enorme agilidade manual. Com isso, o primeiro conjunto de palavras que se perde, é exatamente aquele que usamos para nos revelar humanos, sociáveis, educados, civilizados, e especialmente gratos.

Com a perda das palavras, automaticamente vem a perda das ações que as motivam. Hoje, receber o agradecimento de uma pessoa, é coisa rara. Se ações mais significativas, benefícios maiores, já não merecem uma palavra de gratidão, o que dizer das coisas menores que fazem parte do dia-a-dia? Aquelas que quando feitas em favor de alguém, se dela for cobrado uma palavra, um gesto de reconhecimento, certamente será ouvido como resposta: “Ora, ele não fez nada demais!” Ou: “Não fez mais do que sua obrigação!” E com isso, a gratidão, a retribuição por algo recebido vai se perdendo, e deixando as pessoas cada vez mais rudes, mais grosseiras, mais desagradáveis. Até retribuir uma saudação, um gesto de carinho, um beijo afetuoso, perdeu o significado. Tipo “ele fez por que quis”. E as atitudes mais carinhosas, mais gentis, deixam de ter importância, caindo na fossa das coisas comuns, insignificantes.

Costumo ouvir pessoas se queixando de que entre ela e seu esposo, esposa, namorado, namorada, já quase não existem manifestações de amor. Tudo é substituído pela praticidade, pela mecanicidade. A tecnologia distancia as pessoas, e literalmente desumaniza-as. E assim a vida vai se tornando mais áspera, pouco agradável, e a consequência vem sendo a separação das pessoas, a valorização do viver sozinho. Prova disso são as ofertas do mercado imobiliário, a cada dia mais cheio de apartamentos de um quarto, quitinetes, estúdios e flats. Áreas totais de absurdos 10m², chegando ao máximo de 50m². No oriente já se fazem cápsulas-residenciais, mas pela falta de espaço. E aqui, onde sobram espaços para se viver plena e felizmente, com a companheira, o companheiro, por que os cubículos residenciais? Fica o questionamento.

* Evaldo D’ Assumpção é médico e escritor

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