Tarifa imposta pelos EUA foi menor que para outros países

No “tarifaço” de ontem do presidente americano, Donald Trump, contra diversos países, o agronegócio do Brasil pode ser um dos setores menos afetados. Na visão de especialistas, como a tarifa sobre os produtos brasileiros será de 10%, o menor nível dentre todas as anunciadas, isso pode até garantir competitividade dos produtos do Brasil que concorrem com países que serão mais taxados.
“Como a tarifa de 10% [sobre os produtos brasileiros] foi a mais baixa de todos, então isso preserva um pouco o Brasil”, avalia Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global. Para ele, o maior efeito do tarifaço será a alta dos preços finais ao consumidor americano.
Um dos produtos brasileiros que devem ter vantagem em relação aos seus concorrentes no mercado americano é o café. Hoje, os EUA não taxam nenhuma importação do grão, mas com as novas tarifas, o café brasileiro entrará no país com taxa de 10%, enquanto seu concorrente do Vietnã será tarifado em 46%. Já o café da Colômbia, outro concorrente do Brasil, também foi taxado em 10%.
Para Luiz Pacheco, da T&F Consultoria Agroeconômica, o Brasil “vai sofrer pouco” com as sobretaxas de Trump e pode até ampliar o comércio agrícola. Em dez anos, as exportações do agronegócio brasileiro aos EUA praticamente dobraram, para US$ 12 bilhões em 2024.
“O mais importante é que o Brasil pode se beneficiar de um potencial aumento de demanda [de soja] de importação de China e da União Europeia, e até dos EUA”, afirmou Pacheco.
O anúncio de Trump na tarde de ontem discriminou tarifas gerais aos países, mas ainda há dúvidas sobre como serão aplicadas. Há quem entenda que as taxas serão somadas às tarifas que os EUA já aplicam e há quem entenda que os valores passam a ser as tarifas mínimas para cada país.
Há dúvidas, portanto, sobre o que ocorrerá com as exportações brasileiras de etanol. Atualmente, os EUA aplicam uma tarifa de 2,5% sobre o biocombustível do Brasil. Se a nova tarifa for cumulativa, a tarifa final ficará em 12,5%; senão, ficará em 10%.
Também há dúvidas sobre como serão tratados os produtos que se beneficiam de cotas preferenciais. É o caso da carne bovina. Os EUA já cobram 26,5% sobre as importações da carne brasileira, mas o Brasil se beneficia de uma cota isenta de 65 mil toneladas, compartilhada com dez países. Um desses é a Austrália, hoje o maior fornecedor de carne aos EUA, também taxada em 10%.
Para a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), a expectativa ainda é positiva para as importações americanas. “Acreditamos num estreitamento da parceria porque os EUA enfrentam desafios no ciclo pecuário e, por pelo menos dois anos, precisarão de quem possa garantir volume, qualidade e preço — e esse parceiro é o Brasil”, disse, em nota.
Outro caso é o açúcar. Os EUA cobram cerca de 80% sobre as importações globais de açúcar, mas mantêm uma cota preferencial isenta de tarifa para 40 países, sendo que ao Brasil cabe cerca de 14% do volume, definido anualmente.
Nesse comércio, a perspectiva é de redução das importações, mas não por causa das tarifas. “Os EUA estão produzindo acima do recorde, após estoques elevados”, diz Marcelo Filho, analista da StoneX.
O receio do setor é que o tarifaço pressione o Brasil a abrir mão de sua tarifa de 18% sobre a importação de etanol dos EUA.
Fonte: Globo Rural