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Crise da Corsan/Aegea mobiliza lideranças no RS e expõe falhas na regulação do saneamento

“Mapa da Crise da Aegea”, elaborado por vereadora de Passo Fundo, já reúne denúncias de mais de 100 municípios do RS

Corsan abrindo valas em uma das ruas do bairro Boqueirão em Passo Fundo (Foto: Divulgação/Rosângela Borges)

A falta de estrutura da agência reguladora estadual e a pressão por mudanças nas regras de fiscalização estão no centro de um movimento crescente no Rio Grande do Sul contra a atuação da Corsan/Aegea. Lideranças políticas de diferentes regiões, órgãos de defesa do consumidor e instituições como Ministério Público, Defensoria Pública, Procon e Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) têm se movimentado diante da repetição de problemas nos serviços de abastecimento e esgoto.

Mais recentemente, a mobilização ganhou força a partir da iniciativa da vereadora de Passo Fundo Marina Bernardes, que estruturou um “Mapa da Crise da Aegea”, reunindo denúncias de mais de 100 municípios gaúchos. A articulação rapidamente extrapolou o município e se consolidou como uma mobilização estadual, com relatos semelhantes vindos de diversas cidades.

Atualmente, a Aegea atende 317 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, alcançando cerca de 6 milhões de pessoas. Até 2025, 295 municípios já haviam firmado aditivos contratuais para adequação ao novo modelo de concessão, dentro das exigências do Marco Legal do Saneamento.

Problemas recorrentes e padrão de falhas
As denúncias apontam para um conjunto de falhas que se repetem em diferentes regiões: desabastecimento frequente, aumento significativo nas tarifas, cobranças consideradas abusivas, troca de hidrômetros com inconsistências e exigência de obras intradomiciliares de alto custo.

De acordo com levantamento do Ministério Público do Rio Grande do Sul, até maio de 2026 foram registrados 198 procedimentos envolvendo a concessionária, incluindo ações judiciais e investigações. Os principais temas envolvem falhas no fornecimento de água, problemas no sistema de esgoto, cobranças irregulares e dificuldades de atendimento ao consumidor.

Em Encantado, o Ministério Público recomendou a suspensão do contrato de esgoto após falhas reiteradas. O departamento jurídico da Prefeitura informou que a decisão foi motivada por falhas na prestação de serviço e resistência da concessionária à fiscalização municipal, marcando um grave atrito dois anos após a privatização.

Segundo a recomendação do Ministério Público, as obras vinculadas ao tratamento do esgoto devem ser suspensas até o atendimento dos pontos estabelecidos, especialmente vinculados à informação e estrutura de atendimento ao usuário. Há uma instrução normativa dos documentos solicitados pelo Município, bem como a recusa da Aegea/Corsan para fornecimento dos documentos.

Em municípios como Santa Maria e Estância Velha, há registros de desabastecimento e até contaminação da água. Já em São Marcos, uma força-tarefa institucional foi criada para enfrentar problemas recorrentes desde a privatização.

O papel da regulação sob questionamento
Um dos pontos centrais do debate é a fragilidade da fiscalização. A Agergs, responsável pela regulação no Estado, é apontada como insuficiente em estrutura e pessoal para atender à demanda dos municípios atendidos pela concessionária.

Durante reunião com a ANA, em Brasília, foi sinalizada a intenção de alterar normativas nacionais para exigir maior capacidade operacional das agências reguladoras. A orientação é que os municípios também assumam papel mais ativo na fiscalização dos contratos.

Para a vereadora Marina Bernardes, a origem da crise está no modelo adotado. “Há mais de um ano nosso mandato vem denunciando diferentes descasos. Começou com a falta d’água, depois vieram as cobranças abusivas, a pressão por obras de esgoto e problemas no atendimento. Observamos que esse padrão se repete em todo o Estado”, afirma.

