Ao Brasil de Fato, Rafael Cortez comenta a complexificação das investigações

O que começou como um caso de fraude bancária de proporções bilionárias ganhou contornos de organização criminosa com as revelações da Operação Compliance Zero. A descoberta de uma milícia privada, ameaças, agressões e a morte de Luiz Felipe Machado de Moraes Mourão – o “Sicário” (termo que designa um assassino de aluguel) – sob custódia da Polícia Federal em Minas Gerais, escancaram a teia que envolve políticos, servidores do alto escalão do Banco Central e figuras do Judiciário.
“Não há dúvida de que há dificuldades adicionais para o esclarecimento do que de fato estava acontecendo. Essa incerteza tem muito a ver com uma característica desse jogo político: a própria definição de quem era aliado ou adversário mudava muito ao sabor das circunstâncias”, aponta Rafael Cortez, cientista político, ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Cortez explica a complexidade do caso, que envolve muito recurso financeiro, estreitamento de contatos oriundos dos mais diversos espaços da elite política e de comunicação do Brasil. “Mas a maneira como isso ia se construindo era muito volúvel. Não vai ser fácil fazer esse quebra-cabeça para entender o que de fato aconteceu do ponto de vista jurídico”, acrescenta.
O escândalo que, em um primeiro momento, estava no bojo de uma questão financeira, aos poucos aumentou em complexidade. Cortez explica que “passamos a pensar em tráfico de influências envolvendo os três Poderes da República. A descoberta de ontem nos aproxima da formação de uma organização criminosa”.
“São vários pedaços de um caso que deixou de ser simplesmente um caso. Passou a ser uma estrutura do Estado, uma maneira como os interesses chegam à estrutura do Estado, como são perturbados. Cometimento de crime com participação de agentes públicos é uma situação muito delicada. Todos os adjetivos parecem ainda não dar conta do que potencialmente estava acontecendo”, destaca.
Cortez analisa os efeitos imediatos na política. “Aquele movimento de tentar abafar ou deixar de lado por conta de questões eleitorais vai ficando muito complicado de ser feito. Esse movimento começava a gerar divisões e constrangimentos dentro de cada um dos Poderes.”
Sobre a possibilidade de Daniel Vorcaro firmar um acordo de delação premiada, o analista político pondera. “Há uma dimensão jurídica: o entendimento das condições para o exercício da delação. Assumindo que legalmente há essa possibilidade, a questão é de estratégia da defesa.”
Ele explica a lógica por trás de uma eventual delação. “O cometimento de crimes, um volume expressivo, em algum momento a pessoa acusada resolve contar o que sabe como estratégia de defesa, porque imagina que vai ganhar um destino não tão prejudicial. O tamanho da magnitude sugere que essa pode ser uma possibilidade.”
Cortez aponta que não faltam ramificações. “São citações em diversos órgãos do Estado, em organizações privadas, políticos. Não faltam ramificações do esquema.”
“Uma coisa é o impacto político relevante – isso está tendo, todo mundo só fala sobre isso, está mexendo com as ações do Estado, com os mecanismos de controle. Outra coisa é a extração de dividendos eleitorais desse processo. Isso é mais intrigante, mais difícil de antecipar justamente por conta do tamanho que isso está acontecendo”, conclui.
Fonte: Brasil de Fato




