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Lanceirinhos Negros reconta a Revolução Farroupilha para as crianças

Após mais de um século de apagamento histórico de soldados negros na Revolução Farroupilha, mãe veste o filho para que represente sua ancestralidade

O projeto Lanceirinhos Negros propõe às crianças gaúchas uma educação antirracista contando a versão dos lanceiros vencidos da Revolução Farroupilha (Foto: Angélica Weise / Lunetas)

Era 20 de setembro, dia do gaúcho na cidade de Porto Alegre (RS), quando Edjana Deodoro preparava o filho Caio, 3, com a tradicional pilcha para celebrar a Revolução Farroupilha na escola. Enquanto vestia o menino com bombacha, bota, cinto, chapéu, colete e lenço, ela achou que não fazia sentido uma criança preta incorporar heróis que, fora da narrativa perpetuada, foram “traidores e assassinos de nossos ancestrais”, diz.

Foi então que a mãe, educadora popular antirracista, teve a ideia de fazer uma roupinha de Lanceiro Negro para que Caio chegasse na escola representando seus próprios heróis, que contribuíram para “angariar vitórias para a tropa da qual faziam parte, com destreza, garra e sabedoria”, como afirma Jorcenita Alves Vieira, bibliotecária da Universidade de Santa Cruz do Sul e professora de história e filosofia da rede pública.

Todos os anos comemora-se a tradicional Semana Farroupilha, no Rio Grande do Sul, para rememorar a guerra civil mais longa do Brasil, iniciada em 20 de setembro de 1835 e que se estendeu até 1845. Na Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos, combatentes republicanos se posicionaram contra o governo imperial. Os Lanceiros Negros lutaram pela causa republicana acreditando na liberdade. Apesar do ideal ser a independência de uma república, os líderes revolucionários eram defensores da escravidão assim como seus inimigos. Por isso, no final da guerra, as promessas de liberdade não foram plenamente cumpridas. Os lanceiros negros sobreviventes que não escaparam para quilombos ou para o Uruguai acabaram enviados à corte, no Rio de Janeiro, onde seguiram escravizados até a Lei Áurea, 43 anos depois.

Por muito tempo “as narrativas tradicionais apontaram o discurso de que os farrapos lutavam por liberdade e autonomia, contudo os revoltosos dependiam da escravidão e defendiam sua manutenção”, afirma Rafael Trapp, doutor em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que tem pesquisas sobre história afrobrasileira e a história do pensamento social negro no Brasil. “Apesar de alegações ideológicas posteriores de luta por identidade e distinção regional, a guerra ocorreu por interesses primariamente econômicos, motivada por uma elite rural que buscava autonomia política e econômica para manter privilégios e posições de poder.”

Ao refletir sobre a falta de protagonismo dos soldados farroupilhas negros, Deodoro aproveitou a oportunidade para explicar ao filho que ele estava vestido de Lanceiro Negro, “para que ele entendesse e pudesse responder do jeito dele a qualquer constrangimento”. Na escola, apesar do elogio da professora, sua expressão revelava que “poucos conhecem a real história e conseguem reconhecer um Lanceiro Negro”, conta a mãe. Para ela, as celebrações da Semana Farroupilha, “mesmo depois de tantos anos, continuam tentando nos colocar em senzalas expostas para turistas ou como escravos cativos em apresentações de danças tradicionalistas”.

Educação antirracista: crianças protagonistas e multiplicadoras de suas histórias
“Promover uma educação antirracista, na prática, é combater qualquer expressão de racismo. É denunciar. É ser combativo, reativo, incisivo. É não se omitir. É, acima de tudo, assumir abertamente que o racismo existe, permeia nossas instituições e relações sociais”, afirma a professora Vieira.

Em 2021, para reunir “mais crianças que também entendiam a história dos Lanceiros Negros”, a educadora Deodoro se juntou ao Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode – Movimento de Luta e Valorização da Cultura Negra, de Porto Alegre, para realizar o primeiro acampamento dos Lanceirinhos Negros, com trilhas, aulas, comida típica e brincadeiras. Em 2022, 50 crianças participaram da experiência.

Para Leandro da Cruz Soares, pai de Maria Eduarda, 7, uma das participantes do projeto, a educação antirracista é importante para que o outro lado da história seja contado na escola e em ambientes extraclasse. “É necessário para o aprimoramento da cultura afro, ainda mais em um estado tóxico como o Rio Grande do Sul”. Maria Eduarda sentiu-se “muito feliz, representada e empoderada”.

“Essa oportunidade tem fortalecido o retorno à ancestralidade, às origens e potencializado a autoafirmação na minha filha”, diz Luciana Conceição Lemos da Silveira, mãe de Aisha, 7. Carmen Suzana Costa Custódio, mãe do Yhan, 9, considera a iniciativa “uma forma interdisciplinar e qualificada que oferece referências positivas para as crianças em relação à negritude, num contexto em que nossos antepassados eram escravizados”, diz.