Segundo ela, a abertura de poços artesianos foi uma solução emergencial para a crise hídrica, mas pode gerar impactos futuros ao explorar o lençol freático em larga escala.
“São soluções paliativas que acabam se tornando permanentes. Falta planejamento. Os municípios ficaram reféns de contratos mal elaborados”, completa.

A parlamentar também destaca que o movimento coletivo surgiu a partir do contato de outras cidades. “Começaram a nos procurar dizendo ‘coloca a nossa cidade no mapa’. Isso mostrou que não era um problema isolado, mas um cenário estadual.”

Impacto direto na população
Em Passo Fundo, um dos principais pontos de tensão foi o envio de notificações exigindo que moradores realizassem, por conta própria, a ligação do esgoto doméstico à rede pública, sob risco de penalidades. A medida afetou principalmente famílias de baixa renda, especialmente em imóveis com soleira negativa, ou seja, em nível inferior ao da rua.

Segundo o procurador-geral do município, Giovani Corralo, a obrigatoriedade da ligação ao sistema de esgoto está prevista no contrato de concessão, mas há exceções importantes. “A obrigatoriedade está suspensa para imóveis com soleira negativa, onde a ligação por gravidade não é possível. Para os demais casos, essa é uma exigência inerente ao sistema de esgotamento sanitário”, explica.

Corralo destaca que o município buscou esclarecimentos junto à Agergs sobre a aplicação das regras e reforça que a principal preocupação é justamente com as famílias que enfrentam limitações técnicas e financeiras para executar as obras.

O município afirma ter intensificado a fiscalização da concessionária, especialmente após a privatização. Em 2025, foram abertos mais de 46 processos administrativos relacionados a falhas na execução do contrato; em 2026, já são mais de 20. As penalidades aplicadas somam cerca de R$ 1,7 milhão neste ano e quase R$ 5 milhões no anterior. “A grande maioria desses processos envolve intervenções em logradouros públicos, como abertura de valas e recomposição inadequada do pavimento. Temos legislação específica que prevê sanções quando essas regras não são cumpridas”, detalha o procurador.

Ele acrescenta que também há processos relacionados ao fornecimento de água, especialmente após episódios recentes de desabastecimento. “O início de 2025 é um exemplo claro, com falhas significativas que resultaram em processos administrativos robustos e aplicação de multas”, afirma.

Para o município, o cenário evidencia a necessidade de fiscalização contínua e atuação mais rigorosa sobre a concessionária, diante dos impactos diretos à população.

Diante do volume de reclamações, diferentes frentes institucionais foram acionadas. Procons municipais, Defensoria Pública e Ministério Público ampliaram a atuação, incluindo ações judiciais e recomendações formais.

A reunião com a ANA consolidou o tema como uma pauta nacional. Técnicos da agência destacaram que as denúncias são fundamentais para ajustes regulatórios e para garantir que a universalização do saneamento — prevista até 2033 — ocorra com qualidade e segurança.

Com CPIs, audiências públicas e ações judiciais em andamento, a crise da Corsan/Aegea deixou de ser pontual e se transformou em um debate estrutural sobre o modelo de saneamento no Rio Grande do Sul.

A convergência entre lideranças políticas, órgãos de controle e população indica que o tema deve ganhar ainda mais relevância nos próximos meses, especialmente diante do desafio de equilibrar expansão da cobertura com qualidade efetiva dos serviços prestados.

O que diz a concessionária
Em nota, a Corsan/Aegea afirma que atua com transparência e segue todas as normas regulatórias. A empresa destaca que realiza monitoramento diário da qualidade da água, com centenas de análises, e que as tarifas e serviços estão de acordo com a legislação vigente.

Sobre a cobrança pela disponibilidade de rede de esgoto, a companhia afirma que se trata de uma exigência regulatória, aplicada após a notificação ao usuário. Também ressalta a existência de tarifa social para famílias de baixa renda.

A concessionária reforça ainda que está conduzindo um plano de investimentos de cerca de R$ 15 bilhões até 2033, considerado o maior da história do saneamento no Estado.

Fonte: Rosangela Borges / Sul 21