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Na calada da noite, Bolsonaro entregou a Eletrobrás e enterrou a Era Vargas, como queria FHC

"O golpe de estado de 2016 começou com a entrega da Petrobrás e prossegue com a entrega da Eletrobrás", escreve Leonardo Attuch, editor do 247

 

10 de junho de 2022, 08:59 h.

 

 

Bolsonaro, Vargas e FHC (Foto: Isac Nóbrega/PR Fernando Frazão/Agência Brasil Wilson Dias/Agência Brasil)

 

 

Em dezembro de 1994, quando estava prestes a assumir a presidência da República pela primeira vez, o então senador Fernando Henrique Cardoso subiu à tribuna para se despedir do parlamento. O discurso entrou para a História porque anunciou qual seria a linha mestra de seu governo: o enterro da Era Vargas. "Eu acredito firmemente que o autoritarismo é uma página virada na História do Brasil. Resta, contudo, um pedaço do nosso passado político que ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade.

Refiro-me ao legado da Era Vargas — ao seu modelo de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista", disse FHC. O ex-presidente tucano privatizou muito, mas não tudo. Um de seus sonhos, o de criar a "Petrobrax", fracassou. E, como todos sabem, ele entregou o Brasil ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quebrado e no colo do Fundo Monetário Internacional. Com a descoberta do pré-sal, Lula e sua então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, emularam os gestos do ex-presidente Getúlio Vargas, ao manchar as mãos com o petróleo brasileiro, que seria o "passaporte para o futuro". Mas o pré-sal, em um Brasil controlado por oligarcas entreguistas e militares idem, se converteu em maldição.

Em 2013, com as "jornadas de junho", e movimentos como o "Vem pra Rua", apoiados por oligarcas bilionários, como o dono da Ambev, Jorge Paulo Lemann, começou a ser organizado o golpe de estado contra a ex-presidente Dilma Rousseff. O objetivo principal era transferir a renda do pré-sal dos brasileiros para os acionistas privados da Petrobrás. Pouco depois do afastamento de Dilma, a primeira medida adotada pelo usurpador Michel Temer foi a mudança no marco regulatório do petróleo e na política de preços da Petrobrás, hoje a causa principal da inflação brasileira e que explica o fato de o Brasil ter 33 milhões de pessoas passando fome.

Com as eleições de 2018, conduzidas por instituições controladas por oligarcas que apoiaram a prisão de Lula, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes chegaram com a missão de aprofundar a agenda de FHC, qual seja, a de "enterrar a era Vargas". Até recentemente, a única crítica que vinha sendo feita pela mídia liberal e corporativa a Guedes era o fato de ele não ter entregue nenhuma privatização relevante. O desemprego, o crescimento medíocre e a inflação não eram o problema. Pois na noite da quinta-feira 9 de junho, Guedes finalmente conseguiu entregar uma privatização: a da Eletrobrás, vendida na calada da noite e a preço de banana. Construída com o sangue, suor e lágrimas dos brasileiros, a Eletrobrás agora é controlada por fundos locais e internacionais. Os maiores acionistas privados agora são o grupo 3G, de Jorge Paulo Lemann e seus sócios na Ambev, e o Banco Clássico, de José Abdalla Filho.

A entrega da empresa por Jair Bolsonaro não tem como objetivo garantir energia barata para o desenvolvimento brasileiro. Ao contrário: é um projeto de subdesenvolvimento, que visa encarecer a energia dos brasileiros para garantir o retorno aos acionistas, que já são bilionários. Bolsonaro pode não ter a mesma educação de FHC, mas foi muito mais eficiente na condução de sua agenda econômica, que consistia na destruição do estado brasileiro, para enriquecer um pequeno grupo de oligarcas parasitas. Na prática, ele conseguiu enterrar a Era Vargas, a de um ex-presidente nacionalista que, em sua famosa carta-testamento, apontou as forças que estiveram por trás do seu suicídio.

"Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre", escreveu Vargas. Estas forças que levaram Vargas ao suicídio são as mesmas que derrubaram Dilma e prenderam Lula. E quando o ex-presidente voltar, se voltar, estarão unidas, patrocinando editoriais de jornais para tentar convencer os brasileiros que a política de preços da Petrobrás não pode ser alterada e que "contratos", como a privatização da Eletrobrás, não podem ser desfeitos. Em sua carta-testamento, Vargas mandou uma mensagem para o futuro.

"Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História", escreveu. Que suas palavras iluminem o Brasil e os brasileiros.

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.

 

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