“Construir-se negro dentro de uma sociedade racista não é fácil”

Para José Antônio dos Santos, professor de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, iniciativas como essa que “retiram da nossa história exemplos positivos frente a uma sociedade que ainda vive sob o racismo estrutural, é importante para que crianças negras tenham, desde muito pequenas, outra perspectiva de construção de sua própria historicidade”. Vieria complementa: “Por meio do resgate histórico, a criança negra pode reconhecer os heróis e heroínas negras e desconstruir as imagens negativas amplamente forjadas para elaborar sua identidade.

Uma vez que o “Rio Grande do Sul costuma exaltar sua ascendência europeia, mas apaga a contribuição dos povos negros na sua construção”, o escritor Jeferson Tenório, autor do premiado livro “O avesso da pele” e radicado em Porto Alegre, considera que a história dos lanceiros negros “é conhecida, mas não é valorizada”. Por isso, ele defende uma constante valorização da cultura negra no estado, tanto nas escolas quanto na sociedade de modo geral”.

Outro exemplo de ação que busca recontar essa história é o coletivo Afronte, formado por profissionais negros graduados com o apoio de políticas públicas. Criado em 2015, o grupo busca empoderar e ocupar espaços com debates sobre o racismo na cultura gaúcha para pôr fim às homenagens a figuras racistas e escravagistas, além de reposicionar Porongos como símbolo da luta contra a escravidão. “O episódio da ‘Traição de Porongos’ desarmou sorrateiramente um destacamento de soldados negros das forças farroupilhas, deixando-o indefeso para o ataque feroz das forças imperiais, em novembro de 1844”, diz Trapp.

Uma história não contada e os negros invisibilizados
“Na escola, eu não aprendi nada sobre os lanceiros”, comenta Luiza, 8, estudante da rede estadual de Santa Cruz do Sul (RS). No estado, os festejos farroupilhas que celebram a cultura gaúcha começam na educação infantil, mas a contribuição dos Lanceiros Negros e o reconhecimento histórico desse agrupamento militar composto por negros escravizados não costuma ser homenageado nas comemorações de 20 de setembro.

Para resgatar a história dos Lanceiros é importante considerar a Lei 10.639 de 2003, aprovada no Congresso Nacional, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afrobrasileira em todas as redes escolares do país. Em pesquisa recente realizada pelo Instituto Alana em parceria com Instituto Geledés, foi levantado que sete em cada dez secretarias municipais de educação pouco ou nada fazem para implementar a lei. Além disso, falta planejamento para projetos permanentes durante todo o ano escolar. De acordo com a pesquisa, 69% das secretarias responderam que a maioria das escolas aborda o tema somente no mês do Dia da Consciência Negra, em novembro, embora mais de 20% tenha interesse em falar sobre o assunto. Outro projeto de lei que visa inserir o combate ao racismo no currículo escolar é o 288/2022, aprovado em junho pela Comissão de Direitos Humanos.

Segundo o professor Santos, um dos entraves é a negação do racismo. “Pensar uma educação antirracista é assumir que vivemos numa sociedade racista. A ideia de que somos todos iguais ou que o Brasil vive de forma harmônica as questões sociais e étnico-raciais não é verdadeira, mas boa parte da sociedade brasileira acaba aceitando essa ideologia de democracia racial.”

“Nada especificamente relacionado à cultura negra foi vivenciado por ele na escola ainda”, afirma Aline Silva, mãe do Miguel, 3. Para ela, aprender a história negra ajuda a reconhecer e estabelecer vínculos ancestrais. “Há poucos dias, meu filho trouxe o livro ‘Menina bonita do laço de fita’, cuja protagonista é uma menina negra. Mas esta foi uma escolha aleatória e não orientada. Falta conhecimento, investimento e interesse para que a lei se aplique e a cultura do povo preto seja difundida.”

Ao lamentar a defasagem na abordagem de temas afrobrasileiros nas escolas, o historiador Sergio da Silva comenta: “A história do Rio Grande do Sul é mal contada porque ela é narrada pelo viés da branquitude e historicamente por aqueles que detiveram o poder.”

“A luta antirracista não é uma luta dos negros contra os brancos. Essa é uma luta de negros e brancos contra o racismo”

Um novo olhar para a história gaúcha
Para trazer o tema para a sala de aula, a Comissão de Educação (CE) aprovou o PL 3.493/2021, que propõe a inclusão dos Lanceiros Negros no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Podem ser inscritos no livro brasileiros que tenham oferecido a vida para a construção ou defesa do país com excepcional dedicação e heroísmo, desde que decorridos 10 anos de sua morte. O livro fica guardado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília.

*Reportagem: Angélica Weise – Site Lunetas